nostálgicas primícias

a primeira vez que vi o futuro

Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco).

Pelo Fim das Dualidades: os Problemas de Fronteira na Produção Científica

Em “A vida no laboratório: a produção dos fatos científicos”, o filósofo francês Bruno Latour, em parceria com Steve Woolgar, traça um ousado percurso de crítica às dualidades que forjam uma hierarquização que favorece as pesquisas realizadas no laboratório científico em detrimento aos textos produzidos pelos sociólogos da ciência, filósofos e epistemólogos a partir das observações das experiências promovidas pelos cientistas.


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A época atual, que muitos pensadores (de diversas áreas da produção de conhecimento) elaboram como pós-moderna, assiste o desmoronamento das assertivas que conjugavam as grandes narrativas de outrora. Na verdade, já não se fala em “grandes narrativas”, mas não há como apagar seus vestígios do conhecimento engendrado por séculos. Na filosofia os sistemas fechados, como o Espírito Absoluto de Hegel, encontraram duras críticas a partir do século XX. Na literatura, obras de extenso vulto que cobrem todos os aspectos relacionados à existência humana (nos moldes de “Ulisses” de James Joyce, “A Montanha Mágica” de Thomas Mann ou “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa) são consideras problemáticas pelos departamentos de marketing das editoras. No caso particular da ciência, o que se contesta são os parâmetros de pesquisa. Não se apregoa a eliminação dos parâmetros (a não ser para alguns autores pós-modernos, como Jean-François Lyotard, criticado com rigor por Bruno Latour em “Jamais Fomos Modernos: ensaios de antropologia simétrica”), mas tenta-se erigir fatores de indeterminação e crítica às hierarquizações fomentadas no campo científico. Essa pugna diante das determinações é também uma refutação à ideia de demarcação de territórios a respeito de procedimento seguro, válido e indiscutível. Ao colocar à prova o conceito de demarcação (entrave para a interdisciplinaridade) surge um problema de definição e atuação no que se refere aos métodos e avaliações do processo e do resultado da produção científica. Neste ponto se estabelece um inquérito sobre a questão das fronteiras nos âmbitos da ciência, da antropologia, da sociologia e da filosofia.

Sobre a ciência pesa fatores que fizeram parte de sua constituição: infabilidade, constância, verificabilidade entre outros. Porém, novos desenvolvimentos no campo científico trouxeram luzes contestatórias sobre a ideia de irrefutabilidade dos principais preceitos da ciência e confrontaram o princípio de não contradição: a saber, a física quântica, o princípio da indeterminação de Werner Heisenberg etc. A dificuldade de lidar sob a égide de antigas teorias com os problemas levantados por recentes vieses de verificação da estrutura do mundo (no caso da física quântica, com pouco mais de cem anos) não acarretou apenas a diluição da certeza a respeito de conceitos como estabilidade, determinação, concentração, discernibilidade, mas também causou um rompimento acerca da confortável divisão entre áreas, métodos, critérios na ciência. A fronteira entre um e outro setor tornou-se porosa. As fricções geradas entre elas resultaram em novos modelos de observação do mundo, num conjunto de termos que precisam dar conta desses desdobramentos configurados por essas perspectivas. Deleuze e Guattari trabalham esta recém-engendrada visão de mundo (recém entre aspas, pois ela tem raízes na geometria de Arquimedes) como um espaço liso, modelo turbilhonar, um espaço aberto no qual o fluxo das coisas é incessante, não delimitado, onde as coisas se distribuem segundo esse ritmo, ao invés de um espaço estriado, que é um espaço fechado, métrico, que se ocupa da linearidade e da solidez. Mas esses espaços são permeáveis, há uma necessidade de ocorrências de passagens entre eles. “Se é verdade que a geometria itinerante e o número nômade dos espaços lisos não param de inspirar a ciência régia do espaço estriado, inversamente, a métrica dos espaços estriados (metron) é indispensável para traduzir os elementos estranhos de uma multiplicidade lisa” (Gilles Deleuze e Felix Guattari, Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 5. Tradução Peter Pál Pelbart e Janice Caiafa. São Paulo: Ed. 34, 1997, p. 194). A possibilidade dessa interpenetração deixa, de certa maneira, as fronteiras com aspectos indistinguíveis, o que dificulta a valoração e a hierarquização entre métodos científicos. Tal cenário é propício para ameaçar as dualidades consagradas como exequíveis. As dualidades contribuíram para comportar a pesquisa ao nível do que é distinto, determinável, realizável sem mixórdia ou contestação. No entanto, num espaço liso nada é tão evidente e a noção de dualidade sofre sérios abalos.

No seu estudo sobre o funcionamento do laboratório científico, Bruno Latour enfrenta tais dualidades e as diferenças criadas para sustentar credibilidades fomentadas para melhor erigir hierarquias. Em “A vida de laboratório: a produção dos fatos científicos”, o filósofo francês, em parceira com Steve Woolgar, elabora uma incisiva análise sobre o fosso artificial entre laboratório e texto, ciências exatas e ciências humanas, fatos e artefatos entre outros. O capítulo 6 da obra de Latour e Woolgar, “A ordem criada a partir da desordem”, é a que nos interessa aqui. Na sexta parte do livro, os autores efetuam uma avaliação dos capítulos anteriores e esmiúçam alguns conceitos que elucidam o intento em romper as dualidades que forjam as hierarquias que obscurecem certas classificações (de ordem intelectual – no que concerne ao reconhecimento dos pares –, de ordem financeira – patrocínios e investimentos para pesquisas -, etc.) predominantes no âmbito científico. A pesquisa de Latour ocupa com destreza o “espaço liso” formado durante o exame da construção dos fatos em laboratório.

Latour começa chamando a atenção para a criação de um novo vocabulário “fora” do âmbito científico que confronte os termos habituais edificados por cientistas, historiadores, epistemólogos e sociólogos da ciência. O filósofo mostra que os problemas de tal empreitada são nítidos, “[…] nossa afirmação de que a atividade científica é feita de construção e da defesa de pontos de vista ficcionais, que, por vezes, são transformados em objetos estabilizados” (Bruno Latour e Steve Woolgar, A vida em laboratório: a produção dos fatos científicos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997, p. 265). Porém, é necessário formar um estatuto que verse sobre a atividade científica. Para tanto, Latour apresenta seis conceitos precípuos da investida almejada: construção, agonística, materialização, credibilidade, circunstância, ruído.

A construção diz respeito “ao processo material lento e prático pelo qual as inscrições se superpõem e as descrições são mantidas ou refutadas” (LATOUR e WOOLGAR, 1997, p. 266). Esse quadro é completado pela composição do diálogo e do confronto próprios do debate científico para instaurar um paradigma.

É preciso atentar-se aos inscritores (anotações, tubos, literatura, termômetros, etc.) e tomar cuidado para que o método, o enfoque e o objetivo não sejam contaminados e conformados somente pela subjetividade individual de quem pesquisa. Latour desmitifica, assim, a diferença entre fatos e artefatos, essa fronteira sofre uma corrosão. O estatuto do real é o efeito da produção da pesquisa e do reconhecimento dos seus argumentos.

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A agonística é o campo de disputas, onde as proposições são vetores da atividade científica na qual a aplicação da fórmula (orientada por essas proposições) sobre os eventos é considerada pela força dos enunciados, “se a realidade é a consequência, e não uma causa dessa construção, isso significa que a atividade do cientista é dirigida não para a 'realidade', mas para essas operações realizadas sobre enunciados” (1997, p. 267). A noção de agonística integra características do conflito social e explicações dos fenômenos em termos epistemológicos. Um campo agonístico comporta a disputa entre grupos de pesquisa que se impõem pela retórica e pela influência política. O que facilita a busca por financiamento. Há muitos elementos que favorecem a conquista nesse “palco”: sustentar o desafio de uma controvérsia é uma delas. Há muita coisa em jogo e fatores externos guiam a recepção de artigos, que são chaves para coroar a empreitada. Esse confronto de assertivas se dá no tribunal instalado pelo próprio meio científico. A distinção entre “política” da ciência e sua “verdade” é outra dualidade posta à prova.

A materialização ou reificação é o processo de transformação do que resulta do uso de equipamentos no laboratório como conhecimento intelectual, “os investimentos do laboratório acabam por materializar-se em estudos clínicos e na indústria farmacêutica” (1997, p. 269). Um enunciado torna-se sólido na disputa persuasiva (agonística), se reifica e é incorporado aos procedimentos correspondentes à teoria e à prática de um laboratório. A diferença entre equipamento “material” e componente “intelectual” em um laboratório é dissolvida na noção de reificação.

Credibilidade designa “os diferentes investimentos feitos pelos pesquisadores e as conversões entre diferentes aspectos do laboratório. A credibilidade facilita a síntese das noções econômicas (como o dinheiro, o orçamento e o rendimento) com as noções epistemológicas (certeza, dúvida e prova)” (1997, p. 270). O crédito se revela fundamental para se dispor de patrocínios devidamente conciliados com os resultados, as asseverações relacionadas às pesquisas. Há todo um ritual ou estágio que deve ser observado, um tipo de socialização inevitável, que versa sobre os inscritores utilizados, a carreira dos pesquisadores, a forma do artigo etc. A necessidade de credibilidade forja uma interdependência entre diversos fatores, “fornece ao observador uma visão homogênea da construção dos fatos e embaralha as divisões arbitrárias entre os fatores econômicos, epistemológicos e sociológicos” (1997, p. 270-271).

O conceito de circunstância mostra que o que está em volta do objeto pesquisado faz parte da prática da ciência. Diz Latour, “Chegamos ao ponto de afirmar que a ciência é inteiramente produto das circunstâncias” (1997, p. 271).

A noção de ruído (a relação do sinal com o ruído) contribui para o entendimento de que “a informação é medida com referência a um pano de fundo de acontecimentos equiprováveis” (1997, p. 272). A alternativa de que toda a informação tem um peso igual como probabilidade, não representa um erro no método, mas demonstra que o enunciado contém flexibilidade.

Latour e Woolgar, em seguida, fazem uma relação entre os conceitos que se cruzam e geram uma relação de codependência, seja numa nova forma de pronunciar um enunciado, seja em uma refutação por consequência de um ruído ou na conclusão de que o oposto do que fora observado até o momento dará consistência a pesquisa. Tudo tem que passar pelo crivo da verificação. Por exemplo, “a operação da informação transforma, assim todo o conjunto de eventos igualmente prováveis em um conjunto de elementos desigualmente prováveis. Ao mesmo tempo, essa operação apela para as atividades de persuasão (agonística) e de escrita (construção), de modo a aumentar a relação sinal/ruído” (1997, p. 274-275). Elementos como manipulação, retórica e texto compõem um arcabouço de convencimento, o que pode consolidar um método de pesquisa. Os conceitos de agonística e credibilidade podem colaborar para o levantamento de recursos financeiros em casos nos quais o nome do cientista se sobreponha a evidência inquirida pela pesquisa. Desse modo, talvez, possa ser entendido como essencial se a relevância do projeto em questão se esmaece diante da celebridade do pesquisador. Muitas vezes impera a lei do mercado na qual os estratagemas empresariais e comerciais são mais importantes que a pesquisa científica a ser patrocinada. Para Latour, “A atividade científica não trata da 'natureza', ela é uma luta renhida para construir a realidade. O laboratório é o local de trabalho e o conjunto das forças produtivas que torna essa construção possível” (1997, p. 278). Assim, o que se instaura como paradigma pode corresponder à realidade. Todo o enunciado que se estabiliza é reintroduzido no laboratório, se reifica e torna difícil a sua refutação. Porém, a vitória no âmbito do discurso não significa que a realidade “proposta” seja a realidade, portanto, como expressa Latour, “a verdade é secretada”.

Bruno Latour defende que a ordem surge da desordem. Na verdade, é preciso criar a ordem. Qualquer modificação na arrumação do laboratório ou nas anotações das atividades causa um enorme transtorno. Por exemplo, a “experiência” de retirar as etiquetas das amostras do que já foi colhido em uma pesquisa pode gerar tal pesadelo. Daí decorre que, para evitar a desordem, é preciso recorrer a truques, estratégias, relatórios etc. O autor faz justiça à noção de inscrição argumentando que “a escrita não é tanto um método de transferência de informação, mas uma operação material de criação de ordem” (1997, p. 280). A escrita é uma maneira de ordenação, assim avaliamos que tanto o texto quanto o laboratório têm o mesmo intuito de ordem. A escrita revela sua importância na atividade cientifica.

Latour observa que todo o experimento dá ensejo a uma curva padrão. No prélio contra a desordem toda atenção às inscrições materiais se faz necessária. “Toda curva está envolvida em um fluxo de desordem. Ela só se escapa da dissolução porque tudo está escrito ou organizado, porque as rotinas são incorporadas de uma forma tal que um ponto não pode estar em outro lugar em um livro de notas” (1997, p. 281).

A atividade científica solicita uma postura metódica, um sistema de organização. “Os objetos surgem por meio da constante atividade de classificação. Os finos traços legíveis (produzidos pelos inscritores) são registrados, produzindo um foco de ordem no qual nem tudo é igualmente provável” (1997, p. 282). Todo ruído anotado supõe um aumento considerável da desordem. Entretanto, os traços captados pelos inscritores e o acúmulo desses sinais precisam ser distinguidos, são eles que movimentam a produção do laboratório. “A realidade científica é um foco de ordem criado a partir da desordem, e isso é feito capturando-se cada sinal que corresponde ao que já está fechado e ao que fecha, custe o que custar” (1997, p. 282). Latour insiste, indubitavelmente, que a ordem é criada e que essa ordem de forma alguma é pré-existente. Apelando para os estudos desenvolvidos pela biologia, pela Teoria da Complexidade e para o que versa a teoria do caos, o filósofo defini, consoante às vozes dos principais pensadores dessa linha (como Edgar Morin, Michel Serres etc.) que “a construção da ordem repousa sobre a existência da desordem” (1997, p. 288).

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Bruno Latour comenta a providencial importância que os sociólogos deram a comunicação informal na atividade cientifica, “[...] a produção de uma informação nova é necessariamente feita pela interpretação dos encontros inesperados, das redes informais e pela proximidade social” (1997, p. 289). A comunicação tem relação estrita com o acaso, com o não formal, não acadêmico; é diálogo com o alternativo, considera a vizinhança epistemológica e atua num “espaço liso” que se choca com as determinações efetuada pela métrica (DELEUZE e GUATTARI, 1997). A ciência é constituída pelo que não foi ainda catalogado, mas que se tornará padrão, sem, no entanto, retirar do jogo a imprevisibilidade. Latour aponta como fundamentais para o processo de produção da ciência as circunstâncias das descobertas e o processo de trocas informais, afirmando que sem esses pontos a ciência não existiria. Há um fluxo comunicacional que deve ser observado.

Para concluir, devemos nos atentar para o fato que o “roteiro” conduzido por Latour, em sua análise da atividade científica no laboratório, tem como proposta findar as distinções usuais entre os epistemólogos – cientistas e sociólogos da ciência trabalham para manter o curso das dualidades como imperativos. Por isso Latour apreende o movimento dual do texto a partir das observações fornecidas pelas anotações. O texto confronta a literatura produzida pela pesquisa, fomenta o confronto dos escritos dos interpretadores com os dos interpretados. Uma comprovação, para o autor, é que a sustentação das diferenças de métodos entre ciência “dura” e ciência “mole”, no que se refere à hierarquização, é diluída. Na verdade, as abstrações, as fórmulas, os dados colhidos não se estabelecem sem a persuasão, uma combinação de estatística e retórica.

Latour estende a indiscernibilidade entre as fronteiras do acaso e da necessidade, da ordem e da desordem, critica os que precisam forjar a realidade do laboratório como superior. Para o filósofo francês, tanto as suas observações empíricas da atividade do laboratório traduzidas em anotações como o trabalho desenvolvido pelos cientistas no laboratório possuem o mesmo peso, pois ambos lidam com a construção de descrições que serão levadas ao campo agonístico, terão que se utilizar da credibilidade possível de ser conquistada e assim por diante. Nesse estágio, Latour rompe com a fronteira que institui um grau de valor superior ao laboratório, promovendo a equivalência entre o laboratório e o texto, “A única diferença é que eles têm um laboratório. Quanto a nós, temos um texto, o presente texto” (LATOUR e WOOLGAR, 1997, p. 297). Bruno Latour desafia o pensamento pré-ordenador que evoca dualidades e enfrenta uma ciência que precisa lidar com as fronteiras que se dissolvem mediante problemas


Wuldson Marcelo

Corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (2013, Editora Multifoco)..
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