o arteiro

Um olhar ardiloso sobre arte e cultura em geral

Felipe Faverani

Estudante de Jornalismo. Sente amor hegeliano pelo humano.

O que uma obra literária pode nos dizer sobre o casamento gay no Reino Unido?

Romance escrito há 100 anos encontra resignificação em meio a recente conquista de direitos pela comunidade LGBT britânica


gay_01.jpg No último dia 17 de julho, o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado no Reino Unido - Foto: Leon Neal/AFP

Que fique claro: este não é um texto sobre Oscar Wilde. Embora a persona do escritor irlandês apareça ao correr dessas palavras, o autor de que se pretende falar aqui é outro; possivelmente, de um que é desconhecido à maioria dos leitores brasileiros: o romancista Edward Morgan Forster ou, simplesmente, E.M. Forster.

Há exatos 100 anos, em algum momento do atribulado ano de 1913, Forster redigia as primeiras páginas de um romance que permaneceria por mais de meio século encerrado em uma gaveta, e que viria a ser publicado somente em 1971, um ano após a morte do autor, como realização de uma última vontade.

"Maurice", a história de um jovem aristocrata britânico, Maurice Hall, semelhante em tudo a todos os outros homens a não ser por não amar as mulheres, surge nesse nosso momento de sequenciais conquistas de direitos exatamente como o próprio autor presumiu que o romance surgisse: como um livro de interesse histórico.

maurice.jpg A primeira edição brasileira de "Maurice" chegou ao Brasil em 2004, 34 anos após a primeira edição do livro

Dedicado "a um ano mais feliz", a par "a inabilidade britânica para conceber a diversidade", Forster escreve "Maurice" num período em que a homossexualidade ainda era considerada crime no Reino Unido, apesar de em países vizinhos como, por exemplo, a França, velha inimiga dos ingleses, a homossexualidade não mais ser caracterizada como crime desde 1791.

E o escritor não deixa de salientar o avanço francês em oposição ao retrocesso britânico no romance. Numa das visitas que Maurice faz a um médico que utiliza a hipnose como método para a "cura" da homossexualidade, o protagonista surpreende-se ao saber de tal resolução:

“Quer dizer que um francês pode unir-se a um amigo e não ir para a cadeia?”

“Unir-se? Quer dizer ter relações? Se ambos são maiores de idade e evitam o escândalo público, decerto que sim.”

“Essa lei algum dia será aprovada na Inglaterra?”

“Duvido. A Inglaterra nunca esteve disposta a aceitar a natureza humana.”

forster.jpg O escritor E.M. Forster nos estúdios da rádio BBC de Londres

Não à toa Forster diz semelhante coisa. A História nos revela o porquê.

A primeira lei civil do Reino Unido referente à sodomia, o Buggery Act, foi aprovada ainda durante o reinado de Henrique VIII, em 1533. Tal lei inferia em pena de morte e cassação de bens do condenado pela coroa britânica, e permaneceu em vigência durante 328 anos quando, em 1861, o Ato contra ofensas à pessoa removeu a pena de morte por sodomia.

Vinte e quatro anos mais tarde, em 1885, é criada a Emenda Labouchere, que introduz o chamado "atentado violento ao pudor" às configurações legislativas britânicas. Tal emenda serviu largamente como meio para processar homens cuja sodomia, a princípio, não podia ser comprovada.

Pela existência de tal lei, Oscar Wilde foi condenado, em 1895 (quando o território da Irlanda ainda pertencia ao Reino Unido), a dois anos de serviços pesados por supostamente manter relações com o jovem Alfred "Bosie" Douglas. E o nome de Wilde aparece em "Maurice" como possivelmente ele era utilizado à época. É o que revela a conversa que Maurice tem com um jovem médico conhecido seu, com quem a princípio pensa em se consultar por conta da homossexualidade:

1987-maurice_2061909i.jpg Cena da adaptação de "Maurice" para o cinema, em 1987, com James Wilby e Hugh Grant

“Diga-me, em suas caminhadas por aí, você encontra tipos imencionáveis, da laia de Oscar Wilde?”. Mas Jowitt apenas respondeu “Não, o hospício toma conta deles, graças a Deus”.

Apenas em 1967, quatro anos antes da primeira publicação de "Maurice", a homossexualidade na Inglaterra e no País de Gales é descriminalizada por meio do "Ato de ofensas sexuais". Em outras regiões do país, como a Escócia e a Irlanda do Norte, a descriminalização acontece somente em 1981.

O próprio Foster, em nota redigida - pasmem! - em setembro de 1960, revela um possível motivo para que a conquista de direitos pela comunidade LGBT não somente britânica, mas como em todo mundo, se dê de maneira tão paulatina:

"Não havíamos percebido que aquilo que o público realmente abomina na homossexualidade não é a coisa em si, mas o fato de ser obrigado a pensar nela".

Não há melhor citação para descrever os debates que incendiaram a Câmara dos Lordes, a Câmara dos Comuns e a comunidade britânica como um todo nos meses anteriores à aprovação da medida que legalizou o casamento gay no Reino Unido, há exatamente um mês.

Forster previu o futuro. Este texto é igualmente dedicado a um ano mais feliz.

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Felipe Faverani

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