o arteiro

Um olhar ardiloso sobre arte e cultura em geral

Felipe Faverani

Estudante de Jornalismo. Sente amor hegeliano pelo humano.

O autoritarismo alemão em exposição no Louvre

Aberta ao público há pouco mais de um mês, "Da Alemanha: 1800-1939" é muito mais do que pode parecer à primeira vista. A exposição reflete o pensamento de muitos europeus em relação ao papel da Alemanha na crise econômica atual que assola o Velho Mundo.


miséria.jpg O profeta, de Jakob Steinhardt (1913)

De Hogarth aos artistas contemporâneos, a arte tem sido utilizada como um poderoso instrumento de protesto. Embora a instauração da arte e o discurso relativo ao objeto artístico sejam historicamente subordinados à ideologia de uma classe dominante, inúmeras obras tornaram-se símbolo de revolta contra as atrocidades geradas pelos sistemas político e socioeconômico vigentes na época que foram produzidas, como é o caso da série de quadros "Os desastres da guerra", de Francisco Goya, que retrata os horrores da Guerra da Independência Espanhola.

goya.jpg Três de maio de 1808 em Madrid, de Francisco Goya (1814)

Mas e quando toda uma exposição parece servir-se de obras de diversos artistas para compor um ato de protesto implícito contra a opressão de uma nação sobre as outras e se tornar, tal qual as obras de Goya, um símbolo de revolta?

Esse parece ser o caso da exposição "Da Alemanha: 1800-1939", inaugurada no último dia 28 de março, no Museu do Louvre. Caracterizada pela imprensa alemã como um escândalo político-cultural, a mostra, que conta com 200 obras e pretende retratar a produção alemã do século XIX e começo do século XX, foi recebida com maus olhos pelos críticos de arte germânicos. Alguns a acharam "extremamente nazista". Nela, pinturas que retratam um nacionalismo exacerbado, como as de Carl Gustav Carus, por exemplo, e pintores que sofreram de alguma forma influência desse artista ganham mais destaque que pintores do expressionismo alemão, da República de Weimar, que tem presença reduzida.

montanha.jpg Alta montanha, de Carl Gustav Carus (1824)

Tudo parece contribuir para uma percepção da Alemanha como historicamente tirana. Aliás, não é assim que o país tem sido percebido ultimamente por conta da crise econômica, principalmente por países como Grécia e Portugal? A imprensa alemã percebeu a possível relação.

Fato é que, por meio da análise dos simbolismos presentes no pouco conteúdo que se conhece da exposição, é possível compreender o motivo de tanta balbúrdia em cima da imagem política que a mostra pretende disseminar.

Pegue o quadro "Apolo entre os pastores", de Gottlieb Schick, por exemplo. Pintado entre os anos de 1806 e 1808, em estilo neoclássico, o quadro retrata o que parece ser um discurso de Apolo. Na mitologia grega, dentre as inúmeras funções desse deus, estão a de protetor dos pastores e a de agente da purificação dos homens. É importante que se compreenda "purificação", aqui, como uma palavra polissêmica.

Apolo.jpg Apolo entre os pastores, de Gottlieb Schick (1806-1808)

Na pintura, pastores parecem ouvir atentamente as palavras de Apolo; alguns parecem encantados, seja com a sua imagem ou com o seu discurso. Antropologistas afirmam que, antes da agricultura, os arianos exerceram atividade pastorícia. Proteger o povo germânico, a raça ariana, e "purificar" a Alemanha não eram dois argumentos muito fortes da política nazista? Como não comparar a postura de Apolo na pintura de Schick à figura de Hitler?

Dentre outros símbolos na mostra que lembram o ditador austríaco, está a pintura neoclássica "Le Walhalla", de Leo von Klenze. Arquitetonicamente um templo, símbolo de culto, Walhalla foi visitado por Adolf Hitler quando esse ainda era jovem, e se tornara uma das obras arquitetônicas da qual o führer mais gostava. Poder-se-ia dizer que "Da Alemanha: 1800-1939" não é uma exposição para ressaltar a produção artística de tal período no país, mas sim exaltar o caráter autoritário, tirânico do povo alemão.

walhalla.jpg Le Walhalla, de Leo von Klenze (1836) O mais contraditório, e igualmente engraçado, é que "Da Alemanha: 1800-1939" é parte integrante da comemoração dos 50 anos do Tratado de Eliseu, acordo que simboliza a paz entre Alemanha e França após quase um século de conflitos constantes.

Muito embora os diretores do Louvre afirmem que as acusações da imprensa alemã sejam infundadas, as escolhas para a mostra refletem um pensamento geral na Europa em relação aos alemães por conta do seu autoritarismo nas negociações para a resolução da crise e das medidas de austeridade impostas aos países em maior dificuldade financeira.


Felipe Faverani

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