o canto de pandora

Tenho uma mente crónica, que até a mim me espanta, confesso...

Armanda Andrade

Como as ondas do mar, tento alcançar a terra, mas sou capricho das marés e vagueio entre mundos. Tenho uma mente crónica. E gosto de café com pimenta e canela.

A única arte originalmente americana: e como eu sonhava com Trinitá, o cowboy insolente

Serão os westerns a única forma de arte americana original(na opinião de um dos seus maiores intérpretes, Clint Eastwood), realmente original? Porque são os westerns tão populares, que arquétipo universal encorporam? Leia o artigo até ao fim para descobrir o que há para além dos horizontes do Oeste americano!


Clint Eastwood dixit. "Excepto o jazz", acrescentou. Os parêntesis são meus.

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São os filmes Western, farwest, faroeste, índios e cowboys, o bang-bang e a cultura subjacente. Quem afinal não recorda os seus westerns favoritos, mesmo os "spaguetti", com a nostalgia de quem recorda uma liberdade perdida, a liberdade da infância, a liberdade e a emoção de quem enfrenta o desconhecido de uma terra sem donos, sem lei, sem regras, sem a ordem estereotipada da nossa vida actual cheia de rotinas?

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A partir da linha do Mississippi, desde o período que precede a Guerra Civil Americana até ao virar do século XX, o quotidiano daqueles homens e mulheres pioneiros era desbravar, descobrir, enfrentar e derrotar demónios. Tanto os encontravam na figura dos nativos índios, "selvagens" e pagãos, que nada sabiam de colonialismo nem da lei da sobrevivência do mais forte, como até entre eles, seguindo a mesma guerra pela maior e melhor conquista, a competitividade, o chegar primeiro para reclamar a propriedade e as riquezas lá colocadas por Deus especialmente para o homem branco...

Foi o despontar de uma nação que hoje se revê grandiosa e imperial, e que eficientemente exportou para todo o mundo a glorificação da luta e a resiliência dos seus pioneiros, através dos filmes western, através de John Ford e Howard Hawks, só para citar os incontornáveis - de notar que o primeiro filme rodado em Hollywood foi um western, realizado por D.W. Griffith, em 1910 -, através deles e de tantos outros o mundo conheceu o homem solitário sem medo, o pistoleiro e guerreiro mas com honra (nunca se atirava pelas costas), o fora da lei, a natureza ímpar e agreste da Califórnia, do Arizona, Utah, Colorado ou do Wyoming, as paisagens selvagens e inóspitas que qualquer aventureiro deve enfrentar. Nada a ver com os mesmos prédios das mesmas ruas da mesma cidade por onde deambulamos para nosso sustento, encerrados em apartamentos numa vida confortável e sem surpresas!

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Porque é o western tão popular, ainda que actualmente este género cinematográfico tenha atingido o seu declínio? Será que se deve apenas à globalização que facilita tanto a influência e divulgação das culturas dominantes?

A verdade é que o cinema western veio apenas encarnar uma cultura popular já existente há muito, e comum a muitos povos diferentes. A ideia prevalecente a este género cultural é a ideia de viagem. A descoberta de mundos desconhecidos, a sua conquista, a luta do ser humano contra as adversidades e o poder da Mãe Natureza tantas vezes inclemente. A ideia da vontade, da coragem, da honra, da determinação, onde figura sempre a luta entre o bem e o mal. Onde, antes dos filmes western, encontramos isto?

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A resposta é: nos filmes e literatura de samurais; em certas óperas e nas sagas nórdicas. Até mesmo nós, portugueses, valorizamos a nostalgia do desbravar de novos mundos desconhecidos, dos demónios neles imaginados, das inclemências furiosas da Natureza em confronto com a pequenez do homem. E, desde 1876, já o escritor alemão Karl May escrevia histórias do teor dos westerns. O mesmo May que tanto influenciaria o emigrante alemão Carl Laemmle, que fundou a Universal Pictures.

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Os temas universais do western também já eram conhecidos na Inglaterra desde o século XIX: Conan Doyle escreveu a sua primeira história de Sherlock Holmes - outro herói rebelde -, "Um Estudo em Vermelho", em 1887, com todos os elementos de um bom conto sobre o Oeste dos fins do século XIX. Na segunda parte desse livro, ele descreve a vida dos mórmons no continente norte americano. (Os mórmons foram, aliás, os primeiros pioneiros americanos a estabelecerem-se definitivamente no Utah.)

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Portanto, os westerns retratam uma sociedade onde o indivíduo é valorizado pela luta que estabelece com o seu meio e onde os códigos de honra (mesmo entre bandidos) se sobrepõem à lei. É uma sociedade com uma hierarquia primitiva que valoriza a reputação ganha através de actos de violência que tantas vezes se funde com coragem e determinação. Também é frequente a personagem principal, mesmo um fora da lei, mostrar atributos de generosidade e clemência, sem dúvida uma característica infalível no charme e carisma de um herói. E tudo isto constitui, afinal, um arquétipo universal na definição do herói primordial em tantas culturas. Porque, mesmo quando os indígenas, os índios, deixaram de ser os exclusivos vilões, os mesmos atributos e valores do western mantiveram-se.

Os westerns podem considerar-se como a única forma de arte inventada pelos americanos... seja, se eles tanto se identificam, ainda hoje, como sociedade e nação, com eles. Por mim, em pequenina sonhava ser índio. Índio mesmo, pois as mulheres não tinham liberdade nenhuma! Eu podia cavalgar livremente pelas pradarias num magnífico mustangue, incansável e companheiro. Até que apareceu o Trinitá, italianíssimo de olhos azuis luminosos... Não queria ser ele, mas queria conhecê-lo... Quem, afinal, não sonha em ser herói, "even for one day"? Quem, afinal, não sonha em entrar de rompante num saloon do faroeste e "escutar" o súbito silêncio do temor alheio?

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(Apenas uma observação... não tentem fazer isso em Marrocos, por exemplo, onde estarão a beber cerveja às escondidas...)

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Armanda Andrade

Como as ondas do mar, tento alcançar a terra, mas sou capricho das marés e vagueio entre mundos. Tenho uma mente crónica. E gosto de café com pimenta e canela..
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