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Camus em Noir

Albert Camus foi um ator de filme noir, o asceta fumante de Argel e o fotógrafo melancólico de um século XX profundo.


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Quando se procura uma foto de Albert Camus no Google os primeiros resultados são de um homem de uns 40 anos, foto do estilo expressionista, tons de cinza o chamado “preto e branco”, um cigarro na boca de riso torto. Um Sam Spade esculpido em carrara - Ou ao bom noir - Cuspido e escarrado.

Sam Spade, lembre o leitor, é o detetive famoso d"O falcão maltês" (The Maltese Falcon, livro de 30 e filme de 41). Um dos principais representantes do noir no fim da primeira metade do século XX, auge do gênero. Retrato estético de uma época de conflitos, desenvolvido em estilos de fotografia preocupados com o realismo sombrio das carências e falácias humanas e as dualidades comportamentais dos homens mediante um mundo que por vezes nos parece obscuro. O noir acentuou a imagem enquanto parte fundamental do drama. Retratou o mundo como um ambiente no qual se pode perder, mas também lutar. Como um Sísifo, porém metido a charmoso e xerife.

O film noir é também uma reação aos fenômenos da Grande Depressão, da ascensão dos fascismos, do clima tenso do período entre as grandes guerras. Influenciado pelos filmes de terror americanos, pelo expressionismo alemão e pelos romances policiais do momento. Foi um estilo que vigorou nas décadas de 30, 40, 50. Influência em alguns nomes posteriores de relevância como Kubrick, espelhado nas obras cinematográficas de Orson Welles, nos textos de Dashiell Hammett, Raymond Chandler, admirado por intelectuais existencialistas e sucesso de público. Com marcantes personagens; anti-heróis; geralmente detetives ou criminosos e humor mesclado a certa indignação - giovare, ao modo maquiavélico - resolvendo seus problemas com códigos morais próprios e considerações cínicas. Abandonados de bandeiras e ideologias, o painel da dissidência social.

O ator reina no perecível. É sabido que de todas as glórias a sua é a mais efêmera. Isso pelo menos é dito nas conversas. Mas todas as glórias são efêmeras. Do ponto de vista de Sírius, as obras de Goethe dentro de dez mil anos serão pó, e seu nome será esquecido. Alguns arqueólogos, quem sabe, procurarão "testemunhos" do nosso tempo. Essa idéia sempre tem sido educativa. Bem considerada, ela reduz as nossas agitações à nobreza profunda que se acha na indiferença e principalmente orienta as nossas preocupações para o mais seguro, isto é, para o imediato. De todas as glórias, a menos enganosas é a que se vive

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Diz Camus em seu Mito de Sísifo na tradução de Mauro Gama (Guanabara, 1989). Grande tratado moral de seu imaginado Homem Absurdo, o seu refutador da Metafísica, o homem que já não busca e ainda insiste. No capítulo “Comédia” louva o ator enquanto modelo de Homem Absurdo. Enquanto rosto de mil rostos. Vivendo para personificar tipos. Faz da própria ação o seu fim; ser o herói e então o mendigo, o rei e o escravo. Livro de 1942, e um dos principais atores da época era Humphrey Bogart; o Bogey:

Irreverente, de grande personalidade, tipo aventureiro e conquistador. Uma das facetas admiradas por Camus em um homem "reconciliado com a Terra". Alguém em harmonia com seus desejos e instintos, sem as dores e os sofrimentos de idealismos (e que na época de Camus levavam milhares para a loucura ou a morte). O tipo de pessoa com certa melancolia, ou realismo, uma visão que embora não fosse otimista, também não se entregava ao derrotismo, ou algum "mal do século". Bogey foi enquanto artista e interpretou o tipo ideal do noir; modelo que representava em suas definições com largura tanto o mundo quanto o homem em Camus. Seu Absurdo, seu pessimismo, sua confiança na vontade e ao mesmo tempo descrença na mesma. O Donjuanismo de Richard Blane, o homem revoltado Capitão Queeg, a valentia indômita de Philip Marlowe, o carpe diem de Sam Spade.

Manifestações do Absurdo. De homens absurdos. De uma época e de um pensador que a retratou. É contado com crédito certa anedota a respeito de Humphrey Bogart, que em seu leito de morte teria dito - "I should never have switched from Scotch to Martinis" - De fato, muito Camus.

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