G. Pawlick

Gessony Pawlick JR. um escritor, pintor, poeta... Grandes bosta! Um saudosista que aventura-se pelos mais diversos campos das artes, tentando solidificar alguma coisa que não seja um tumor ou pedra no rim.

O Quelônio

Da série os Nefelibatas, de G. Pawlick, o Quelônio relata sua saga perante a própria existência


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Andava a passos largos - Cansado - de dorso curvo, quase abaloado. As pernas, um dia amigas, agora travadas em fadiga, seguiam seu destino ao automático. De passadas forçosas, ligeiras, espaçosas, sem espaço para tremedeiras, errava meu corpo reumático.

Meu fôlego, asmático, esbaforido, ritimado, era fruto de errático, e por tantas vezes trôpego, cansaço. Seguia em morno terreno árido, de tez rachada, amarelada, de ar denso a soprar-me na cara. Buscava, inalando forte, em vão, um ar longo e profundo, um suspiro frouxo, a fim de encher-me o fraco pulmão. Mas era pó - esta poeirenta estafa - no vento e nas entranhas, sentia o grânulo acumulado, a areia fina, que sufoca, que abafa.

Sobre minhas costas, o peso da falsa idade, como se tivesse 100, 200 anos, arrastando os grilhões da mortandade. Abatido, a seguir com a morte a mordiscar-me os calcanhares, mas ainda assim, tendo um longo caminho, antes de encontrar-me a veraz senilidade.

Sinos badalavam-me aos ouvidos, como mula de carga, ouvindo com as passadas os próprios guizos. Uma música dissonante, embalando a faina de meu jordear, de meu intenso desperdício, de meu errar sem propósito, de meu infinito exercício; trilhavam notas ao meu esforçoso caminhar, e os musculos, retorcidos, repuxados, não permitiam-se descançar.

Tinha medo, e somente medo, de um dia vir a parar. Terror se tornava, o simples ato, de desejar me sentar. Sentia uma sombra, um vulto que as minhas costas tendia a alcançar, e em minha labuta, jurava nunca - mas nunca - vir um dia a parar.

Era pesada, a casa que construí, que me propus a carregar, todas as lembranças e histórias, que eu não podia simplesmente largar, mas que acumulavam-se aos tantos, que se tornava difícil o próprio corpo aguentar. As palpebras apertavam, o peito seguia a resfolegar, as articulações arcavam, e meus olhos, opacos, viam brilhos, mas não podiam o horizonte decifrar.

Não mais de um palmo, era o que, em meio a aridez, eu podia enchergar, mas isso não me incomodava, seguia, e seguia sabendo, que há de um dia, eu chegar a algum lugar.

Decidi por fim - e por fim é o que devo agora realizar - em minhas passadas, longas e pesadas, andar então mais devagar. Sei que o peso em minhas costas, não há de nunca cessar, e que meu desejo, de correr ao longe, a fim de minha carga desatar, seja só aflição, de que o fardo venha, hora ou outra, a me derrubar. Por isso diminuir as passadas, por isso meus atos desapressar, para ver se tomo um pouco de fôlego, para ver se consigo respirar, já que de tantas coisas passadas, eu ainda não consegui me permitir descansar.

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G. Pawlick

Gessony Pawlick JR. um escritor, pintor, poeta... Grandes bosta! Um saudosista que aventura-se pelos mais diversos campos das artes, tentando solidificar alguma coisa que não seja um tumor ou pedra no rim..
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