nude but not naked

Reflexões sobre arte, imagem e hiper-realidade na contemporaneidade (e outras cositas más) ...

Viviane Rodrigues

Fotógrafa, docente, jornalista, apaixonada por arte. Passa a vida como "voyeur": olho no ecrã. Tem sempre disposição para prosa e poesia.

A ARTE DE SE SENTIR MAIS VIVA OU RAZÕES PARA SE VIVER A ARTE

Na Arte devemos pensar que “If we persist in our restless desire to know everything about the universe and ourselves, then we must not be afraid of what the artist brings back from his voyage of discovery.”


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ATO I Ontem eu fui assistir a “Simplesmente Eu, Clarice”, com Beth Goulart.

Não bastasse que Clarice Lispector sempre é - e para sempre será - arrebatadora, encontrei uma Beth Goulart que honra com talento e toda a devoção que um artista precisa ter, no caso, o tablado mágico que pisa. Um deslumbre.

Poucos objetos em cena. Mesmo porque Clarice demanda espaço. Uma cortina de fitas brancas - bela e simples solução para a troca das peças de roupas que orientam a/o atriz/público no navegar entre os cinco personagens da obra - usada também para projetar imagens.

O figurino é lindo. Veste perfeitamente a mulher cheia daquele charme incontido, impetuoso e clássico que a escritora emanava.

Na peça, uma delícia: nada de pirotecnias.

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ATO II

Guardei carinhosamente na memória uma cena. Depois de interpretar Joana, de “Perto do Coração Selvagem”, após harmonizar-se de Clarice novamente, de taça rubra de vinho em mãos, Clarice/Beth, se chega à beira do tablado em uma luz linda. Creio que me encolhi na cadeira pela força da presença. Me sobreveio uma vontade descarada, tão festiva quanto dolorida, pela impossibilidade de poder capturar aquela imagem. Lá se foi à primeira lágrima de várias do espetáculo. Era beleza demais para caber no olhos, ... Imaginei Sthendal nos afrescos italianos*

Vai ser bom lembrar esta e outras cenas da peça e guardar o gosto de alguém que tem paixão e respeito pela Arte para os tempos de miséria, na falta da comunhão entre vocação e talento, que permeia o hoje e o futuro. Foi uma noite de talentos. Sai de lá feliz e pensativa.

ATO III

Lamentei apenas que todos não possam partilhar sensações como esta. Sim, eu, sinceramente, acredito que a Arte deveria estar ao alcance de todos... E ela está. Basta procurar. No entanto e na verdade, o que eu lamento muito mesmo é que, quem tem tempo e R$35,00 prefira Chips, cerveja, balas; lojas de 1,99; drinks, Playboy, Nova; ______________; qualquer coisa, a comprar um livro; ir ao teatro ou a um filme que a/o desafie.

Porque a Arte é inspiradora. Inoportuna. Perturbadora. Arte permite. Arte não exige. Arte faz pensar. Arte (des)orienta. Arte educa. Fortalece.

CHIPS + Coca = menos um livro.

Horrível olhar esta conta. Injusta. Emburrecedora.

ATO IV

É bom esclarecer também que o valor do artista não está em exprimir “opiniões recebidas ou dar expressão clara aos sentimentos confusos das massas: esta é a função do político, do jornalista, do demagogo. O artista é o que os alemães chamam de ein Ruttler, um perturbador da ordem vigente.”

“Gastar” com Arte, com livros, com peças,... ... ... Isto somente cabe a quem faz reflexão e pensa em educação. Serve para quem quer ir mais longe e profundo, porque “ uma educação pela arte não prepara os seres humanos para os atos irracionais e mecânicos da indústria moderna, não os concilia com um lazer destituído de propósito construtivo, não os deixa satisfeitos com o entretenimento passivo. Ela visa criar agitação e crescimento em toda parte, substituir a conformidade e imitação em cada cidadão por um dote de poder imaginativo."

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Na Arte devemos pensar que “If we persist in our restless desire to know everything about the universe and ourselves, then we must not be afraid of what the artist brings back from his voyage of discovery.” (Se nós persistimos, sem descanso, no desejo de saber tudo sobre o universos e nós mesmos, então não devemos temer o que o artista traz das viagens de descoberta que faz.)

ATO V

O que está faltando é mais coragem, minha gente. Mais galhardia. Não tenha medo de onde a Arte pode te levar. Mergulhe junto e volte sã@, [email protected], (des)[email protected] e mais [email protected] e [email protected] Aproveite que existe gente intrépida como Beth Goulart**, que abriu uma vereda entre a própria alma e a de Clarice e quer te leva pela mão para ver o que de legal ela descobriu...

Vai lá e guarde uma memória de aprendizado. Faz bem para a natureza humana. Faz você se sentir mais vivo.

Hoje eu estou me sentindo mais viva.

* O escritor Stendhal, reconhecido por descrever de forma profunda e aguda o personagens, após uma viagem a Nápoles e Milão, descreveu a experiência que teve: “ Absorto na contemplação de tão sublime beleza, atingi o ponto no qual me deparei com sensações celestiais.” Ele teve vontade de chorar, tonturas, ... Isto foi rapidamente transformado em sintomas de um distúrbio chamado de Síndrome de Sthendal. ** Beth Goulart se preparou durante dois anos para interpretar Clarice. - Todas as frases não referenciadas são de Herbert Read. Criado em uma fazenda, com pais muito conservadores, no início do século XX, saiu de North Yorkshire, na Inglaterra, para se tornar poeta, crítico de arte, pensador, expoente do movimento de educação pela arte. Os textos dele são lidos ainda hoje em áreas como a pedagogia, a sociologia, a filosofia política, entre outras.


Viviane Rodrigues

Fotógrafa, docente, jornalista, apaixonada por arte. Passa a vida como "voyeur": olho no ecrã. Tem sempre disposição para prosa e poesia..
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