o eremita laranja

Sublimações, bar e restaurante

San Ramon

... E um Mai Tai, por favor.

Um funeral para um anão

O caso: uma pequena morte.


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I

Tudo começou em uma folgada e tenra e normal noite de nossa exotérica cidade tropical.

Os cães ladravam e os malandros cantavam as prostitutas no crepúsculo do dia, as âncoras dos telejornais japoneses diziam: bom dia, Tokyo. Os carros no trânsito obedeciam a regra hindu. A cidade fumando seu dióxido de carbono, acordando de mais um dia, sempre pronta para a noite e os seus monstros. Eu também.

– Afaste os curiosos, sim? Não temos a droga da noite toda.

Um anão. Um anão morto no cruzamento causando alvoroço nos transeuntes. Olhos esbugalhados, dedinhos gordos de anão, roxos, bem vestido, tipo importante, colar de ouro, bom tecido, relógio suíço, gostos clássicos, filho de alguém, sim. Estou te sacando anão.

– Conhece o anão, detetive?

– Não tive o prazer.

– Reinhold Stavros.

–... Fundo de Investimentos Stavros.

– Ele é o próprio Stavros.

Os anões mudaram muito desde a época dos Eddas. Criavam montanhas e pedras preciosas, hoje criam crises no mercado de especulação financeira. Reinhold Stavros era um importante banqueiro, um gestor de contas, um teutoanão influente com negócios em todo o mundo. Um homem, não sei se posso chamá-lo de homem, bem, um tipo masculino de grande visibilidade. Um tipo de carne que os jornais adoram. Ele é o meu caso.

– Os legistas e os outros rapazes estão presos no trânsito, detetive. Eu acho que dei sorte, não sei se sorte. Eu meio que cheguei primeiro e pensei, bom, acho que o detetive é o tipo de cara que sabe lidar com, bom, anões mortos. Já tinha visto um anão morto? Eu sinto até pena, quer dizer. Sei lá.

– Os jornalistas não. Pegue o colar pra mim.

Bimbo é um bom garoto. Um policial novato cheio de tolas esperanças, um tipo adorável. Ele nem pede suborno. O seu tom de pele azulado deve ser um sucesso nas baladinhas. Na idade de Bimbo eu estava na guerra.

– Alguma ideia?

O colar não é feito de ouro comum. Claro, nada comum para um tipo incomum. O material é nanotecnológico, um presente, um dádiva rara feita por um artífice de exclusividades. O Sr Stavros não estaria parado no meio da rua em circunstâncias normais, não, é uma cena. Um quadro. Um espetáculo planejado e executado por ordens dadas de um pequeno resort na órbita de Saturno.

– Aguente as pontas Bimbo. Não fale com ninguém que você me chamou. Ninguém.

– Uma aventura, detetive? Merda da pesada?

– Digamos que sim.

Eu sei quem matou o anão. Eu sei o motivo. Preciso amolar meu sabre, contar minhas moedas de prata e pegar um ônibus espacial. Será um longo final de semana.


San Ramon

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