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O Azul de Michael Mann

Profissionais da Lei e do Caos na Cidade Azul do Destino


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"Time is luck"

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De acordo com Michael Mann existem fontes de poder social alheias à legitimidade do Direito e da Lei. Ideologias (predomínio cultural), política (as relações subjetivas no corpo da legitimidade), o poderio militar (as soberanias), a economia (a obtenção e uso de recursos), são todas fontes de poder social que interagem entre si desenvolvendo redes, hierarquias e cadeias de comando. Todos os agentes sociais estariam inseridos em uma legitimidade informal, massiva, apesar de tênue. Trato aqui do trabalho do sociólogo Michael Mann, mas a obra do cineasta Michael Mann pode ser lida com a mesma perspectiva.

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Nascido em 1943, de origem judaica e natural de Chicago, Michael Mann estudou História, Literatura e Arquitetura na Universidade de Wisconsin-Madison. Descobrira o entusiasmo com o cinema ao assistir Dr. Fantástico de Kubrick. Trabalhou com televisão, um dos produtores da clássica série dos anos 80 Miami Vice, e na grande indústria de Hollywood. Produziu e roteirizou quase todos os seus filmes.

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Thief (1981), “Profissão Ladrão”, o primeiro sucesso e o sinal de um interesse estético maduro: fontes de poder social. Um velho ladrão aprisionado em uma larga rede de influências precisa realizar o seu derradeiro golpe. O típico protagonista de Michael Mann é um profissional, profissional da ordem ou da desordem, um homem da lei ou um homem da natureza. E ele deve enfrentar o seu oposto.

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A fotografia de Mann privilegia o azul e os seus significados psicológicos. É a melancolia, masculinidade, formalidade. tecnologia, conservadorismo, dependência, purificação.

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A noite é preferencialmente o seu ambiente de conflitos. Noites cheias de azuis, blues. Um dos seus mais antigos e sólidos colaboradores é Dante Spinotti, grande diretor de fotografia que consegue passar para as imagens e ambientes os sentimentos dos personagens criando um contexto de realismo expressionista.

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The Keep (1983) é a sua rápida aventura no sobrenatural e Manhunter (1986), O caçador de assassinos, no universo das adaptações. Obras despersonalizadas, apesar de marcadas por suas inclinações pessoais. Os vilões de Mann, os bandidos que devem antagonizar os mocinhos (seu estimado formato clássico de cinema), são geralmente os profissionais da natureza. Eles agem por suas próprias vontades e as suas vontades são irresistíveis, obedecem a uma vontade maior que os impulsiona. Ela é condicionada, mas o seu condicionamento não passa pela legitimidade das regras e da lei, ou da pequena lei dos homens.

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Em O último dos moicanos (1992) leva ao primeiro plano o embate ordem e natureza da lei contra a “desordem” e a lei da natureza. Talvez o seu filme favorito do público. Mais didático por trabalhar as origens do poder social em um contexto histórico menos complexo. É a luta direta da civilização moderna ascendente com aqueles que vivem fora da lei – fora da civilização institucionalizada.

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Em Heat (1995), Fogo contra Fogo, a culminância de estilo e técnica. O seu filme mais apreciado pela crítica e pelo amigo que aqui escreve. Ele apura um projeto anterior, Takedown (1989), ampliando suas ambições. Em Heat ele não apenas trabalha os seus temas contínuos, ele filosofa. Ele clarifica os seus profissionais, os mundos formais e informais em conflito. A sexualidade, os poderes, a natureza irresistível, a inexorabilidade do destino. O destino, o tempo é sorte, o destino é muito importante em seu mundo dialético. Um grande filme, grandes astros. Um marco nos anos 90 na categoria policial, uma década de muitos clássicos do gênero.

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O Informante (1999) é em alguns aspectos o oposto de O último dos moicanos. Nele Mann mergulha no mundo da lei. Aprofunda as suas câmeras caprichosas e pessoalmente dirigidas nas instituições, nos homens e na subjetividade das ordens.

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Ali (2001) é um estudo biográfico. Uma abordagem restrita e intensa de uma personalidade. A natureza surge como nostalgia, trilha sonora, a ausência de pertencimento que perpassa toda a competente atuação de Will Smith. É a África, mítica, fugaz, da mente de um profissional. Um guerreiro no mais primitivo dos termos, as suas lutas diárias, a sua glória, ruína, o inesquevícel Mohammad Ali.

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Colateral (2004) é uma abordagem lateral de Mann em seu tema de sempre. Ainda as estruturas, ainda os homens da lei e da natureza. Mas em Colateral todos os acontecimentos seguem a cadeia de eventos em curso que os antecede e posterga, intimida, suprime. Medo é o tema central, o temor entre as convergências, não a dicotomia das relações de conflito. O simples taxista e o contratante são elementos descartáveis em organizações imensas e abstratas. O seu final mais transgressor.

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Miami Vice (2006) é Miami Vice pela mão madura de Mann. O mesmo tema, o mesmo lugar, outro tempo. Tempo é sorte. A Miami Vice do pós-11/9 é amarga, decadente, falsa em suas luzes. Uma bela fotografia de neo-noir.

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Inimigos Públicos (2009) é um novo olhar retrospectivo na formação do mundo da lei. Especificamente sobre os homens atuais da lei e a construção de um novo homem de natureza, o de natureza criminal. Depp antecede o ladrão de Thief , ele já não tem a liberdade do moicano. O seu fim, lírico, é ser absorvido pelo mito, a imagem social - o mundo institucional.

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Luck (2011-2012) foi uma pequena nova experiência no mundo da televisão. O universo das corridas da cavalo. A série não encontrou êxito com o público.

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O destino tão explorado por Mann, os seus opostos que devem colidir, talvez explique os seus baixos resultados nas primeiras décadas do milênio. O seu foco policial, realístico, monotemático e minucioso, contrasta com os heróis da fantasia e da diversificação que superabundam o entretenimento da Era da Internet 2.0

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Em Blackhat (2015) ele aborda o mundo virtual. É um filme econômico, conciso, algo anacrônico. Um olhar, tipicamente seu, em nova natureza, a natureza virtual "sem limites". Atualiza sua visão das coisas para o "hoje", a Internet, os crimes da mente, a nova e impessoal natureza da lei. Válido em sua honestidade.

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Michael Mann é o cinema americano naquilo que ele pode oferecer de mais seu.

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Time is luck

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