o cinema e o sonho

Blog de cinema e literatura

Julia Lima Rosa

Julia Lima-Rosa é jornalista, escritora e cineasta. Gostar de contar suas histórias, principalmente, através do cinema. E acredita que, se privada delas, parafraseando Rilke, não poderia viver.

Praia dos Homens

Estreia de Praia do Futuro, longa com Wagner Moura, assinado por Karim Ainouz, fomenta discussões sobre a identidade masculina e sua sexualidade através de um novo olhar.


Num filme bem feito, as primeiras imagens sempre conseguem sintetizar seu mundo. Em Praia do Futuro, novo longa de Karim Ainouz, estrelado por Wagner Moura, não é diferente. Vemos dois pilotos de motocross em velocidade, entre enormes moinhos de vento, nas dunas da praia cearense que dá título ao filme. São imagens que nos remetem à força das máquinas e dos homens, do universo masculino. Sim, trata-se de um filme sobre a virilidade e a masculinidade - e como essa construção do homem viril na sociedade pode ser fácil de desmoronar como castelos de areia.

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Desde sua estreia após a seleção no Festival de Berlim, Praia do Futuro tem fomentado debates interessantes. Outros, nem tanto. Em redes sociais, admiradores do filme no Brasil acusam os cinemas de preconceito - mesmo sem checar a veracidade de certas notícias e o sensacionalismo da internet – assim como a “reação moral” dos espectadores brasileiros, nas palavras de Wagner, diante das cenas de sexo gay de Praia do Futuro. Fica claro, se você for ao cinema, que mulheres (e sobretudo homens) ficam desconcertados durante as cenas de sexo gay, entre risinhos nervosos.

O que surpreende o espectador, além da visceralidade das cenas, é que o filme desenha uma relação gay masculinizada, forte, viril. Para muitos, isso é um antagonismo. E não, não há motivos para rir. Ri-se porque o senso comum vê gays, quase sempre, assim: histéricos, vulneráveis, afeminados, todos surrupiados de um filme de Almodóvar, ou das caricaturas e “brincadeiras” cotidianas típicas que os heterossexuais fazem para reforçar preconceitos. Nada contra, mas gays não são só isso; e nem sempre devem soar engraçados. Karim foge bastante disso - e o estranhamento das pessoas nas salas é grande.

Para começar, o homossexual de Wagner, Donato, é um salva-vidas habilidoso, ágil, que domina o mar. Ele se apaixona por um dos alemães que se afogam na praia, Konrad (Clemens Schick). Konrad é um piloto de motocross e ex-soldado do Afeganistão. Maneja a violência das armas, das motos, instrumentos de força destinados aos homens. Naturalmente, assim como Donato, Konrad é um gay que nunca adota tremeliques risíveis, mesmo nos piores momentos. Pelo contrário: guarda muitas tatuagens como feridas de guerra, calado. Seu silêncio pesa. Após o afogamento do outro alemão, os dois passam a lidar juntos com o vazio e a fragilidade da vida. Donato se vê impotente ao ter perdido, pela primeira vez, uma vítima no embate de forças com o mar. As águas salgadas se agitam, quebram nas pedras, remetendo à fraqueza do homem frente à natureza.

Nas cenas seguintes, já somos supreendidos por uma cena hiperrealista de sexo entre os dois, sem maiores explicações sobre como ou o que os levou a isso. Em seu roteiro com Felipe Bragança, dividido em três capítulos, Karim deixa propositadamente lacunas, sem apontar motivações ou certas partes do enredo; apenas ilustra grandes acontecimentos na vida dos personagens.

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Nas polêmicas cenas de sexo, o casal utiliza gemidos e gestos fortes, largos, encenando quase uma luta entre dois homens nus. Não necessitam ser afeminados para se relacionar sexualmente com outro homem, nem vivem a busca frustrada de, (in)conscientemente, ser mulheres. E isso surpreende o senso comum, choca-o. Praia do Futuro é um filme sobre homens. Homens que desfilam sem pudor pelo apartamento seus nus frontais, entre silêncios, testemunhando suas fragilidades e a da vida que passa.

No capítulo seguinte, flagramos Donato vivendo em Berlim, lidando com outra perda: a da identidade, do mar, causada pelo estranhamento de um cearense que caminha por ruas escuras e frias. O mar é poderoso, mas Donato afirma que não vive longe dele. “A Praia do Futuro é perigosa”, advertem no filme, mas isso é o que faz os homens se sentirem vivos.

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O elemento de maior masculinidade do filme aparece no último capítulo, que marca a chegada à Berlim, anos depois, do irmão de Donato, Ayrton (Jesuíta Barbosa). A despeito do sucesso astrônomico de Wagner no cinema, Jesuíta rouba a cena com sua atuação visceral. Apaixonado por super-heróis, motos e máquinas, Ayrton tinha no irmão, quando pequeno, seu ídolo. Com o rancor de anos acumulado pelo abandono dele, o rapaz cumprimenta Donato em Berlim, de repente, com uma cabeçada no estômago. É uma cena marcante, pungente, das melhores do filme. Ayrton se torna outro grande símbolo de virilidade, no sexo casual na rua com uma desconhecida, na agressividade de um irmão ferido. Perdidos, tentando encontrar um lugar no mundo, em Berlim, a vida dos personagens passa. E não há respostas sobre o futuro. Mas sabemos bem que a praia nunca mais sairá de dentro deles.


Julia Lima Rosa

Julia Lima-Rosa é jornalista, escritora e cineasta. Gostar de contar suas histórias, principalmente, através do cinema. E acredita que, se privada delas, parafraseando Rilke, não poderia viver..
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