nostálgicas primícias

a primeira vez que vi o futuro

Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco).

O Som ao Redor: Ruídos e Reminiscências na Era Tecnológica

Em seu primeiro filme de ficção, Kleber Mendonça Filho (que tem em seu currículo os curta-metragens mais elogiados dos últimos anos) constrói uma crônica social que disseca a classe média recifense (espelho do mal-estar contemporâneo) e expõe o desconforto ocasionado pelo vazio e pelas frustrações de uma experiência urbana composta por uma desigualdade histórica. E nesta Recife, onde nostalgia e tecnologia coadunam, o som produzido pela cidade denuncia ou camufla o medo e a melancolia que nos acossam rotineiramente.


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Certa vez, um proeminente intelectual brasileiro afirmou que, para se compreender o momento pelo qual um país atravessa, deve-se observar sua classe média. Assim, favorecendo um entendimento de que a classe média é o termômetro para se perceber os ganhos e as perdas econômicas e sociais durante um determinado período histórico. O cineasta Kleber Mendonça Filho direciona seu foco em “O Som ao Redor” justamente para um grupo de moradores de um bairro em Recife, próximo da praia de Boa Viagem, pertencente à classe em questão. E, ao adotar essa perspectiva, extrapola a mera intenção de uma radiografia de comportamentos e pensamentos do atual cenário social brasileiro, articulando – a partir dos sons que a cidade e a vida íntima produzem e das imagens de angústia, exclusão, monotonia, prepotência e sonhos que o cotidiano e o próprio cinema fabricam – um estudo de classe, gerando um mosaico de figuras que expõe algumas das fraturas entre felicidade e ascensão social, justiça e poder, liberdade e segurança.

George Orwell, em seu famoso romance “1984” (1949), apresenta a composição social como uma pirâmide; a classe alta ou dominante na parte superior, a classe média no meio do “monumento” e a classe baixa alojada na parte inferior. Uma revolução, tendo como forças motrizes a insatisfação da classe média e a revolta dos pobres, causa apenas uma leve inversão na configuração social representada pela pirâmide, já que a ideologia vigente mantém-se e o êxito em desestruturá-la, descobre-se, não é o real motivo da sublevação: a classe média alcança o topo, a elite cede espaço, mas reafirma seu status de poder e os pobres continuam a sofrer, no mesmo lugar, as intempéries da miséria. O arranjo entre quem está na base do “monumento” e quem comanda a escala vertiginosa do centro até a extremidade equaciona o descontentamento e reforça as posições das castas, as mesmas de outrora, de agora e vindoura, após uma nova insurreição. Em “O Som ao Redor” esse equilíbrio ocorre através de um deslocamento desse poder. Se antes agrícola, na mão de ferro de um senhor de terras, na cidade, por intermédio da aquisição de imóveis, o mando é do empresário que acumula riquezas.

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Começando sua história por fotografias em preto e branco, tiradas em um engenho, Mendonça mostra vidas de um tempo remoto (ainda tão presentes). Imagens de trabalhadores indo para lida, participando de uma celebração, de uma manifestação e a Casa Grande vista à distância. Após os fragmentos da vida rural, somos atingidos por imagens detalhistas e barulhos ensurdecedores. A vida urbana toma a tela e acompanhamos crianças que correm e brincam em uma área de recreação de um condomínio. Vigiando-as bem de perto estão suas babás, desenhando a primeira reminiscência da Casa Grande e da Senzala, primeira demarcação, que busca referência na obra de Gilberto Freyre. E o trajeto de um poder que, antes de ser atávico, é o prolongamento de privilégios do coronelismo e da aceitação dos iguais pelos iguais (desde que comprovem os recursos para sua estada). A partir disso, no mosaico engendrado por Kleber Mendonça, acompanhamos João, corretor de imóveis no negócio de família; Bia, dona de casa e mãe de dois filhos, que se incomoda com os latidos do cachorro do vizinho e tenta afastar a solidão que toma conta dela; Francisco, proprietário dos imóveis e avó de João, antigo dono de engenho e que mantém a postura de coronel do passado; Clodoaldo (Irandhir Santos, para variar, em excelente atuação), chefe de segurança, que chega ao bairro oferecendo os serviços de sua firma; entre outros personagens que cruzam a história fechando o painel montado, tendo como suportes fundamentais a imagem e o som.

E o som é realmente essencial para estabelecer a “arquitetura” das inquietações que sufocam ao ponto de irradiar a nostalgia e a segurança pelos aparatos tecnológicos. Os sons transmitem o medo exterior que ressoa internamente como incapacidade de vencer o vazio existencial. Latidos de cães, batida de automóveis, elevadores, ruídos vários engendram a dissonância entre as expectativas de classe e o medo emanado pela possível presença dos “de fora”, da eclosão da violência. A falsa ideia de harmonia comunitária conforta, mas não rompe a insegurança. O surgimento dos vigilantes é o ponto em que se desmascara que as grades e a tecnologia trazem a sensação de segurança, porém, revelam novas prisões, aumentando o desconforto interior. E esse perigo, essa tensão, está estampado no desenho de som, que captura e revela as vibrações de Recife. Esse diálogo com a cidade é um grande trunfo da obra. A cidade e tudo que está a nossa volta causam ensurdecimento, mesmo que as ruas convivam com o vazio, perdendo seu valor de local de contato e lazer, pois que vivemos entre grades e a nossa relação com o cenário urbano esmorece cada vez mais.

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E a relação entre nostalgia e a gangorra social (que mantém a elite sempre no alto) pode ser vista na única cena onírica, em um filme pujante e realista, quando visitam o engenho, João, a namorada Sofia e Francisco. Um local abandonado, perdido no tempo, reminiscência de uma época de felicidade. Não à toa aparece como sonho, um Eldorado deixado para trás, o qual até uma sala de cinema continha. Ou seja, trabalhava-se, comprava-se, divertia-se sob a proteção e vigilância do patrão. O momento em que as três personagens embaixo da cachoeira recebem uma cascata de sangue simboliza a não possibilidade de fuga da tirania do passado.

Esse sentimento de nostalgia também acomete Sofia, quando ela toma conhecimento que sua antiga casa será demolida. E a relação entre infância e nossa ausência de preservação desse estado de criação, necessário para o desenvolvimento das crianças, é visto na abolição entre materialidade e memória (no caso dos adultos que perdem a referência física de suas lembranças) e no abandono diante da presença de pais, mães e moradores, que mesmo ali diante da infância que demarca a ruptura com a reminiscência, que afinal não as pertencem, não percebem que o medo do perigo que os ronda, muito mais como espectro, reverbera nas crianças. Duas cenas são sintomáticas, o pesadelo da filha de Bia, que vê de sua janela a invasão do condomínio por habitantes da periferia, e o som dos saltos pelo muro ressoam como horríveis pancadas. O ruído aumenta o terror. Ou quando um menino atravessa as fronteiras do bairro e é descoberto pelos vigilantes, que o agridem, expressando quem é bem-vindo ou não aos limites estipulados como seguro. Em ambas situações, a pirâmide mostra sua faceta: para a classe emergente, o pesadelo está em dividir o espaço geográfico com aqueles a quem acredita ter deixado para trás. E o menino, representando o perigo iminente, é joguete na disputa pela manutenção da paz comunitária, deixando longe quem está logo abaixo nessa escalada pelo reconhecimento dos chamados “esforços” pela ascensão social. A Casa Grande ainda regula quem pode ou não ultrapassar as linhas de demarcação.

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Em três capítulos, “O Som ao Redor” disseca a agonia do espaço: um espaço fechado, onde a proteção é atributo dos que podem pagar, mas que, apesar disso, não mantém a incerteza afastada. E Recife, contudo, é um retrato do Ocidente que vê no diferente, no estrangeiro, um estranho, um Outro que deve ser mantido à distância. Como nos postula Zygmunt Bauman, em “Modernidade Líquida”, “O mundo comunitário está completo porque toda o resto é irrelevante; mais exatamente, hostil – um ermo repleto de emboscadas e conspirações e fervilhante de inimigos que brandem o caos como sua arma principal”. E essa comunidade, frágil e erigida sobre pressupostos que desunem e não integram, está carregada da melancolia e da falsa aparência de felicidade da contemporaneidade. E esses espaços que fogem da hostilidade do mundo e de seus sons constrangedores, tentam preencher seus vazios, seja com sexo, procurando prazer junto a uma máquina de lavar, ou com maconha comprada junto a um prestador de serviço do bairro, como no caso de Bia; ou exibindo boa camaradagem e preocupação social como João, sem, no entanto, defender até as últimas consequências um trabalhador que pode perder o emprego ou ser capaz de romper com a fortuna do avô.

Kleber Mendonça traz à tona a herança verde-amarela cuja reminiscência surge nos pequenos “impérios” urbanos e são dimensionados pelas nossas prisões tecnológicas, grades e câmeras a favor da liberdade vigiada, e pelos ruídos que a cidade emite, como se fossem uma espécie de “invasão bárbara”. São, na verdade, resquícios de um fosso social, que cedo ou tarde brotam para prestar contas ou para tentar reconciliar o que a “história” determinou como irreconciliável. De qualquer modo, o ciclo recomeçará na infância que festeja a vida que pulsa nas explosões sonoras da cidade.


Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco)..
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