o arteiro

Um olhar ardiloso sobre arte e cultura em geral

Felipe Faverani

Estudante de Jornalismo. Sente amor hegeliano pelo humano.

O perdão como forma de autoabsolvição

Ou "Alan Turing: duas vezes vítima da hipocrisia humana"


Alan_Turing.png Imagem: Reprodução

A Rainha Elizabeth II outorgou na última terça-feira, 24, em nome da família real britânica, um pedido de perdão ao matemático e cientista inglês Alan Turing, considerado o pai da computação. Por meio da chamada "Prerrogativa Real de Piedade", a monarca anistiou Turing da condenação por "atividade homossexual", 59 anos depois da morte do cientista.

Numa espécie de paródia de um ato católico trivial (a "santa" Igreja tem, como exemplos, Galileu Galilei e até mesmo os Beatles em lista de perdoados pela instituição), os ingleses podem agora tirar o peso da ingratidão que lhes fazia doer as costas pelos serviços prestados ao país (e por que não ao mundo moderno?), pelo homossexual Turing.

Criador das bases da informática contemporânea e do "Colossus", um dos primeiros computadores programáveis do mundo, Alan Turing foi responsável por decifrar, à época da Segunda Guerra Mundial, os códigos "Enigma", utilizados por submarinos nazistas em navegações feitas pelos alemães no Oceano Atlântico. Tal descoberta permitiu a salvação de um sem-número de vidas e encurtou o período do combate, com alguns historiadores apontando a façanha como um dos fatores que contribuiram para a queda do ditador alemão, Adolf Hitler.

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O pedido de perdão veio quatro anos após o ex-primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, se desculpar publicamente pela "forma horrível" como Turing foi tratado à época da condenação. De fato, a obrigação à castração química a qual Alan Turing foi submetido, procedimento que o tornou impotente e disforme, uma vez que as injeções que recebia estimularam a formação de seios, não pode ser caracterizada de outra forma a não ser "horrível".

Humilhado, desprovido de dignidade e mesmo de cidadania, Turing cometeu suicídio em 1954, aos 41 anos de idade, por ingestão de cianeto. O "homem notável que teve um papel indispensável no salvamento do país durante a Segunda Guerra Mundial", como declarou o atual primeiro-ministro britânico, David Cameron, foi absolvido de toda culpa imputada a ele pela sociedade inglesa, historicamente ingrata com outros homossexuais nascidos sob a bandeira britânica, como o escritor Oscar Wilde.

No mesmo ano em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legislado no país, o "perdão" a Turing pode lá significar outro avanço, se considerarmos a relutância com a qual a proposta do pedido se deparou anos antes. Mas parece ser, também, uma forma de autoabsolvição indireta: o perdão a Turing, que de fato não merecia ser perdoado por coisa alguma, já que não praticou mal nenhum, é mais um símbolo da hipocrisia humana, que mesmo diante do horror da tortura e da morte permanece impassível.


Felipe Faverani

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