o cinema em debate

Um espaço para discussão sobre a sétima arte

Cleidson Lourenço

Cleidson Lourenço mora em Conceição do Jacuípe, Bahia. É historiador por formação, cinéfilo por prazer e gosta de compartilhar idéias sobre filmes que, em sua opinião, merecem mais reconhecimento.

O som ao redor: uma representação dos conflitos da classe média.

Em seu primeiro longa, Kleber Mendonça Filho debruça suas lentes (e microfones) sobre a Recife atual, e no seu passado escravista, para representar o que pensa ser as ambições e preocupações da classe média.


O SOM AO REDOR GRANDE.jpg

A classe média está sob os holofotes, e não é de hoje. Nos últimos dez anos as transformações político-econômicas propiciaram uma mobilidade social sem precedentes, permitindo a superação da linha da pobreza para um enorme contingente de indivíduos e também a emergência dos menos pobres ao valioso status social de classe média. Como um rastilho de pólvora, as mudanças rapidamente provocaram uma corrida por informação sobre essa nova configuração: o censo se modernizou, os questionários gradualmente se tornaram mais intrusivos. Ofegantes, as empresas precisavam decodificar um perfil para tornar a publicidade mais sensível; os partidos necessitavam saber seus anseios e a partir deles afinar a retórica e torna-la atraente.

Tanta atenção provocou incômodo, e da “nova classe média” as generalizações passaram à especulação sobre toda a classe. Afinal, o que ela representaria? A opinião recorrente a descreve como uma trincheira, protegendo a elite à medida em que absorve seus ideais e estilos de vida, enxergando-se como pertencente a ela. No entanto uma pergunta potencialmente mais esclarecedora é também a mais rara: de onde essa classe surgiu, como sua história ajuda a entender a conjuntura atual? Essas questões parecem contagiar Kleber Mendonça Filho, que debruça suas lentes (e microfones) sobre a Recife atual, e no seu passado escravista, para representar o que pensa ser as ambições e preocupações da classe média.

Divido em três atos, o filme focaliza um bairro nobre da capital no momento em que uma equipe particular de segurança aparece oferendo seus serviços. Não há uma trama delimitada e sim um passeio da narrativa pelo cotidiano e relacionamentos dessa vizinhança, com especial atenção à três personagens: João, um corretor de imóveis empregado num negócio familiar de seu avô Francisco; Bia, uma moradora local, dona de casa e mãe de dois filhos, que tenta superar a opressão de viver cercada por grades usando seus eletrodomésticos, seja para silenciar os cachorros da vizinhança, seja para inventar formas exóticas de recreação. Já Clodoaldo (Irandhir Santos) é o chefe da empresa de segurança a negociar com a autoridade local o serviço particular de proteção.

A exploração dos personagens é feita sob um olhar voyeur, objetivo, capturando com distanciamento seu objeto e, por isso mesmo, pretensiosamente realista. É por esse estilo de registro que observamos a negociação de João com uma senhora a pedir redução do aluguel de um imóvel cujo último proprietário cometeu suicídio, ou os recados amorosos escritos no pavimento, só para serem borrados pela chuva na sequencia seguinte. Com indiscrição espionamos os agarramentos de um jovem casal adolescente e as manias curiosas de Bia, que despacha os filhos para o inglês para ficar só, comprar maconha e se masturbar com a vibração da máquina de lavar.

Essas pequenas transgressões confrontam a mesmice do cotidiano de isolamento nos prédios, numa tentativa de lhe conferir mais sabor. Ao mesmo tempo, busca-se desenhar um perfil comportamental de classe média, diferente daquele idealizado pelos meios de mídia como sendo da elite, a qual a primeira buscaria imitar. Longe da higiene comportamental a prescrever uma relação familiar no momento da refeição, no jantar da família de Bia todos parecem estar com os pensamentos em outro lugar: os filhos questionam a necessidade de aulas particulares de inglês quando já aprendem o idioma na escola. A menção faz Bia sorrir, talvez relembrando dos momentos propiciados por essa ausência. A discrepância fica explícita quando a câmera passa a enquadrar a televisão da sala ao lado, exibindo um balé de talheres e taças sob a harmonia de um jantar de gala.

vlcsnap-2013-04-06-18h25m56s12.png

Os contornos da classe ficam mais evidentes na sugestão de sua natureza individualista e apática frente aos problemas alheios, como na famigerada reunião de condomínio em que os moradores discutem a demissão do zelador. O trabalhador é flagrado cochilando constantemente, e assim submetendo os inquilinos a grandes perigos, como o de receber sua Veja fora do saco. Apesar de idoso, em idade de se aposentar, sua atitude não é absolvida por eles, que o acusam de incompetência e desonestidade, já que estaria dormindo para apressar a demissão e o recebimento dos direitos. Incapazes de entender a situação por uma outra lógica que não a deles mesmos, quase decidem unanimemente pela demissão por justa causa quando João, o corretor, tenta fazê-los perceber a crueldade dessa resolução. João é logo contestado, mas não enfrenta os moradores, aproveitando o toque do celular para fugir da situação. Mesmo quando é capaz de pensar fora da caixa, a classe média de Mendonça Filho evita qualquer atrito político, exceto quando se trata de uma luta que lhe traga vantagens.

Não podemos esquecer o som, utilizado aqui nos mais diferentes contextos e sempre enriquecedor à narrativa. Ampliando o volume de certos elementos o diretor pontua sentimentos, conduz nossa atenção e, principalmente, cria tensão. O ruído estridente da lixadeira elétrica demarca a presença de um trabalhador nas vizinhanças, assim como o eco de marteladas ouvido por Bruno, quando olha do terraço os edifícios cercados por uma favela crescente. É principalmente através do som que se demarca o conflito de classes, cujo ápice é representado na paranoia da classe média com a expectativa constante de uma revolta da “ralé”. Um dos maiores motivos para a auto reclusão, esta é explorada sombriamente num pesadelo da filha de Bia, no qual uma invasão dos favelados acontece no condomínio enquanto ela observa tudo, aterrorizada, da janela do quarto.

Mas a chave para a compreensão dessas tensões está no passado, e nesse sentido o pensamento de Kleber Mendonça é bem Freyriano. Se no prólogo o diretor nos mostra fotos antigas, entre elas a de um fazendeiro e sua multidão de dependentes, segurando papéis (títulos eleitorais?), no presente temos Francisco, coronel local, dono de quase todas as casas da vizinhança, paternalista, descendente de Senhor de engenho do interior. É em torno dele que se organizam as relações familiares, ele é a lei: dá a palavra final sobre a instalação da equipe de segurança “contanto que não se metam com meu neto Dinho”, um “marginal bem nascido”. Desafia até a autoridade da natureza, tomando banhos à noite em áreas propensas à ataques de tubarão.

É também sintomático que o passado seja lembrado por estes personagens com nostalgia. Quando Francisco, seu neto João e a namorada visitam o engenho, rememoram com saudade o velho cinema em ruínas para depois se refrescarem numa queda d’água. Os moradores da casa grande parecem não lembrar-se da senzala, dos indivíduos escravizados que morreram construindo o patrimônio para outrem, e do suor de seus descendentes, cuja servidão permitiu a manutenção de riqueza e status por eles, através dos tempos. Mas o espectador não é furtado de ver todo o sangue em que estão encharcados.

Eis o entrave a ser superado: O som ao redor questiona essa alienação do passado, evocando à classe média sua parcela de responsabilidade sobre a tensão e os problemas dos quais ela se esconde atrás dos muros do condomínio, relembrando que entre a construção histórica das desigualdades sociais do país e a acumulação de riqueza de alguns existe um passado em comum. E se o caminho sugerido para a superação principia com essa tomada de consciência, o recado para os que se mantém ignorantes é bastante claro: assim como Francisco, pagarão os juros da dívida. E se existe algo que poucos sairão sem perceber neste filme é que as grades não isentam nem protegem ninguém.


Cleidson Lourenço

Cleidson Lourenço mora em Conceição do Jacuípe, Bahia. É historiador por formação, cinéfilo por prazer e gosta de compartilhar idéias sobre filmes que, em sua opinião, merecem mais reconhecimento..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @obvious //Cleidson Lourenço