o eremita laranja

Sublimações, bar e restaurante

San Ramon

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Era Simpsons

Curtos comentários sociológicos sobre Simpsons e maioridade espiritual.


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Nascido no final dos extravagantes anos 80 eu considero The Simpsons parte da minha paisagem mental. As praias cariocas, ruas de subúrbio, democracia, vídeo games, Internet, Simpsons na TV. Eles estão em Springfield, congelados em suas idades e manias em situações caricaturais do cotidiano de notícias, ocasionalmente no meu passar de canais.

26 anos. Temos.

É possível dizer que o show carrega qualquer coisa de datado, anos 90, século passado. A família americana de Simpsons já não é a família americana que o atual entretenimento abrange, o subúrbio dos Simpsons é predominantemente caucasiano e de famílias convencionais, os personagens vivem em um mundo analógico, a globalização é uma coisa que pode ser vista e descartada como uma viagem temática por Nova York ou Japão, a política é um assunto tolo demais para valer algo além de piadas sobre a corrupção genérica do ser humano. Em sentido arqueológico os tipos também não falam muito com o mundo atual. Bart e sua cultura de batutinha não conversa com uma infância que não tem nas ruas um ambiente lúdico, Lisa e o seu perfil nerd excluído está distante da cultura massiva-industrial de referência e informação, as Lisas atuais, predominantes, agem como os Barts, o lúdico de rede social, os Barts estão em sites de piada e nas áreas recreativas de condomínios fechados tomando remédios para déficit de atenção, a submissão de Marge não tem qualquer graça em si e o perfil tolo-que-amamos de Homer imitado por um sem número de filmes e séries. Entre as críticas do Brasil, filme, 11/9, Simpsons foram subestimados para posição que não merece nem mesmo uma crítica anacrônica e desproporcional de alguma feminista social-justice warrior anônima. Como o Abe Simpson - curiosa escolha para capa da temporada - colorem o ambiente de longe, coadjuvantes no século.

Mas diferente da pequena Maggie os Simpsons mudaram. Em um olhar um pouco mais atento, pouco mais próximo que seja, percebemos que já não estamos, atualmente, tratando da mesma animação. Digo ainda que a temporada vigésima sexta é fundamental para qualquer um que em algum momento tenha gostado de assistir Os Simpsons.

Não esperem as genialidades dos primeiros anos, especialmente do nono (melhor) ano da série com os competentes dramas existenciais sutis de Lisa - personagem melhor construída do show - ou os plots de efeito borboleta tão engraçados e destacados (os episódios sobre Krust e Seymour). Agora não estamos naqueles tempos de euforia e certezas, não estamos em um show com frescor e novidade, a base de fãs já passou em muito a adolescência. As euforias e crises de meia idade de Homer e as peripécias de Bart são mais autoconscientes em suas gags e alegorias hiperbólicas costumeiras (The Wreck of the Relationship, Covercraft), Lisa em suas poucas aparições está mais assertiva (Walking Big & Tall, Mathlete's Feat), ela é de todos o caráter mais distante e assume sua posição de superioridade moral sem os antigos conflitos (bons, mas passados), a problematização do empoderamento ocasional de Marge em My Fare Lady (o episódio começa com um agradável paralelo com Jetsons e como as personagens femininas costumam agir, ainda mesmo no próprio Simpsons). A temporada é centrada na família, não sai muito dos personagens nucleares. Não é tão engraçada, quase todos os episódios apresentam problemas graves de ritmo e The Wreck of the Relationship é provavelmente o único totalmente defensável. Porém, as concepções são boas, as reações dos personagens são diferentes e iguais, a animação entende que ela é grande o suficiente para debruçar em seu próprio legado sem constrangimento. Os 26 anos são sentidos sem medo. Nos bons momentos Simpsons foram de fato um desenho adulto.

O futuro é incerto, as próximas temporadas, um fim por cancelamento súbito, o esvaziamento pleno do material. Em qualquer dos casos em seletos e preciosos momentos de seu crepúsculo, Simpsons, os eternos simpsons, encontraram o seu lugar de autoentendimento. O grande objetivo da filosofia, aliás.


San Ramon

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