O Formalismo

O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana.

Brian De Palma investiga a ilusão e a força da imagem em Dublê de corpo, homenagem ao universo de Alfred Hitchcock.


Brian De Palma conta que quando criança sua mãe passou a filmar os passos do pai para vigiá-lo a partir do momento que desconfiava que ele a traia. Provavelmente dessa lembrança de infância tenha nascido o voyeurismo do cineasta, também explicado por seu fascínio por outro voyeur: Alfred Hitchcock. Uma das obras fundamentais a demonstrar tais características – a mixoscopia e a influência direta por Hitchcock – é Dublê de corpo (1984).

O filme conta a história de um ator de filmes B que, após ser traído pela esposa, vai viver alguns dias na casa de um amigo de um recém-conhecido localizada em um bairro requintado de Hollywood. Lá ele passa a observar sua vizinha se exibindo – quer seja dançando ou se masturbando – através da janela. Logo, Jake Scully (o ator) observa um homem estranho roubando a mulher e passa a segui-la em busca de pistas, esbarrando em seguida no assassinato dela, do qual se torna a principal testemunha.

A narrativa criada a partir de um emaranhado de mistérios mal resolvidos aos olhos do curioso Scully é utilizada como um instrumento para De Palma trabalhar suas referências ao cinema de Hitchcock, porém desconstruindo-o, uma vez que a elegância e o rigor estilístico do último dão lugar a um frescor típico de um realizador à época em seu auge experimentalista. O apuro artístico do mestre de De Palma é então substituído por um mergulho em confins orgiásticos e ao lado mais sombrio da natureza humana, algo explorado em Hitchcock de formas mais implícitas e psicanalíticas.

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De Palma mostra entender os ensinamentos do realizador inglês sobre o real significado do suspense e de como se fazer um filme desse gênero apenas sabendo manipular o olhar do espectador. Suspense é suspensão, ou seja, é o retardamento do tempo, é o ato de dar soluções em formato conta-gotas, levando o espectador para o inesperado a cada fotograma, enquanto os minutos e os segundos são controlados ao bel-prazer do contador de histórias, expandindo-os ou contraindo-os, conforme sua intenção, além, é claro, do uso do MacGuffin[1].

Em um primeiro momento Dublê de corpo demonstra-se como uma homenagem a Janela indiscreta (1954) imersa em um ambiente erotizante. Porém Scully não é o Jeff do filme de Hitchcock – o jornalista curioso entrevado em uma cadeira de rodas devido a uma perna quebrada. Ambos os personagens são voyeurs, entretanto Scully está em busca apenas de uma aventura sexual para apagar as mágoas do passado. Trata-se mais de uma simples referência em si do que meramente uma reprodução, tendo-se em vista que De Palma busca o mundo real, substituindo o manipulado e criado em estúdio por Hitchcock, indo em direção ao palpável, e explorando um lado de Hollywood pouco conhecido: o das produções pornográficas, da violência sem sentido, da sujeira das ruas. É como se ele quisesse denunciar ou criticar certo prisma da chamada “Meca do Cinema” escondido por baixo dos holofotes das superproduções dos grandes estúdios, inclusive revelando o mau tratamento dado a atores de segunda linha por diretores pouco afáveis.

De Palma confere um ponto fraco a seu protagonista de forma a transformá-lo em um ser humano ou um anti-herói: a claustrofobia – se aproximando do Scottie de Um corpo que cai (1958), que era tomado por uma acrofobia que lhe causava vertigens. Dessa maneira, De Palma explora tal característica através de uma câmera subjetiva de movimentos nervosos, porém em leve slow motion, sem a rigidez técnica de Hitchcock que unia para tanto o zoom in com o travelling. E como se não bastasse, a femme fatale dupla da obra de Hitchcock é trocada por uma dublê de corpo, colocada para dançar para Scully na janela fingindo ser sua vizinha apenas para mascarar um plano maligno, de modo a colocar o ator como testemunha ocular de um crime a encobrir outro.

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No final das contas, quem deveria ser o verdadeiro dublê de corpo é Scully, isto é, um mero objeto utilizado para fazer ocultar a verdade, porém sua curiosidade e seu voyeurismo o fazem ir a fundo e investigar por conta própria o crime. Dessa forma, Dublê de corpo termina por se aproximar muito mais de Um corpo que cai do que de Janela indiscreta, traduzindo-se em um simulacro no qual De Palma se utiliza de uma alegoria com o próprio cinema e suas possibilidades criativas e narrativas – tal como Hitchcock o fez no primeiro filme e de outra maneira no segundo – para refletir sobre a natureza humana e sobre Hollywood em si.

A busca de Scully por uma solução para o assassinato de sua vizinha transfigura-se, assim, em um mergulho pelos meandros de Hollywood e por seu lado obscuro, uma espécie de acerto de contas de De Palma com algumas personas non gratas e com o modo pouco aprazível com que foi tratado ao trabalhar com produções de orçamentos maiores e ligadas a estúdios – no caso mais específico, sua obra anterior: Scarface (1983) – e com a artificialidade daquele universo particular, onde o cinema em si é mera alienação, demonstrando o quanto o local está inserido em reles sociedade do espetáculo marcada pela reprodutibilidade técnica própria da modernidade, algo que fica óbvio quando da entrada de Scully no mundo da pornografia para investigar a morte de sua vizinha.

O manipulável fica por conta desse microcosmo onde o protagonista transita, em que a câmera de De Palma torna-se um instrumento ou dispositivo de viagem por aquele mundo, realizada a partir de uma fluidez da imagem – através de travellings e tomadas longas –, de maneira a introduzir o espectador nesse universo e em sua camada alucinatória, tudo isso sob o ponto de vista de Scully. Assim, o espectador sente qual a sensação causada pela claustrofobia e se torna um voyeur acompanhante do personagem em sua jornada fantasiosa, afinal tudo pode se tratar de mero sonho, o que esbarra novamente no poder da imagem, na ilusão proporcionada pela mesma. Tanto é que em certo momento Scully descobre que não era sua vizinha dançando na janela e sim uma atriz pornô contratada para enganá-lo, ou seja, ele foi atraído e se excitou por outra mulher. De Palma, sabendo disso, insere o espectador em seu estudo de sedução causado pela imagem. O que há de encantador ou excitante em observar a vida dos outros? É o que se propõe o cineasta ao subjetivar o olhar do espectador – como se o colocasse ali para observar tudo através do buraco da fechadura –, manipulando-o e transformando-o em testemunha de olhar inerte, uma vez que a impotência o impede de ser algo além disso.

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Dentro da ilusão, o espectador se sente como Scully, uma testemunha, porém ao contrário dele – que é incapaz de contactar a Polícia, por exemplo, pois teria de admitir seu voyeurismo – quem assiste avidamente é tomado pela inércia de seu olhar, sem nada poder fazer, porque esbarra no universo de ficção que a imagem quimérica o inseriu. Ora, e não seria tudo no mundo mera ilusão criada pela mente humana? É a pergunta que parece ser lançada por De Palma e que, obviamente, não é respondida. Em certo momento Scully se olha no espelho, como se quisesse descobrir uma resposta para tal pergunta e o espectador é levado junto em sua reflexão, porém além do espelho, ele tem a tela do cinema (ou da televisão) para causar-lhe uma sensação ilusória mais forte do que a de Scully. Imagem do celulóide ou imagem mental, qualquer que seja o lado umbrático da vida ou do espetáculo, as ilusões estão aí para atormentar o ser humano e fazê-lo questionar.

[1] Elemento ou objeto dentro das tramas de Hitchcock que aparentemente tinha pouca importância para o espectador em si (e muito valor para o protagonista), mas que fazia a narrativa ser guiada para outro caminho.


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O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana..
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