o eremita laranja

Sublimações, bar e restaurante

San Ramon

... E um Mai Tai, por favor.

Em busca de um Tao Americano

Exercícios de respiração e concentração para clicks ocasionais


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Às vezes, olhando o mar nos fins de tardes quentes, eu penso em transcendência. Eu penso no Atlântico e nas coisas que acontecem entre a costa africana e o mar da Califórnia. Eu penso em algumas obras, eu penso na remasterização de Limite e o novo Star Wars, relembrar Doug em algo nostálgico, as séries e coisas que eu quero ver e resenhar, criar. Penso em família, penso em herança, eu penso no tempo. Penso no meu avô que tinha uma pequena granja com todos os tipos de aves costumeiramente comestíveis, penso que hoje eu sou quase vegano. E na ceia de Natal, o Ano Novo, a praia outra vez. O Menino Jesus e sua religião revelada.

Felizes festas e um próspero ano novo.

Talvez, a transcendência não esteja na religião, mas naquela sensação de enxágue dos corredores dos Shoppings. Nos todos e muitos detalhes da embalagem de presente daquele relógio de prata assinado ou o brinquedo do personagem do filme famoso que você não conhece e seu irmão ou filho conhece e sabe de tudo que dá pra saber e ele poderia citar um milhão de fatos imperdíveis sobre. Quem sabe a praia. Ou o marulho combinado ao som da última revelação da música (realmente) popular brasileira. O refrão que não sai da sua cabeça. Aquelas sílabas irritantes e repetitivas, repetições divinas? Novamente a praia. A areia no calção e o banheiro do quiosque que você só pode usar depois de comprar aquela lata de água com gás.

Nestes momentos eu penso em transcendência. Isto é água, disse David Foster Wallace o maior romancista desde James Joyce em língua inglesa e o mais imperdível dos imperdíveis, estes momentos de súbita lucidez cotidiana, ele diz, isso é água. Água de Mileto, a Pedra Filosofal Democrática, a coisa concreta no mundo líquido, a chave para fora da histeria. A ataraxia de um comercial de margarina; todos sabem que nenhuma margarina vale meia manteiga, exemplo infeliz, infeliz como só um comercial governamental sobre os perigos do uso de drogas legais. Alta complexidade. Vamos reduzir ao mínimo e primordial: eu pensava no mar. Água, planeta... Insolação? Reler quem sabe o Catatau. Coisa e tal.

A coisa mesmo não é transcendência. Todos prometem transcendência, o pastor, o professor, o cara da tela. A coisa é o Tao. O Tao Americano. Por exemplo: Estar na praia e no Shopping, o trânsito e o debate interminável de candidatos e não pensar no preço da lista de compras, o horário de amanhã, Irmãos Coen, 1998, The Big Lebowski, posso escrever algo maravilho se... The Dude Abides. Não espere ainda análises de referências e comentários culturais sobre a vida moderna e todo tipo de coisa que eu não farei aqui. Não. Chega de imagens, produtos, melhores produtos, produtos novíssimos, maya de produtos. Esqueça os produtos, esqueça todos os nomes: ouça, melhor, leia. Releia. Releia. A música, o mar, o barulho do Shopping, a rádio, pense e repense, e repense. Escute o barulho das memórias na mente. O silêncio perdido desses momentos fugazes. Esqueça o silêncio reencontrado, e então esqueça o barulho projetado, relembre de tudo configurado e você terá uma idéia completa sobre um grande número de fatos de sua vida. Pegou? Estava aqui todo o tempo, apenas aqui, lendo cada letra e palavra, a pessoazinha translúcida que é você na maior parte do tempo percebendo sem perceber, falando por falar e estando por estar, traga-o para o primeiro plano e o mantenha nele o máximo de tempo possível. Eis o meu produto. Não-produto. Um belo e raro produto: você-mesmo. Uma forma refinada de individualismo, coisa única, muito especial de um vendedor que você não encontrará em nenhum outro lugar: eu-mesmo.

Salut!


San Ramon

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