G. Pawlick

Gessony Pawlick JR. um escritor, pintor, poeta... Grandes bosta! Um saudosista que aventura-se pelos mais diversos campos das artes, tentando solidificar alguma coisa que não seja um tumor ou pedra no rim.

Sob meus pés

A minhas costas há um jardim, um átrio pequeno de claraboia aberta, de flores que um dia plantei, de mudas que, sem porquês, surgiram amassadas entre ervas diversas.


A minhas costas há um jardim, um átrio pequeno de claraboia aberta, de flores que um dia plantei, de mudas que, sem porquês, surgiram amassadas entre ervas diversas.

A minha sala há uma cadeira, há uma mesa, há uma janela. Donde destampada pintam-se paisagens, onde o presente figura-se com histórias incompletas. Mas ao contrário lá de fora, meu vergel está preso ao chão, não se desloca, não corre, não se mexe sem interação.

É um jardim esquecido, cultivado em momentos de emoção, crescendo lendo, ocupando paredes... ressequido em descoloração. É, de verde-mar a ocre seco, tingido; de pés e ramos, ao espaço, descabidos. Tem flores murchas, mato comprido, tem heras frescas e brotos indecisos. Mas é, sobretudo, muitas vezes pela janela aberta preterido.

Por vezes ventos encanados adentram a claraboia a cantar, sacodem um pé por mim esquecido, farfalham galhos e folhas, a muito adormecidos, e, sem pretensões, logo os ressuscitam. Nem sempre sou inclinado a olhar, o canto doce basta para de meu jardim me lembrar. Sei que ali minhas raízes habitam, sei que foi ali onde escolhi plantar. Aqueles meus pés de lembranças, que em pencas culminam pelo vergel a se acumular. Aqueles meus brotos de esperanças, que lentos vou esperando germinar. Um caos de plantas, um emaranhado de galhos, crescendo para meu jardim dominar.

Nem tudo que lá tem raiz por mim foi escolhido plantar, há tantas heras e inços as quais não posso mais arrancar, de raízes tão fundas, de bases tão brutas, que se enroscam em outras que quero cultivar. Deveras que meu jardim é mal cuidado. Tem capim seco pelas bordas a brotar, mas há também árvores sempre vivas, onde de vez em quando, um fruto doce venho a catar. É uma mistura, de um agridoce odor - Há cheiro de mofo, há cheiro flor – É um cromo confuso, do verde nascente a pétalas desbotadas de amor.

Mas não há nada de especial, pelas folhagens atrás de mim. São coisas frescas e mortas, que pelos sentidos convidam-me a refletir. Sou chamado por seu cheiro, por sua presença sepulcral. Pela brisa que vem de si, por seu aroma circunstancial. Sou evocado por fugaz olor, por baque seco de fruta madura caída no quintal, por brandas memórias em flor, ou por meu sanguíneo roseiral. Sinto a umidade da terra, com cheiro de estrume, após tempestade sentimental. Sinto aquele fétido perfume, das ervas daninhas de estirpe fatal.

Há tantos sentido que vêm à mim invadir, que não preciso enxerga-lo para saber que está ali. De olhos fixos a janela, vendo o mundo a se engolir, noto que meu jardim é panorama, é plano fundo para o retrato que, do outro lado, fazem de mim. Vêm as árvores, vêm as heras, vêm as folhas secas de outonos, as lépidas primaveras... Sentem o aroma, se forte for, de fruto podre ou alegria em flor. Vêm, sobretudo, o verde ou o ocre a me consumir. Olham da janela e sabem o que cultivo aqui. Mas, abaixo dos pés, as raízes só eu posso sentir.


G. Pawlick

Gessony Pawlick JR. um escritor, pintor, poeta... Grandes bosta! Um saudosista que aventura-se pelos mais diversos campos das artes, tentando solidificar alguma coisa que não seja um tumor ou pedra no rim..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious //G. Pawlick