Viviane Franco

Formada em Letras/Italiano e Pós-Graduanda em Tradução, sou apaixonada por Literatura, música, cinema, psicanálise e toda a forma de arte que salva almas.

Depoimento de quem sempre leu e agora lê menos

Como explicar por que quem faz Letras começa a ler menos depois de iniciada a faculdade?


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A maior prova de que o ser humano nunca está satisfeito com sua presente situação é que quando somos crianças, queremos ser adultos e quando somos adultos sentimos uma falta mais do que grande de nossos tempos de ócio e ausência de sérias responsabilidades.

Tais tempos eram os melhores para o ócio criativo. Tínhamos o ócio aliado à inocência e à alegria juvenis, que, de certa forma, impedem uma depressão profunda e incapacitante. Assim, depois de instigada a curiosidade literária por minha tia, pude apreciar o prazer literário durante toda a minha infância e adolescência. Minha tia me doava a maior parte do repertório. Nesse período, fui apresentada a desde "O mundo de Sofia" até meu amado Dostoievski; não deixando, felizmente, de passar pelos nacionais, como Érico Veríssimo e Machado de Assis.

No momento do vestibular, optei pela carreira relacionada à minha segunda maior paixão (que perde apenas para a música). Fiz Letras. E aí, a menina que leu Frankenstein em um único dia (despertando a ira da mãe, que a considerava doente, uma adolescente anormal) simplesmente perdeu o prazer pela literatura. Descobri que a ficção é sempre uma coisa querendo dizer outra coisa. Começamos, nós, alunos, a perceber que era importante saber o que Aristóteles disse antes de elaborar nossa opinião. Começamos a ler textos e mais textos, ensaios e mais ensaios sobre diversos pontos de vista. Começamos a estudar a formação da linguagem. Tudo isso é extremamente interessante. Mas matou, de certa forma, o prazer da leitura simples. O prazer pela simples apreciação literária como entretenimento. Há linhas teóricas que, inclusive, condenam a apreciação literária como fonte de entretenimento.

Hoje, depois de pós graduada, procuro aquele prazer de antigamente, e sinto que jamais o terei novamente. Meu ócio já não é mais criativo, e sim melancólico e desistido. Estou tão banhada pela vida real, que mergulhar no mundo do livro é muito difícil. Felizes aqueles que conseguem devorar um exemplar grosso de Stephen King.


Viviane Franco

Formada em Letras/Italiano e Pós-Graduanda em Tradução, sou apaixonada por Literatura, música, cinema, psicanálise e toda a forma de arte que salva almas..
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