o eremita laranja

Sublimações, bar e restaurante

San Ramon

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Crítica da Morte

algumas anotações contra a inexorabilidade da morte.


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Ou das coisas que a morte não merece.

Algumas pessoas acreditam honestamente que o mundo mergulharia em uma sopa sociológica de caos se a crença na imortalidade da alma desaparecesse amanhã ou na próxima quarta. Outros dizem que o fim da crença na imortalidade da alma acabaria com a caótica sopa sociológica da sociedade moderna de consumo, divã e programas de auditório. Muitos bons filósofos dissertaram sobre todo o “som e fúria”, pantomima no escuro cósmico, o cinismo fundamental. A morte vem para todos – a verdade dita pelo silêncio das estrelas. O silêncio com o qual os artistas e filósofos jogam a roleta russa das russas roletas. Grandes obras da humanidade foram feitas por e para a morte. Pirâmides de pedra e pirâmides espirituais e niilismos e massacres e sacrifícios. Nos altos atos como um demiurgo bem real...

A morte não existe para o meu barbeiro. Ela não existe para o meu padeiro. Realmente a morte não existe para muitos conhecidos meus e muitos no mundo, a maioria. A morte é um assunto das Cortes. A morte para as pessoas costuma ser um alongado bater com o dedinho na quina, uma dor aguda, explicada, pequeno momento entre a vida breve e a vida especulada, maior, bem lá distante e perto do outro lado: sofrimento eterno, gozo infinito, pudor sem fim, castigo, remissão. Um Céu para cada um, Inferno para os outros, todos os tipos e todos os sabores. É seguro dizer que a maior parte da humanidade passa pela vida sem pensar seriamente e demoradamente na morte.

Um dia ele morre. Choro. Flores. Funeral. Velas. Epitáfio. Filhos? Netos? Bisnetos? Alguém ainda sabe dele? Os netos de seus netos conhecem o seu primeiro nome? Ele vive pela genética como Novalis pelos versos? Dizem os vivos. Os vivos que devem morrer. Famosos, anônimos. Vai a Terra. Vai o Sol. Vai, a Galáxia. Rompe ou encolhe. Desaparece, ou permanece. Aquele tal cinismo fundamental. Ele vence. Brindemos. Posso não brindar?

E se eu quiser louvar a chuva pela chuva? Lembrar minhas falhas e dores pela força de superá-las? Louvar minhas sortes? Cantar minhas olheiras e dedos largos? Posso falar da vida pela vida? Posso ver o mecanicismo científico e o realismo crítico e dizer – é bom? Ou rir dele? Posso morrer hoje e assim mesmo sonhar com o meu futuro sem constrangimento? Posso escrever uma crítica da Morte? No avanço da medicina, o flagrar dos versos de paixão e serenidade de todos os tempos, os pais que são filhos, os filhos que serão pais...

No fim pelo fim, meus amigos, eu escolho a Comédia. Abraço incréu a vida eterna dos antigos crentes e entusiasta a da ficção científica, a vida minha da nossa vida, a vida que renasce, a vida que nascerá e a vida que nem viver. Digam aos vivos. Digam. Não parem de dizer.

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San Ramon

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