o cinema e o sonho

Blog de cinema e literatura

Julia Lima Rosa

Julia Lima-Rosa é jornalista, escritora e cineasta. Gostar de contar suas histórias, principalmente, através do cinema. E acredita que, se privada delas, parafraseando Rilke, não poderia viver.

Sobre roteiros, personagens e séries

Na nova era das séries de TV, os desafios do roteirista brasileiro para fugir da obviedade na construção dos personagens, diálogos e acontecimentos.


Dizem por aí que o Brasil começa a viver, timidamente, os tempos áureos da televisão. Graças a bons incentivos, como a chamada Lei da TV a Cabo, cresce o número de roteiros ficcionais seriados de curta duração, em canais pagos ou não, que tendem a profissionalizar o meio e aprimorar o gênero por aqui. Elas vieram no embalo do forte crescimento, nas últimas décadas, das séries americanas cujo roteiro e qualidade técnica/artística foi equiparada (e até superada) ao cinema de Hollywood, como a brilhante série da HBO, Game of Thrones ou Grey´s Anatomy, Lost e Mad Men. Mas naturalmente, ainda falta um pouco para o roteirista brasileiro médio chegar lá.

game of thrones.jpg Game of Thrones

O domínio quase total das telenovelas na América Latina, de certa forma, ajudou o Brasil a se afastar do gênero cinematográfico almejado pelos roteiristas. Acostumamo-nos a assistir todos os dias, ainda que superficialmente, às personagens sem muita profundidade, assim como seus diálogos e ações, o que pode se tornar um obstáculo para o espectador que deseja escrever séries com o selo cinematográfico de qualidade. Mas adianto que isso não é culpa dos autores de novela. O gênero dos folhetins nasceu para ser popular, gosto acessível, e seu excesso de diálogos mais previsível existe para que a antiga dona-de-casa, seu marido que chega do trabalho, o menino que transita pela casa, todos possam acompanhar a trama sem necessariamente sentar em frente à televisão – daí que quase tudo aconteça através da boca dos personagens. O teatro, similarmente, também costuma ter o predomínio do texto sobre as imagens, embora utilize outros elementos.

Mas no gênero do cinema e das séries de TV, personagens e diálogos fáceis são crimes punidos por lei nos grandes manuais de roteiros - de Syd Field a Jean-Claude Carrière. Neles, é obrigatório “mostrar, ao invés de dizer” os acontecimentos, sentimentos do personagem e suas intenções. É comum nas novelas ouvirmos o mesmo lamento, do mesmo casal romântico protagonista de sempre - pessoas virtuosas, de moral inabalável, sem muita complexidade ou contradições. Também ouvimos deles que estão com raiva, tristeza e mágoa (embora seu rosto já as revele); vemos a vilã detalhar seus planos mirabolantes para destruir os protagonistas, ou alguém contar revelações do passado a outro personagem. Quase sempre, há algo incomum nas novelas que os manuais de roteiro costumam pregar: o uso do subtexto nos diálogos.

O subtexto, termo conhecido entre roteiristas, é tudo o que não é dito. Muitas vezes, é somente pensado – ou melhor ainda, incrustado no inconsciente do personagem, revelando-se através de um gesto, olhar, numa mudança de assunto repentina, um silêncio. Sim, o silêncio que diz. Dessa maneira, o roteirista atinge o mistério, o inconsciente do espectador, cria cenas mais fortes – e a verossimilhança. Porque sabemos bem, no dia-a-dia, que ninguém diz tudo o que pensa. Isso é parte do que é viver em civilização, depois que deixamos de ser crianças. Freud explica. Os bons filmes, as boas séries de TV, dão aulas de subtexto: Game of Thrones, Grey’s Anatomy, as brasileiras Contos do Edgar e Filhos do Carnaval (ambos da O2 Filmes), alguns filmes brasileiros premiados mais recentes e, sobretudo, as conversas que nós assistimos no dia-a-dia.

Contos-do-Edgar.jpg Contos do Edgar

É um bom exercício para o roteirista observar os diálogos ao redor, e o mesmo vale para as ações. Elas revelam muito sobre as pessoas, o que pensam e sentem, o que escondem dos outros – e de si mesmas. Syd Field peça que se escreva uma grande ficha detalhada sobre o personagem, com dia do nascimento, endereço, onde já viveu, seu passado inteiro. Uma roteirista norte-americana que admiro vai além: leve seus personagens à terapia, aconselha. E é mesmo necessário. Num bom roteiro, você precisa conhecer tão a fundo seus personagens que, num eventual divã, saberia adivinhar tudo o que diriam – ou não. É daí que nascem os bons diálogos, reações e situações. É importante também que os acontecimentos ao redor do personagem reflitam, de alguma maneira, o que sente, suas crenças, seu mundo; ou sejam um contraste em relação a ele, revelando-o ainda mais. Um bom exemplo é o falatório, a alegria histérica e multicolorida da vizinhança de Edward-Mãos-de-Tesoura (de Tim Burton). Edward, homem calado, sombrio e vestido de negro, herói forasteiro “vindo de outro mundo”, contrasta o tempo todo com o sonho feliz norte-americano. E é assim que simpatizamos com ele, frágil e deslocado, quando são exacerbados os defeitos do nosso mundo comum.

amores_perros.jpg

O contrário disso, acontecimentos e elementos que refletem os personagens, pode ser visto quando entramos no castelo escuro e vazio em que Edward vivia, ou em Amores Perros, do mexicano Alejandro González Iñárritu, em que cada cão reflete a personalidade dos donos protagonistas - e o que ocorre com eles reflete a fase emocional que os donos estão vivendo. Não somente os figurinos, o tom da fala e as ações do personagem devem refletir quem ele é, mas outros personagens também o podem fazer. Num capítulo de Grey´s Anatomy, por exemplo, uma das protagonistas pensa em suicídio sem o dizer, enquanto conversa com uma mulher pessimista e apática, que acaba por revelar ainda mais como ela se sente. Num bom roteiro, as situações também dizem muito sobre as emoções dos personagens. Em Gravidade (do mexicano Alfonso Cuarón), filme premiado no Oscar, uma astronauta se perde da nave e fica à deriva no espaço por horas, revelando seu vazio interior. Três personagens também ficam à deriva, apáticos, num barco ao mar em Limite, clássico brasileiro preto-e-branco de Mário Peixoto. E em Elena, documentário recente de Petra Costa, mulheres de vestido boiam à deriva num rio, refletindo a dor da Ofélia de Shakespeare e da documentarista que perde sua irmã. Todos esses são exemplos de cenas com pouco ou quase nenhum diálogo e mostra como as ações, situações no cinema podem fugir da obviedade e inspirar os escritores. Também valem para mostrar onde os roteiristas das nossas novas séries de TV devem mirar: no bom cinema, boas séries de TV e menos nas telenovelas.


Julia Lima Rosa

Julia Lima-Rosa é jornalista, escritora e cineasta. Gostar de contar suas histórias, principalmente, através do cinema. E acredita que, se privada delas, parafraseando Rilke, não poderia viver..
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