o canto de pandora

Tenho uma mente crónica, que até a mim me espanta, confesso...

Armanda Andrade

Como as ondas do mar, tento alcançar a terra, mas sou capricho das marés e vagueio entre mundos. Tenho uma mente crónica. E gosto de café com pimenta e canela.

Os artistas são uns voyeurs!

Arne Svenson, Edward Hopper, street photography/art, o que há em comum entre um pintor e um fotógrafo, quando ambos retratam o quotidiano das pessoas em momentos "roubados"?


hopper_edward-night-windows-oil-on-canvas-1928.jpg (Hopper- Night Windows, 1928)

4_website_IMG_3013.jpg (Arne Svenson, "The Neighbors", 2012

A polémica estalou quando Arne Svensou exibiu o fruto do seu trabalho ao público. Teve um sucesso enorme, evidentemente, não só pela enorme qualidade da sua obra, mas porque alimenta o voyeurismo de todos nós. Ele usou a sua teleobjectiva para fotografar os seus vizinhos em poses de relax, rotina doméstica, sem que eles se apercebessem. Porquê tanta polémica se isso é uma prática comum na street photography, ou fotografia de rua?

Dizem as estatísticas que há maior probabilidade de acidentes de viação na altura em que estamos prestes a chegar a casa do trabalho, porque a perspectiva de estarmos quase a podermos refugiar-nos no nosso canto e abrigo abranda a nossa vigilância. "A nossa casa é o nosso castelo", é uma expressão quase sagrada que vem dos tempos em que as vilas e cidades rodeavam o castelo senhorial e fortificado e se protegiam dentro das suas muralhas. É suposto a nossa casa ser o refúgio em que podemos abandonar a máscara da Persona social e sermos nós próprios.

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Isso inclui relaxarmos no sofá, colocar uma roupa confortável, descalçar os sapatos, limpar as fossas nasais, agarrarmo-nos ao nosso ursinho de peluche favorito... Enfim, na nossa casa sentimos que estamos protegidos da intrusão exterior.

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Mas os vizinhos de Arne Svenson não gostaram e protestaram quanto ao que consideraram uma abusiva invasão de privacidade. Apesar de o fotógrafo nunca mostrar os rostos dos fotografados e não identificar ninguém, debateu-se o direito à privacidade e à imagem. Melhor publicidade não poderia ter tido Arne... Afinal, os prédios de Manhattan não são castelos, têm grandes janelas envidraçadas e as cortinas estavam bem abertas. O sol entrava por elas e iluminava bem o interior para quem estava cá fora. Nada de chocante é realmente mostrado nas fotografias e o que se vê é apenas a humanidade de simples cidadãos, habitantes anónimos de grandes cidades. Confira aqui:

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Todavia, o pintor Edward Hopper, que também mostrou figuras anónimas imersas no seu quotidiano, indiferentes ou inconscientes da atenção do artista, em vez de polémica é aclamado pela sua visão humana sobre o indivíduo na sociedade moderna. Eis aqui algumas das suas obras:

Four Lane Road Edward Hopper.jpg

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É então, afinal, um artista, um simples voyeur? No sentido em que observa, espreita, documenta o comportamento humano inserido na sociedade, no campo ou num meio urbano? E se o é, e se assim tem êxito e notoriedade, não será porque há todo um público que aprecia ver essas imagens e quadros? Seremos então, todos nós, um pouco voyeurs...

Ou é esse afinal o propósito da arte, o de esconder o autor e mostrar a obra - como já sugeria Oscar Wilde -, ser a expressão dos tempos na vida do artista que está atento ao que o rodeia e disso mostra a sua interpretação ao mundo?

Será por acaso que estes artistas (e muitos outros, poderia citar Vermeer, por exemplo, que também revelou ambientes intimistas e privados), apresentam obras, distintas na forma, mas tão semelhantes na mensagem e no conteúdo?

É um artista um voyeur? Ou, apenas, um ser humano que se identifica com os seus semelhantes? Quem, de entre nós, não se identifica com as seguintes imagens, que a seguir apresento, alternando entre Arne Svenson e Edwardo Hopper?

1.jpg (Edward Hopper)

Hopper1.jpg (Edward Hopper)

9_website_IMG_4770.jpg (Arne Svenson)

Svenson_Neighbors_4-1066x1600.jpg (Arne Svenson)

hopper_edward-night-windows-oil-on-canvas-1928.jpg (Edward Hopper)

Svenson_Neighbors_9_10_Diptych-1600x1168.jpg (Arne Svenson)

1770826_5_e25a_room-in-new-york-1932-huile-sur-toile_6dc3226a2ea90c7e45092eb60d8c3a86.jpg (Edward Hopper)

Neighbors_37_45x32-1082x1600.jpg (Arne Svenson)

1127108_exposition-edward-hopper-ne-pas-reutiliser.jpg (Edward Hopper)

8_website_IMG_1503.jpg (Arne Svenson)

Edward-Hopper-Summer-Evening-30079.jpg (Edward Hopper)

Svenson_Neighbors_27-1066x1600.jpg (Arne Svenson)

Svenson_Neighbors_8-1236x1600.jpg (Arne Svenson)

hopper.jpg (Edward Hopper)

Neighbors_26_29.5x55-1600x851.jpg (Arne Svenson)

Svenson_Neighbors_13-1600x939.jpg (Arne Svenson)

Svenson_Neighbors_16-1048x1600.jpg (Arne Svenson)

Svenson_Neighbors_31-1600x781.jpg (Arne Svenson)

95-edward-hopper-reading.jpg (Edward Hopper)

h2_53.183.jpg (Edward Hopper)

Hopper_Edward_Cape_Cod_Morning_big.jpg (Edward Hopper)

Afinal esta é a sociedade em que vivemos, o pintor viu a solidão inerente ao quotidiano, o fotógrafo observou e deixa ao expectador a interpretação destas vidas decorridas entre quatro paredes.

Privacidade? Há ainda isso, nos dias que correm? Podemos sempre correr as cortinas...

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Mas, se realmente dão mesmo valor à vossa privacidade e pretendem viver fora dum mundo em que já nada é privado e, para além disso, nem sequer há estranheza ou tabus na exposição do quotidiano das pessoas, segue uma sugestão:

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Armanda Andrade

Como as ondas do mar, tento alcançar a terra, mas sou capricho das marés e vagueio entre mundos. Tenho uma mente crónica. E gosto de café com pimenta e canela..
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