Viviane Franco

Formada em Letras/Italiano e Pós-Graduanda em Tradução, sou apaixonada por Literatura, música, cinema, psicanálise e toda a forma de arte que salva almas.

O mal de todos os séculos

Gostaria de entender como pensam os suicidas e porquê chegam ao extremo de tirar a própria vida? A literatura pode ajudar. E muito!


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Depois da morte do ator norte-americano Robin Williams, em 2014, muitos foram os artigos que surgiram sobre o tema do suicídio e da depressão e, muita gente, felizmente, tem procurado se informar sobre o assunto. Sem dúvida, informar-se e abandonar a ignorância é a melhor forma de entender e prevenir o problema.

E, claro, a literatura, por tratar-se de uma pormenorizada forma de expressão humana, nos traz uma rica fonte de conhecimento sobre o assunto.

Muitos poetas, ouso dizer, os melhores, pagam um alto preço por sua genialidade. Especialmente aqueles que tratam da alma, da beleza da subjetividade. A eles, é exigida uma sofrida sensibilidade à vida, uma percepção intensa dos sentimentos. É preciso entregar-se ao sentir, submeter-se à completude as emoções. Não é permitido anestesiar-se, fugir, amenizar as paixões. Assim ocorre com muitos artistas.

Muitas vezes, a própria arte é canalizadora dessa sensibilidade, tornando tudo mais suportável, no entanto, não menos sofrido. Muitos poetas suicidaram-se na arte para sobreviver à realidade. Outros, nem mesmo assim, conseguiram suportar a dor.

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Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, presenteia-nos com muitos poemas sobre viver "sentindo" com tanta intensidade. Abaixo, um trecho do poema "A melhor maneira de Viajar é sentir":

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir./ Sentir tudo de todas as maneiras./ Sentir tudo excessivamente,/ Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas/ E toda a realidade é um excesso, uma violência,/ Uma alucinação extraordinariamente nítida/ Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,/ O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas/ Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

O mesmo autor, em outro poema (Cansaço), exprime o quanto é difícil essa sensibilidade:

A subtileza das sensações inúteis,/ As paixões violentas por coisa nenhuma,/ Os amores intensos por o suposto em alguém,/ Essas coisas todas —/ Essas e o que falta nelas eternamente —;/ Tudo isso faz um cansaço,/ Este cansaço,/ Cansaço.

Goethe, em seu grande "Os sofrimentos do Jovem Werther", trouxe o suicídio à tona, causando, diz a lenda, uma epidemia de suicídio na Europa. Muitos jovens românticos viram-se representados pelo personagem principal da história. É preciso saber lidar com a sensibilidade. Não com o anestesiamento e alineação às questões da alma, próprios dos dias atuais e, sim, com uma compreensão melhor sobre o assunto.

Já é consenso que a sensibilidade artística é uma característica de muitos gênios suicidas. É preciso que se discuta este tema no campo da saúde mental. Como evitar que tal sensibilidade acabe em suicídio, quando arte sacrifica o artista? E mais do que isso, é preciso encontrar na literatura e nas artes em geral, material para estudos sobre o suicídio. O assunto é tabu para grande parte a sociedade, que reage, muitas vezes, de forma violenta e acusatória por não entender o que sente o suicida. É preciso abrir mão da ignorância.

Para mais sobre o tema, sugiro:

O filme "A loja dos suicídios":

O poema "Se te queres matar", de Álvaro de Campos.


Viviane Franco

Formada em Letras/Italiano e Pós-Graduanda em Tradução, sou apaixonada por Literatura, música, cinema, psicanálise e toda a forma de arte que salva almas..
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