o eremita laranja

Sublimações, bar e restaurante

San Ramon

... E um Mai Tai, por favor.

Português dos bravos

A beleza triste de um velho marujo


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Do México ao Timor Leste todos parecem entender o português brasileiro com relativa facilidade, e nós, brasileiros de berço esplêndido; não. Não entendemos nada, o português do Velho Mundo ou o paraguaio ao lado da Esperança, nada com nada. Eles falam, nós não entendemos. Somos como o lado raso da piscina do idioma, garotinhos de primeira série da língua de Camões e Roberto Leal, os caçulas ibéricos, brasileiros não raro nem brasileiros entendem. Exagero?

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O português é um espaço obscuro de elétrons fonemas e prótons morfemas, corpos espalhados pelo mundo, encolhidos em condados culturais, expandidos na malha incompreensível-comunicável do Atlântico nacional, amalgamados em outros fugidios espaços, multiverso tímido em sua poética senescência molecular. Futuros e etruscos. Ou não. Sou eu? Ou um exagero? Exagero?

Eu me sinto um astronauta em meio espaço sideral. Meio espaço. São tantas regras mutantes, revoluções em décadas das maneiras e modos, tudo é tão distante, tênue, o português é um jardim de tântalo, ou o mais tântalo dos jardins, Shakespeare e Cervantes não passaram por maiores apuros. O mais difícil dos idiomas, o mais fácil dos idiomas, o idioma excêntrico, global e provinciano, presente e ausente, sonoro e incantável, Choro e Fado, o de beleza triste. A famosa saudade que vem de solidão, e distância, e afeto. E ver a beleza do mar como em nenhum outro idioma. Tudo que você pode fazer para não naufragar é manter sua atenção enquanto chovem os dicionários e acordos ortográficos, assimilações e estrangeirismos de um progresso que chega do norte ou do oeste, ouvir e ter prazer no ouvir, ouvir, as mudanças e os detalhes, a dinâmica da fala, imprevisto de suas mudanças. Quantos de nós falamos “saudade”? Desde os ossos e as cinzas dos bisões. A nossa herança, sons e rabiscos que são mundos, nossos mundos; português, brasileiro, fala, idioma, linguagem, império, colônia, Angola, destino, liberdade; perdidos, reencontrados, sensíveis, submersos, atuais, futuros de mares fascinantes, misteriosos e fatais como o mar. Ser um escritor em português é ser um aventureiro, um arqueólogo, um ilusionista e um marinheiro, mais marinheiro.

Navegador é preciso.

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San Ramon

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