nostálgicas primícias

a primeira vez que vi o futuro

Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco).

A Insurgência Contra a Violência em Michel Serres

A violência, por mais paradoxal que pareça, engendrou em Michel Serres um amor transbordante pela vida. Serres vivenciou terríveis experiências durante a Segunda Grande Guerra Mundial, que o fizeram investigar (e condenar) as causas da produção beligerante mobilizada pelo poder e pela brutalidade humana. A entrevista concedida por Serres a Bruno Latour, que deu origem ao livro “Luzes”, é a melhor tradução da sagaz condenação do filósofo francês à violência.


Imagen Thumbnail para michel-serres-.jpg Michel Serres

A notícia no telejornal matutino divulga uma explosão no centro de Damasco, que especulasse tenha matado cinquenta pessoas. A informação seguinte dá conta da prisão de integrantes de um grupo de extermínio formado por policiais que executavam jovens negros de uma periferia brasileira. Essas reportagens se unirão a outras de temáticas semelhantes para forjar com os telejornais vespertino e noturno – e jornais impressos e virtuais – um panorama de sangue, destruição e desesperança. A violência se torna tão pungente no cotidiano, que a interrogação sobre a segurança ultrapassa o temor de conflitos armados, assaltos, crimes passionais e recobre-se de uma profunda sensação de impotência que questiona nossos fundamentos mais sólidos sobre relações humanas. Justiça, comunhão, honestidade, lealdade, respeito parecem se obscurecer diante gestos cada dia menos solene de incompreensão, estresse, raiva e vingança. Na contemporaneidade ocidental instável, cujo alicerce civilizatório (advinda de uma moral judaico-cristã, das conquistas liberais, dos direitos humanos, etc.) se fragiliza de instante em instante, o filósofo Michel Serres capitania doses precisas de argúcia intelectual, senso crítico e de “compromisso” com a sensibilidade para observar o movimento, ou escala, da violência neste tempo hodierno.

A manifestação da violência ocupa destaque central em seu pensamento. Tal preocupação pode ser observada na entrevista concedida por ele a Bruno Latour, em “Luzes”. Serres declara que sua formação em filosofia não foi gestada e aprimorada pela presença de um autor como mestre; na verdade, a ideia de formação é pouco atrativa para o filósofo francês. Seus estudos na matemática, na epistemologia, ou mesmo na filosofia, caminharam fora do tripé mestre-aluno-método. Bruno Latour, no fim da primeira entrevista, cujo capítulo trata da formação intelectual de Serres, pergunta-o sobre a busca de um estado solitário para a reflexão-produção filosófica. Indagação a qual Serres responde expondo morte e vida como binômios, de certo modo, inseparáveis. Porém, na perspectiva de uma superação latente pelo amor.

“A formação do filósofo, necessariamente, dura muito tempo, pelos acasos da história e pelas infelicidades do ofício, minha foi, além disso, austera e dolorosa. Levei décadas para me libertar dessa influência primeira: a miséria e a morte como estado cotidiano; três tostões e a vida como raros e excepcionais. Enfim, tirei disso, como por reação e ressurreição, ou por natureza, necessidade ou exigência, um irreprimível amor pela vida, um prazer inexprimível e contínuo de existir minimamente e pensar, quando isso me sucede” (Michel Serres, Luzes: cinco entrevistas com Bruno Latour. São Paulo: Unimarco Editora, 1999, p. 56).

Um pensamento orientado pelas calamidades da guerra. A geração de Serres, infantes e juvenis da Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945), foi marcada pelo horror, pela fome, pelas atrocidades injustificáveis. A Europa invadida, dominada, vilipendiado pelo máximo poder da razão instrumental, da “assepsia” científica e do discurso social da supremacia racial. O pensamento de Michel Serres é pontuado pelas lembranças desse período em que Hitler, Franco, Mussolini, Stálin e Salazar cometiam as mais vis formas de assassinatos, torturas e humilhações. A miséria e a morte, a visão trágica de um momento que parece rumar para um abismo insondável e assustador.

Zygmunt Bauman, ao refletir quais traços da modernidade concorreram para efetivar o Holocausto, percebe a estrita relação composta pela racionalidade e pela cultura.

“O Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura. A autocura da memória histórica que se processa na consciência da sociedade moderna é por isso mais do que uma indiferença ofensiva às vítimas do genocídio. É também um sinal de perigosa cegueira, potencialmente suicida” (Zygmunt Bauman, Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 12).

A modernidade como estágio da história humana e apogeu da razão gerou, como expressou a Escola de Frankfurt, “monstros” por sempre estar em vigília. Serres, como testemunha do conflito bélico mais discutido do século XX, jamais negou sua disposição para desvendar e avaliar as causas da violência. Na entrevista a Latour, na qual afirma “ser formado intelectualmente pelas revoluções interiores às ciências, e filosoficamente pela relação, interior e exterior, entre ciência e a violência” (1999: 28), um nome surge como influência determinante para entender o direcionamento que segue a sua filosofia: Simone Weil. A leitura das obras da filósofa esclarece a Serres as pulsões dos atos violentos e o contagia com o desafio de uma produção abrangente sobre os fatos da vida.

“Eu lera Simone Weil, a primeira filósofa que realmente falou de violência, em todas as suas dimensões: antropológica, política, religiosa e mesmo científica. Nenhum de meus livros abandona de fato essa questão, proveniente sem dúvida de minha experiência, histórica e intelectual, mas também pensada pela primeira vez com intensidade, por essa mulher fora do comum, cuja obra acompanhei desde o início” (1999, p. 28).

curiosidades-da-segunda-guerra-mundial.jpg Ruínas da Segunda Guerra Mundial

A posição de Weil de enfrentamento à violência inspira Serres a examiná-la continuamente. Em “Filosofia Mestiça”, um livro considerado por muitos críticos e leitores do autor como poético e hermético, Serres trata sobre o problema do mal e, diferentemente dos chamados pós-modernistas que duvidam da capacidade da razão de arregimentar condições para modificar a atual estado de instabilidade moral, ética e política, vê a razão como geradora do mestiço instruído, percebe-a responsável pelos saberes científicos, “sol brilhante” que ilumina a sapiência de homens e mulheres; e ainda projeta uma segunda razão, esta ardente que surge do pensamento e do sofrimento (este último lastro do encontro da ciência com a cultura que faz emergir ou revela a dor, o mal e a pobreza). O problema do mal está imbricado aos dois modos fundamentais da razão, o das ciências e do direito; o pensamento de Serres convoca a observar a razão, prestigiá-la, interrogá-la, deixar-se invadir por sentimentos compatíveis com a aurora da razão da mestiçagem que apreende, aprende um novo mundo.

“Só existe uma razão autêntica. Ela clareia e mobiliza sob duas formas: sem a primeira, clara, a segunda seria irracional, mas sem a segunda, quente, a primeira seria insensata. A igual distância das duas, o mestiço instruído é engendrado pela ciência e pela compaixão” (Michel Serres, Filosofia mestiça = Le tiers – instruit. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 85).

Bruno Latour, aluno de Michel Serres, interpela-o constantemente sobre clareza e elucidação em torno do pensamento ligeiro, interdisciplinar e não linear do filósofo francês. Serres fala sobre o obscurantismo do qual é acusado. Não o confessa, pelo fato de que aquele que se expressa o faz com a intenção da compreensão. A filosofia de Serres parece conter toda curiosidade, certeza e estilo de uma investigação sobre um mundo que fabrica híbridos, quase-sujeitos (como escreve Latour em “Jamais fomos modernos: ensaios de antropologia simétrica”) que estão ligados tanto à natureza quanto à cultura, que condenados ao ostracismo precisam ser percebidos. O trabalho para evitar a emergência desses híbridos é o da purificação que a modernidade engendrou para classificar, dominar e condená-los ao “limbo”. Uma forma de violência que o processo de tradução busca compreender e corrigir. Latour mostra como a modernidade, na tarefa de impor a purificação, efetivou inúmeras separações que impediram uma percepção simétrica das configurações do mundo. Para isto, pois em curso três estratégias distintas. Primeiro, separando o polo da natureza do polo da sociedade ou dos sujeitos; em seguida, a realização da estratégia da autonomização da linguagem ou do sentido; por fim, desconstrói a metafísica ocidental. Separações oriundas da modernidade que divide, etiqueta e ordena os objetos (e os fatos e o pensamento humano). Serres, assim como Latour, critica o método cartesiano de separar/fragmentar os elementos analisados pelas ciências. Visão de mundo e orientação intelectual para captar um mundo de repetição e de diferença na qual as coisas estão separadas, mas ainda perceptíveis; o trabalho de tradução (de uma abertura para o outro poético que poderia/deveria acompanhar o fazer científico, pois possibilita a interpretação dos fatos construídos por diversos produtores de conhecimentos e seus distintos interesses, contribuindo para a modificação, deslocamento e afetação de interesses e relações contraditórias) apresenta a dificuldade, hoje, de descobrir e traçar fronteiras. Requisitar a obrigação de definir os limites dessas fronteiras seria mais um ato de violência.

Serres filosofia mestiça.jpg

A não relação, ou melhor, a condenação dos híbridos à ausência, à obscuridade é um ponto central na filosofia de Serres. A tarefa de iluminar a inteligência para criar dispositivos que vinculem o trabalho de purificação e o de tradução é o desafio mais urgente. Nada ignorar para não gerar novas e atrozes violências. O ser humano, os objetos, a natureza, a sociedade e a cultura fazem circular, produzem movimentos não lineares no pensamento de Michel Serres. Recorrendo novamente a Zygmunt Bauman, percebemos o peso da violência nesses anos verdes do século XXI, “A insegurança privatizada (existencial) usa muitas máscaras, mas quase nunca revela sua verdadeira face, que como o rosto de Medusa – só pode se encarado sob o risco da paralisia” (Em busca da política. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000, p. 55). O mundo mergulha num sombrio período de afetação, tanto da simulação quanto da presunção. Uma situação que produz violência, pois não sabemos que terreno pisamos. Ainda mais uma vez, Bauman nos lega uma precisa reflexão, “O mundo contemporâneo é um recipiente cheio até a borda de medo e frustração flutuantes desesperadamente em busca de alguma extravasão que um sofredor possa razoavelmente esperar dividir com outros” (2000, p. 62). Situação que a filosofia de Serres – que confronta sua própria formação imersa nas vis intenções dos “fabricantes” de guerras que o marcam especialmente – procura deslindar para combater, “[...] passados os anos, ainda tenho fome da mesma fome, continuo a ouvir as mesmas sirenes, eu me sentirei mal com a mesma violência até o último dia. Na metade do século, minha geração veio à luz entre as piores tragédias da história, sem poder agir” (1999, p. 11). Presença que o acompanha, o faz insurgir contra a face sinistra do ser humano, dispensando os gritos de revolta, sem os acalorados debates sócio-políticos (Serres é avesso às discussões acadêmicas, intelectuais). Mas com plena convicção de um homem que conhece as consequências da barbárie, Serres segue em sua pugna intelectual, “Quando uma vida começa na experiência e na atmosfera da morte ela só pode prosseguir no sentimento contínuo de nascimento, do renascimento, de uma fonte positiva e superabundante de alegria” (1999, p. 570).

Michel Serres se firmou como filósofo da ciência, crítico social e homem das letras que percebeu que argúcia intelectual, ainda que construída e encharcada pela experiência da morte, não precisa necessariamente rimar com amargura. Celebrar a vida mesmo com a presença da violência impregnada na pele, na história é uma arte: as artes do refinamento e da compaixão.


Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco)..
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