o arteiro

Um olhar ardiloso sobre arte e cultura em geral

Felipe Faverani

Estudante de Jornalismo. Sente amor hegeliano pelo humano.

“Prisma”, curta brasileiro de temática LGBT, está em exibição nos Estados Unidos

Em entrevista especial, o diretor Matheus Marco Moraes comenta a mostra do seu trabalho em um outro país, fala do processo de criação, da mescla entre filosofia e cinema, e das dificuldades para produzir o filme sem qualquer tipo de verba pública ou privada


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O curta-metragem "Prisma", primeiro trabalho do diretor paulista Matheus Marco Moraes, está em exibição esta semana no festival Polari: The Austin Gay & Lesbian International Film Festival, no Texas, Estados Unidos. O curta, que conta a história de um encontro entre dois amigos e trata da descoberta da sexualidade e do amor por meio de diferentes perspectivas, está inscrito em uma das categorias competitivas do evento como uma das produções convidadas para a seção de filmes experimentais.

Apresentado em uma instalação, como aquelas presentes em museus e bienais de arte contemporânea, a fim de proporcionar maior contato da obra de Moraes com o público do festival, o curta segue em exibição nos Estados Unidos até o próximo domingo, 20 de outubro.

O filme, realizado de maneira totalmente independente por Moraes, sem verba pública ou privada alguma, contou somente com o apoio da Escola Superior Sulamericana de Cinema e TV do Paraná (CINETVPR), e da Faculdade de Artes do Paraná (FAP) para cessão de equipamentos como uma steadycam, utilizada em alguns planos da película.

Numa entrevista especial concedida do Paraná, onde reside há cerca de dez anos, o diretor fala um pouco sobre o filme, o processo de criação e de gravação, e ainda conta como foi ser selecionado para o festival nos EUA. A pedido do diretor, as respostas dele foram publicadas na íntegra, sem qualquer tipo de edição.

Felipe: Após assistir ao seu filme, foi inevitável não lembrar da filosofia pitagórica, que faz da ciência geométrica um meio de conhecimento da vida. Como se deu o processo de criação de um filme que apresenta uma linha de pensamento geometricamente estruturada como "Prisma"? Era sua intenção desde o início mesclar filosofia e cinema?

Matheus: Foi minha intenção, mas ela não existia no argumento e roteiro original, foi algo que eu introduzi a partir do momento em que assumi a direção do filme. Eu sempre gostei de filosofia e certamente seria uma segunda opção acadêmica caso o cinema não estivesse em primeiro plano. Por exemplo, lembro que li ‘Assim Falava Zaratustra’, do Nietzsche, ainda adolescente, sem nenhum tipo de referencial teórico sobre, apenas pela curiosidade e foi interessante justamente pelo caráter mais narrativo que há no livro. Por outro lado nunca gostei de filosofia mais clássica ou tradicional e meu interesse sempre foi um pouco intuitivo e talvez estético, por certos estilos e filósofos específicos. Gosto muito de Deleuze, Bachelard, Baudrillard.

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A filosofia me interessa (assim como o cinema e certos cineastas) enquanto propulsão inspiradora, seja pelo modo como escrevem ou filmam, pelas imagens que desenvolvem seja através de conceitos ou planos e montagens. Talvez por isso Deleuze seja meu filósofo favorito, tanto pela sua escrita, pelo modo como desenvolve suas idéias e principalmente imagens e por ter escrito talvez os melhores livros de cinema na minha opinião que são o ‘Cinema I – A Imagem Movimento’ e ‘Cinema II – A Imagem Tempo’ que inclusive flertam muito com Bergson e seu ‘Matéria e Memória’, segundo o próprio Deleuze um dos primeiros textos a falar sobre e de cinema sem ter pretensão alguma disso ao tratar desde já questões de tempo, movimento, espaço e movente.

Chegando no Bergson chegamos no ‘Prisma’ em questão já que eu deliberadamente quis que um personagem o citasse, isso não havia no roteiro original, nem mesmo o texto inicial referenciando Merleau-Ponty. Apesar de você citar a filosofia pitagórica e a ciência geométrica pela questão formal do filme, acho que o sentido filosófico do filme reflete um sentido menos objetivo, essa “linha de pensamento geometricamente estudada” porque, apesar da rigidez formal das três telas, tão rígidas e retas, o conceito por trás é muito mais subjetivo ou metafórico digamos, é o da própria refração. É a luz que incidindo no sólido vai provocar justamente as difusões, um espectro de imagens novas, incertas, irreais, distorcidas, falsas ou possíveis. O filme possui uma forma objetiva (o formalismo das três telas) que contém um conteúdo subjetivo.

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Por isso a importância da referência inicial ao Merleau-Ponty e depois a citação direta a Bergson no meio do filme, pois ambas explicitam a idéia que eu quis mostrar no filme a respeito das relações entre polaridades, o real e o imaginado (e também realidade e ficção ou fabulação), o próprio Deleuze fala da noção bergsoniana da fabulação para dar-lhe um sentido político; a amizade e o amor, eu e o outro. O filme o tempo todo está jogando nesses dois planos, o que contém e o que está contido, o dentro e o fora. Existe um plano que é construído enquanto realidade, porém ele pode facilmente ser desmistificado, trocado, invertido, sejam os papéis dos personagens quanto à própria noção de antes e depois. Enquanto Bergson falava muito da questão dos corpos no espaço e suas relações de movimento, Merleau-Ponty traz em sua filosófica essa idéia da percepção tão cara ao filme, principalmente no que diz respeito à aparência e à essência, além da relação subjetiva do homem com a natureza, o ver e ser visto etc, a percepção subjetiva completa.

Eu tinha um roteiro que basicamente possuía duas linhas propriamente narrativas, apenas informava que um personagem estava a espera de outro num espaço genérico e havia algumas indicações de ação como, por exemplo, o tirar uma bala do bolso e abrir, coisas que eu mantive. O restante do roteiro era o encontro imediato e todo o diálogo. Eu a partir desse material quis dar uma forma, um conceito maior e me remeti a esses filósofos próximos a mim e tentei ‘colorir’ o filme pensando numa locação que abarcasse o literal centésimo número de planos que a minha decupagem mental estruturou, da paisagem aos atores além de dividir o filme em três momentos criando assim uma espécie de prólogo e dilatando ao máximo a espera do personagem e modificando alguns pontos do diálogo sem alterar a estrutura narrativa do roteiro original. Foi um processo de direção difícil porque eu precisava decupar cada plano ao cubo, o que gerava mais trabalho criativo, porém o resultado foi compensador.

Felipe: Ser cineasta no Brasil é um desafio enorme. Produzir sem verba torna o desafio maior ainda, quase um trabalho de Hércules. Como foi produzir um curta sem apoio financeiro algum? Como foram cobertos os gastos que você teve durante a produção do filme?

Matheus:‘Prisma’ surgiu a partir de um edital interno da nossa faculdade no qual roteiros eram inscritos, avaliados por alguns professores e profissionais do audiovisual e quando aprovados tinham ao invés de alguma ajuda de custa ou verbal qualquer a possibilidade de utilizar integralmente a infra-estrutura do curso para a realização do curta, ou seja, todos os equipamentos, estúdios, parque de luz etc, já que durante o curso por razões naturais dificilmente tudo estava disponível dessa maneira. Na ocasião eu mesmo inscrevi um roteiro que não foi aprovado e o ‘Prisma’ que era um projeto do Plínio Vinicius Gratão foi um dos três contemplados naquele ano. Então eu assumi a direção e transformei o filme naquilo que ele é hoje pronto.

Produzir um curta sem apoio financeiro algum é difícil principalmente pelas questões de produção mesmo, desde as técnicas que se referem a aluguel de equipamentos que no nosso caso estavam seguramente resolvidas, porém normalmente sempre significam um considerável custo. Conseguimos resolver bem porque eu tinha uma equipe muito boa, principalmente aos meus colegas produtores, o Rudolfo Auffinger, a Sônia Procópio e ao Dudu Candelot que mesmo de longe me deu um auxílio de produção muito especial. Eu, o Rudolfo, a Sônia (e por extensão o Vinicius) durante o curso já havíamos realizados outros curtas enquanto exercícios para disciplinas sem nenhum tipo de verba o que de certa forma nos preparou para esse tipo de adversidade, inclusive para poder tirar dela o maior potencial de resoluções tanto criativas como técnicas.

matheus_marco_moraes.JPG O diretor Matheus Marco Moraes – Foto: Arquivo pessoal

Isso é muito importante para jovens realizadores. Dinheiro é essencial porque o cinema envolve uma logística seja um curta metragem de baixo ou nenhum orçamento quanto um filme norte-americano super faturado. É uma logística de guerra, como bem lembra o Paul Virilio num livro onde ele compara o cinema com a guerra, a câmera e a arma, mas enfim; estão ali todos os elementos de um campo de batalha, não por acaso nós chamamos de QG o espaço onde guardamos numa externa todos os materiais da equipe e produção. É o número ‘x’ de pessoas, são equipamentos, envolve alimentação, deslocamento, funções e forças em trabalho, é realmente uma logística a ser administrada com ou sem dinheiro. É importante o diretor ter consciência do tamanho do seu filme, saber as dificuldades técnicas e de produção para que ele consiga dentro do contexto disponível realizar da melhor forma suas intenções narrativas, estéticas ou quaisquer outras. No caso do ‘Prisma’ eu sabia ao mesmo tempo o que queria e o que eu poderia fazer. Eu tinha uma noção global do projeto, daquilo que queria captar e tentei ajustar isso ao panorama real que havia, assim planejando o número de diárias, planos e assim por diante.

Para dizer que o ‘Prisma’ não custou absolutamente nada, gastamos com refeições, isso porque por algum motivo que agora eu nem me lembro mais optamos ou deixamos de conseguir um apoio para alimentação, além de gastos com o transporte da equipe para a locação.

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É possível fazer um filme sem custo algum, há tantos filmes em festivais e mostras feitos através de dispositivos móveis com resoluções diversas. O importante é medir o tamanho da sua idéia, entender o filme que você quer fazer do ponto de vista teórico e prático, transpor o que é possível e fazer disso uma linguagem, por exemplo. No ‘Prisma’ isso não foi preciso porque não creio que seja visível na tela o fato do filme não ter verba alguma, em alguns filmes isso é notável, por exemplo, na fotografia ou outros elementos mais técnicos. O importante é saber aliar o desejável com o realizável, faça seu filme ser interessante e coerente, seja ele feito com uma Panasivison 70mm ou um câmera de celular.

Este ano, o filme "La vie d'Adèle", que conta a história de uma relação lésbica, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Na mesma edição do evento, o filme "Stranger by the Lake", outra película LGBT, recebeu um prêmio de Melhor Direção. Como você enxerga esse espaço cada vez maior que os filmes com temática LGBT têm encontrado em festivais e mostras de cinema mundo afora?

Matheus: Filmes com temática LGBT sempre estiveram mais ou menos representados em grandes festivais, a diferença é a visibilidade ter aumentado a ponto de serem criados prêmios especiais para estes filmes. O Festival de Berlin criou o Teddy Award em 1987, Veneza muito tempo depois criaria o Queer Lion, premiando, por exemplo, há poucos anos o excelente ‘A Single Man’, do Tom Ford pelo seu virtuosismo, recentemente foi a vez de Cannes criar a Queer Palm, criada apenas em 2010 e premiando e o tresloucado ‘Kaboom’, do Gregg Araki. O que me deixa feliz é perceber que um filme como ‘La vie d´Adèle’ tenha ganho a Palma de Ouro e não um Queer Palm, o que mostra que um filme LGBT pode e deve receber um prêmio não apenas pela sua temática de diversidade, também por isso, claro, mas principalmente por ser um filme merecido de premiação. O mesmo acontece com o ‘Strange by the Lake’, que além da Queer Palm da edição 2013 também levou um prêmio de direção na ‘Un Certain Regard’.

Acho importantíssimo a ‘catalogação’ do que chamamos de Queer Cinema ou New Queer Cinema lá pelo final dos anos oitenta e começo dos noventa enquanto legitimação, cinematográfica e principalmente política, de filmes gays, onde encontramos cineastas como Todd Haynes, o próprio Araki e o Derek Jarman na Inglaterra, mas ao mesmo tempo pensar que atualmente essas fronteiras poderiam ser um pouco diluídas. Acho que há filmes que serão mais pungentes na questão homossexual e forçosamente acabarão fortalecendo esta idéia do cinema gay sendo quase um gênero já que ele torna-se um elemento de diferenciação. Por outro lado não dizemos que iremos ao cinema ou baixamos ‘um filme hétero’.

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O que quero dizer é que recentemente percebo muitos filmes LGBT se preocupando menos em, grosso modo, ‘serem gays’ e apenas ‘sendo’, assim como consigo perceber os homossexuais de hoje, apenas ‘sendo’. De qualquer forma, fazer um filme gay sempre será fazer um filme político, é preciso que o cineasta tenha essa consciência. Os filmes do Xavier Dolan, ‘Week End’, do Andrew Haigh e o ‘Keep the Lights On’, do Ira Sachs na minha opinião refletem um pouco este aspecto. É como se pudéssemos superar certas questões e partir com maior liberdade para outras coisas, assuntos, imagens ou ‘representações gays’ menos estigmatizadas ou estereotipadas. É importante citar também o ‘I Want Your Love’, do Travis Matthews pela extrema naturalidade e despudor do seu olhar. Enfim, o cinema dito gay pode existir independente de um rótulo, isso já acontecia com Cocteau, Pasolini, o Kenneth Anger, Gus Van Sant e continuará existindo principalmente pela poderosa força que existe no simples fato de chocar dois iguais. É como extrair o magnetismo de dois imãs que originalmente acreditassem de repelir, quando essa força entre os pólos é encarada pela câmera o resultado costuma ser poderoso.

Felipe: Como foi ser selecionado para o Festival Polari? Como os organizadores do evento souberam de "Prisma"?

Matheus: Foi uma grande surpresa para ser sincero, eu realmente não esperava ser selecionado para um festival, quanto mais para um internacional e da importância e representatividade do Polari. Eu havia feito uma inscrição em um ou outro festival e mostra daqui e não havia sido selecionado para nenhum deles. Mas o Rudolfo Auffinger, um grande amigo e companheiro profissional que está do meu lado em todos os projetos seja produzindo, montando ou fazendo as duas coisas, pensou alto e resolveu inscrever o ‘Prisma’ em alguns festivais internacionais, como o Polari, sem a atitude do Rudolfo em arriscar inscrevê-lo e inclusive gastar dinheiro com isso nada teria acontecido. O Curran Nault, diretor artístico do Polari, entrou em contato comigo afirmando o interesse em exibir o filme, inclusive comentando a idéia de apresentá-lo nesse formato de exibição de museu, como em uma instalação e eu achei isso ótimo. Por um lado acho fundamental o filme ser visto numa tela grande já que perdemos muita área de tela com a divisão dos quadros, porém é interessante esse tipo de exibição menos tradicional. Um sonho seria exibi-lo com três projetores simultâneos, quem sabe um dia.

polari_poster.JPG Pôster do Polari: The Austin Gay & Lesbian International Film Festival – Foto: Reprodução

Eu sempre achei no fundo que o filme poderia ter um alcance melhor no exterior, nem tanto pelo conteúdo, mas pela forma mesmo dele, apesar de eu considerá-lo uma ficção, ele costuma ser identificado e catalogado como um filme experimental. Eu que gosto desses tipos de filmes não acho o filme um caso de experimentalismo, inclusive pela própria dramaturgia existente no filme. Não é, por exemplo, um filme do Stan Brakhage ou do Peter Tscherkassky que eu considero realmente experimentais. Acho o ‘Prisma’ um filme mais formalista do que experimental. Sempre achei que lá fora ele causaria atenção pelo visual, as telas. O começo do filme é relativamente longo e isso afasta um pouco espectadores mais ansiosos ou mesmo um júri com muitos filmes para assistir como sabemos que inevitavelmente acontece aqui e lá fora. Entrar no Polari foi incrível porque através o filme ‘apareceu’ e um filme precisa existir visivelmente, não apenas como um database ou índice filmográfico.

Felipe: E quanto a exibição do filme pelo Brasil, quando acontece?

Matheus: Existe a possibilidade de uma estréia em Curitiba ainda este semestre talvez na Cinemateca ou no Cine Guarani, uma sala nova que existe dentro de um espaço cultural da cidade inaugurado ano passado. Mas infelizmente ainda não tenho uma data certa. Antes disso eu fiz uma exibição do filme no Centro Europeu para uma sala de estudantes do curso de cinema. Na ocasião além de exibi-lo eu conversei com os alunos sobre o processo de realização, foi ótimo porque foi mais uma conversa do que uma apresentação de costume.

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Talvez o filme seja exibido no final do ano em Porto Alegre em um festival, mas como também não há nada confirmado por enquanto não posso entrar em detalhes porque não depende apenas da minha vontade.

Felipe: Você havia me dito que admira muito cineastas como Jean-Luc Godard, Derek Jarman e Gus Van Sant. Em que a produção de "Prisma" sofreu influências da obra desses diretores?

Matheus: Godard sempre me influenciou muito. Eu entendo como isso costuma soar muito pedante, pretensioso, mas realmente é uma influencia muito forte sob vários pontos de vista, principalmente pelos seus filmes mais recentes, justamente os que sofrem maior rejeição e desprezo por parte do público. Para além da questão filosófica ou das citações tão óbvias e reconhecíveis na filmografia dele e no meu filme, acho que o ‘Prisma’ se relaciona bem visualmente falando com alguns filmes dele como o ‘Nouvelle Vague’, de 1990, um filme bastante difícil, feito basicamente de citações, um tanto hermético, de pouca empatia, porém muito forte, pelo menos pra mim, em certas construções de sentido, efeitos lingüísticos, visuais, fotográficos e sonoros. O modo com a natureza aparece em ‘Nouvelle Vague’ me fascina muito, algo que ele já havia feito antes em ‘Je vous salue, Marie’, de 1985 e principalmente no curta ‘L´Amore’ que faz parte do longa coletivo ‘Amore e Rabbia’, de 1969. O Derek Jarman é outro cineasta bastante representativo pra mim pela força visual de seus filmes, ele que tem uma origem pictórica e fotográfica, além das antologias em Super8 e depois seus filmes de tamanha beleza. Acho que o ‘Prisma’ recebe uma influência do Jarman principalmente no seu começo, nos minutos iniciais da espera, momento em que eu observo obsessiva, mas delicadamente, o espaço, a natureza, os elementos e os personagens, seus rostos, seus corpos. O Jarman fazia isso com maestria. Um filme dele que dialoga bem com ‘Prisma’ é o ‘The Angelic Conversation’, de 1987. Já o Van Sant traz esse frescor de juventude, esse olhar ora cristalino, ora meio opaco, turvo, mas sempre inspirado para esses jovens, com pouco julgamento e muita beleza, não necessariamente uma beleza clichê, mas sempre bastante honesta. Naturalmente os planos de steadycam, não necessariamente os do diálogo, mas os iniciais acompanhando um personagem de encontro ao outro remetem diretamente aos planos do Van Sant em ‘Gerry’ ou ‘Elephant’ que por sua vez se inspiraram nos planos sequências do Béla Tarr.

Encerramos a entrevista aí. Após a conversa, a impressão que fica é a de que o acúmulo de conhecimento e a sensibilidade em constante exercício do jovem diretor paulista podem levá-lo à produção de obras ainda melhores e tão bem estruturadas em sua dualidade quanto “Prisma”. Não à toa o convite que recebeu para exibi-lo em um festival como o Polari. Espera-se que o talento e o esforço de Matheus, cujo desenvolvimento merece ser assistido, seja igualmente reconhecido quando “Prisma” for exibido no Brasil. O convite a uma observação que fragmenta para revelar um todo, seja do amor ou da própria ideia de diversidade, é irrecusável.

Assista a um teaser de “Prisma” no canal do diretor no Youtube:


Felipe Faverani

Estudante de Jornalismo. Sente amor hegeliano pelo humano..
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