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Sublimações, bar e restaurante

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Super-arquitetura

Reflexões sobre o super-estruturalismo heroico e o homem dinossauro


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Em todos os ambientes de mídia e para todos os gostos particulares e faixas etárias está a miraculosa descoberta de Jerry Siegel e Joe Shuster. O super-heroísmo é uma massiva realidade cultural mercadológica. Vivemos entre os seres de capas e luzes. Ampliado para além do deslumbramento tecnológico-visual dos últimos anos ele seria para alguns uma marca do tempo ou quem sabe uma advertência ou confraternização da modernidade senescente; como por exemplo:

O universo cinematográfico da Marvel é uma teodiceia capitalista?

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Uma pergunta. Os cenobitas de Adorno diriam que sim. O esplendor técnico dos efeitos e a ambição do projeto esconderiam uma cultura (superinflacionária e) excludente de filmes sem conteúdo próprio em uma larga linha de montagem pós-fordiana. Talvez. Eu sou um adepto; vi todos os filmes no cinema, incluindo o primeiro e revelador Homem de Ferro; um adepto convencional; os meus favoritos são Soldado Invernal e Guardiões das Galáxias. A Marvel singra o mar em seu luxuoso MCU seguida das relutantes Warner e Sony, um Primeira Classe aqui, Dark Knight ali, Arrow acolá, The Amazing Spider Man cá. Mas alguma coisa pode ser dita de embaraçosa, mirabolante e até subversiva sobre o grande espetáculo de Kevin Feige. Por exemplo;

Os filmes da Marvel são versões mais elaboradas de Atlas Shrugged

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É uma afirmação. Nada daquele modernismo calvinista deslumbrado de Ayn Rand, mas as bases são idênticas, semelháveis sem dúvida – é possível comparar. Não quero usar exemplos óbvios como o Homem Aranha do objetivista Ditko nem o Homem de Ferro e seu self-made rubro-dourado. Pense o Homem-Formiga, Bruce Banner, Guerra Civil, todos aqueles John Galts extraordinários. Irreais, exemplares, comuns, intrepidamente empreendedores, grandes homens, porém quaisquer um. Não são os individualistas brutos da Zinov’yevna Rosenbaum, os heróis da Marvel costumam ter alguma humanidade e substância literária, porém:

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Sabemos primeiro que o mundo físico da Marvel, analisando em seus próprios termos, é uma realidade afeita aos acasos de sorte, super-realidades convergentes, algumas mentes humanas são capazes de subverter todas as estruturais cósmicas com invulgar regularidade. Um mago, um cientista que descubra uma nova improbabilidade existente ali, um adolescente mutante, indivíduos seletos, heroicos em abundância, podem alcançar o mais profundo e o mais amplo. É um Universo soterrado de individualidades excepcionais. Possível supor que o número exponencial de individualidades excepcionais é ainda maior que o número total de marvelous (potencializadas adquiridas), consequentemente todo ser humano no Universo Marvel é potencialmente onipotente, apesar e apenas potencialmente; eis o lúgubre existencialismo do clássico Marvels. Mas individualidades excepcionais (ou consideradas cultural e publicitariamente excepcionais) formam parte das construções de natureza humana, antigas como complexidade social, não, os elementos de fato mais modernos estabelecidos, tipicamente americanos, oriundos de uma maneira particular e ocidental de ver o mundo, enfim, detalhes que surgem em pequenas sutilezas.

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Os heróis marvels são empreendedores. Eles descobrem, criam e encontram. São cientistas altamente executivos, executivos altamente eficientes. Muitos assim. Um bom número de líderes empresariais, guildas, corporações, mestres e elites (classes seletas; burguesias).

As suas empresas de alta tecnologia servem como fonte interrupta para as peripécias pulp fiction. Eles dominam seus poderes e os utilizam em prol da sociedade (pré-entendida liberal-democrata/monárquica-constitucional/esclarecida), azuis e brancos e vermelhos. Eles são altivos, apesar de seus receios e medos, e servem a comunidade – o altruísmo é inerente ao heroísmo em qualquer regime de sociedade. Divertidos, levemente apolíneos, fisicamente exemplares. Kalokagathia por um ou dois dólares.

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Os vilões não raro são invejosos (pecado capital objetivista), surgem de acidentes (irracionalidade) – não de acasos felizes (o Coisa me contradiz, o Coisa e uma cacetada de outros heróis na verdade) – os vilões administram grandes agências criminosas (apropriação injusta), máfias não empresas (ou são escroques), ou são propriamente tiranos maliciosos, histéricos, arcaicos, púrpuras (autoritarismo, primitivismo etc).

Então, os cenobitas de Adorno estão certos? Não. Talvez, sim, sobre a precarização do mercado de filmes e superinflação. O aspecto capitalista é o mais superficial e padrão, fruto do meio não de um deslumbramento prolongado, ou mesmo pedante. Os super-heróis são antes atrações circenses (panis et), chamarizes de aventura, apostas no fantástico fantasioso, a graça simples e perene da devoção à literatura popular. Não é preciso ser aduladoramente capitalista para capitalizar e vender capitalismo ou uma ética que aluda capitalismo: os muitos livros anticapitalistas bons ou ruins publicados todos os dias também surgem do capitalismo, folclórica “sociedade ocidental”, suas condições boas e ruins. O anticapitalismo é uma grande indústria capital. Rand e os quadrinhos somente vendiam o mesmo produto simples no mesmo ambiente autoindulgente. O fetiche pela tecnologia, os seus perigos, encantos, ganhos, o individualismo tiritante, o heroico difuso do egótico altruísmo meiocristão-pseudohelênico, o super-heroísmo pode ser escavado em outras e menos óbvias clareias da modernidade muito além dos Marvel Comics e comics, pulp, elementos outros ocidentais, anglo-saxões e protestantes como… M. Night Shyamalan.

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O visionário dos finais-surpreendentes-não-tão-surpreendentes Shyamalan fez em seu Unbreakable um testamento audiovisual do super-heroísmo. O super-heroísmo em sua forma mais subjetiva, as formas essenciais, o arquétipo puro: o homem comum que encontra o seu deslumbramento transcendente, herói, entretanto relutante, a potencialidade latente, a queda e ressurreição – cena da piscina. Versus o vilão deformado, ou melhor, aquele que se impõe como deformação. É a escolha que faz de Samuel Jackson o vilão, a escolha faz de Bruce Willis o herói. Escolha ascendente àquele domínio maior que é o cosmogônico. O Bem, o Mal. É um filme subestimado.

A força negativa e vileza é no jogo literário-construtivo aquela que atenta o predomínio da ordem. A ordem, ela própria, o domínio da forma. A forma interior é chamada de estética. A forma exterior é chamada de moral. A escala de ambição bem talhada diferenciará a epopéia ancestral da aventura farsesca cotidiana. A relação necessária, histórica e progressiva da Ilíada com os gibis.

Intermediariamente Ulisses e Ulysses. Ulysses de James Joyce que é um dos maiores esforços literários no sentido de consolidar todo o heróico em uma só forma mais básica, a dimensão individual comum refletida nos horizontes da comédia e tragédia. Esforço hercúleo – mais apropriadamente dedálico – mais ou menos repetido, mais ou menos alcançado, muitos anos depois por um subversivo aspirante a escritor conhecido popularmente por…

Stan Lee. O onipresente Stan Lee.

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Stan Lee é a raiz da velocidade quadrática média do super-heroísmo. Ou não. Todavia, retornando ao mundo da Marvel e ao Universo Cinematográfico Marvel o velho Lieber é o grande produtor criativo e financeiro que precede Feige empenhado como Joyce na tarefa de fazer do heroico o mínimo humano. E aqui tudo se encontra. Naquelas ousadias gerenciadas por Stan Lee com heróis embriagados, lutando por empregos, indivíduos fantásticos muito humanos, submersos e emersos nos dilemas comuns e incomuns, características evoluídas ao longo do tempo para além da Marvel por todo o universo comics; os prolongados calcanhares de Aquiles e as loucuras de Ajax. O elo, fonte e contingência do super-heroico no heroico superior. O super-herói é o herói eterno, o herói relutante e fraco, incorretamente entendido como “anti-herói”, ele também é o herói eterno. Uma forma menos ideal e mais palpável, feita menos de medos primitivos ou anseios obscuros e mais de medos conscientes e esperanças de futuro. Aquele indivíduo colorido e farsesco nos cinemas é um retrato íntimo de toda a humanidade. Tornam-se formas íntimas e pessoais.

Muitos consideram que o fator mitológico-romântico da DC Comics no seu rigor dramático dos melhores momentos e realizações da empresa de solenidade digna de seu Major Malcolm Wheeler-Nicholson seria ele a base inteira ou remanescente das figuras mais arquetípicas na manutenção da mídia intitulada “novela gráfica” – ufa. É um erro. Stan Lee foi o Joyce dos gibis, moderno e clássico e a referência-motriz. Posterior a Wheeler-Nicholson, um seu T.H. Hulme.

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Lembro-me de um mutante. Eu me lembro de ler uma revista avulsa de X-Men escolhida da coleção de um tio. Aventura, cores, aquilo. O mutante vilanesco, um pterodátilo de calças. Ele me deu um mundo no quê pensar em sua fugaz aparição. Um homem em forma ancestral reptiliana. Pensei em suas transformações hormonais da adolescência e na consciência progressiva de sua condição desumana “desumanizante”. Gene X de maravilhas e monstruosidades. Sentir o seu corpo transformar-se em algo anômalo, duro e frio. Toda a lucidez enclausura nas limitações físicas impossíveis. Presas, formas duras e primitivas, incomunicabilidade. O heroísmo pressupõe o seu avesso. É o avesso mais das vezes que nos impressiona: não só a aventura, mas os riscos, as sombras da noite, os opositores. Aquele dinossauro de jeans no fundo da página era um exemplo de sombra, um acidente da imprevisibilidade, aquele aspecto da originalidade que angustia e mata. O sono da razão. O medo materializado no corpo. Inescapável miséria. A regressão evolutiva. Eu descobriria muitos anos depois que o meu trágico homem-dinossauro é Sauron, e que ele na verdade é um vampiro psíquico mutante transmutado por chupar a energia vital de um animal pré-histórico de uma terra alternativa, chamado Karl Lykos e que usa uma tanga não jeans.

Outro mutante que me impressionou foi o Mulo. Nenhum (possível) Mulo da DC ou Marvel, mas de Asimov em sua Fundação. Mulo é magistralmente descrito por Asimov. Fraco e poderoso, ambicioso e tímido, um grande personagem.

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Contrariamente alguns heróis são tão maravilhosos que não podem sair de nossa imaginação sem algum sorriso de canto de boca. O já citado Bruce Willis de Unbreakable, o seu David Dunn. O Superman de Joe Kelly. Em sua dimensão positiva o herói é impossibilidade possível e o grande sonho alçando com as mãos, pistolas, espadas, palavras ou gestos de valor.

Nos veios arquétipos, veios e…

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Um filme irregular, Powder (1995), talvez explique bem o lado áureo do super-heroísmo. Aquele ambiente ainda mais esotérico, submerso no fundo dos arquétipos e condições culturais, aquele fio de prata entre o tempo e o eterno. Bom, Powder é o apelido do protagonista, Jeremy Reed, atingido na barriga da mãe por um raio. Nasce albino e com estranhos poderes de fator eletromagnético. Pode sentir os pensamentos mais íntimos dos outros, compassivo, a precipitação de tempestades, sensitivo, dado momento, o sentido profundo da vida, a sua unicidade. Um filme de superação, um filme de meio da tarde, um drama suave. E ele é um filme ingênuo e otimista. Powder é um sonhador caprichoso e um poeta natural. Ele é também energia pura. A idéia de alguém diferente ou que atinge algo de insólito. A atração por aquilo que é o primeiro impulso, o deslumbramento. O filme é lento, dramalhão, mas, eu não conseguia assisti-lo sem pensar no miraculoso de tudo aquilo que ele fazia. O miraculoso de sua condição. E se vale pena ver o filme? Não. Tudo que ele oferece pode ser encontrado em abundância n'outras fontes, infinitas outras fontes;

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O Tao, Jest, o Super


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