o cinema e o sonho

Blog de cinema e literatura

Julia Lima Rosa

Julia Lima-Rosa é jornalista, escritora e cineasta. Gostar de contar suas histórias, principalmente, através do cinema. E acredita que, se privada delas, parafraseando Rilke, não poderia viver.

Fausto e o Diabo

A eterna trajetória de Fausto, segundo o diretor russo Alexandr Sokurov, prima pela direção e roteiro audaciosos, premiados com o Leão de Ouro no Festival de Veneza


FAUSTO, DE ALEXANDER SOKUROV (2011)

Se em algum momento um diretor de cinema pensou em fazer uma adaptação da obra-prima de Goethe, que perca as esperanças. O Fausto do russo Alexander Sokurov continua decisivo, e diria que nada pode vir depois dele. Toda a beleza e desespero da jornada de Fausto estão ali, gravados na eternidade. O roteiro foi ambientado no sec XIX e utiliza claro-escuros e cores barrocas que nos remetem às pinturas mais primorosas dessa época. Mas Sokurov vai além do bom realismo: no limiar entre o sonho e a realidade, entorta o quadro, deforma imagens, colore-as com tons inesperados. Por vezes, sentimos que estamos diante do reflexo de um velho espelho – que não por acaso, vaga como símbolo pelas nuvens, na primeira sequência do filme. E qualquer semelhança entre espelhos e a vaidade do Dr. Fausto não é mera coincidência.

fausto sokurov 2.jpg

A jornada desse anti-herói, vivido pelo ator Johannes Zeiler, é feita pelas ruas, ao lado de personagens e situações imprevisíveis. Há um grau de loucura em todo o filme: nos estudantes bêbados, na mulher de figurino estranhíssimo (Hanna Schygulla) que diz coisas mais estranhas ainda, nos diálogos obscuros, nas reflexões do diabo e seu corpo deformado, que faz brotar vinho da parede. Aliás, o diabo de Sokurov (Anton Adasinsky) é um filme à parte: difere muito daquele belo sedutor, mostra-se em suas fraquezas, esquisitices, feiúra e falta de higiene. A imagem-síntese disso está nas primeiras imagens, quando Fausto colhe as vísceras de um homem durante uma autópsia e nos sentimos enojados. Desde o início Fausto sabe de quem se trata e para onde irremediavelmente está indo, seduzido pela beleza incomum da jovem Margueritte (Isolda Dychauk), simbolicamente, para adquirir a eterna juventude.

fausto sokurov 4.jpg

Fausto é um homem da anatomia e da ciência, doutor em muitos saberes: médico, flerta com a mitológica alquimia, tenta obter ouro e também os homúnculos ou homens feitos em laboratório. Nesse sentido, brinca de Deus e atrai a admiração do diabo. Tudo o que lhe pede em troca de sua alma é um momento com Margueritte. Essa é uma das mais belas cenas do filme, em que Fausto a abraça e leva-a com ele para as profundezas de um rio, distorcendo as imagens dos rostos como num reflexo das águas. E a profundeza delas, símbolo psicanalítico do inconsciente, permeia todo o filme. Tudo nos fala mais ao incognoscível, ao mistério que nem mesmo Sokurov ousa revelar.

Fausto Sokurov 3.jpg

Por fim, o diabo leva Fausto ao seu lugar de direito. Percorrem paisagens com cavalos, atravessam pedregulhos, e chegam aonde não há ninguém. “É a solidão eterna sem nenhuma esperança de salvação”, descreve o diabo o seu próprio reino. Curiosamente, o roteiro de Sokurov ambienta o inferno na gélida Islândia. Ali, dois ou três homens - um deles com seu próprio duplo - deliram como se numa guerra e se contorcem, mas não há nada ali. Fausto não se cansa de procurar e se admira com uma fonte de água escaldante. “É uma ilusão”, adverte o diabo. Sim, sábia definição: o que mais é o mal senão o não-ser? Fausto estava condenado às ilusões e o diabo, a reinar no vazio para sempre. O pior dos infernos, eu diria.


Julia Lima Rosa

Julia Lima-Rosa é jornalista, escritora e cineasta. Gostar de contar suas histórias, principalmente, através do cinema. E acredita que, se privada delas, parafraseando Rilke, não poderia viver..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/// @destaque, @obvious //Julia Lima Rosa