O Formalismo

O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana.

Cláudio Assis filma com cores fúnebres o pior lado do ser humano em Baixio das bestas.


O cinema sempre se pautou por ser a arte mais voyeurística de todas, até mesmo por razões óbvias, uma vez que o olhar da câmera é nada mais do que um registro inerte do ser humano. Entretanto, enquanto o cinema clássico americano e as vanguardas européias dos primeiros anos do século XX entenderam tal fato muito bem – mesmo se valendo de registros que exploravam o voyeurismo de forma subjetiva –, os realizadores pós-decada de 1940, a partir daquilo que se convencionou denominar como cinema moderno, levaram essa característica intrínseca da arte cinematográfica a outros níveis.

Esse é o caso de Baixio das bestas (2006), de Cláudio Assis, crítica feroz à sociedade patriarcal e machista dos rincões da região nordeste brasileira. Em certo momento, durante uma conversa descontraída, um dos personagens diz para o outro: “Sabe o que é o melhor do cinema? É que no cinema tu pode fazer o que tu quer”. Tal afirmação não é mera metalinguagem fútil, e sim uma súmula dos personagens masculinos do filme. Essa é a forma com que eles se vêem, ou seja, como homens viris que tudo podem, inclusive desrespeitar a sensibilidade feminina a seu bel-prazer. Dessa maneira, Assis constrói o eixo dramático de sua obra a partir dessa frase, que acaba tomando formas transitantes entre o simulacro e a realidade.

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Através de uma câmera quase sempre parada, o diretor busca retratar o lado mais vil e cruel do ser humano, o seu pior, através de um requinte sadomasoquista, que leva o espectador ao choque. Assis revela um Brasil esquecido pela classe média e condenado ao ostracismo pela inoperância das leis ali praticamente inexistentes. É o Brasil das meninas menores de idade expostas e prostituidas nas estradas para trogloditas que lhes pagam míseros centavos, de adultos que exploram crianças sexualmente, de jovens que tratam as mulheres como reles objetos a sofrer por seus desmandos, abusos e agressões físicas e sexuais.

Com um espírito próximo ao de Sam Peckinpah, Cláudio Assis filma o pior lado do ser humano, sua imoralidade e sua hipocrisia, tudo isso sob o prisma da miséria e do asco, porém com uma abordagem mais próxima do realismo, apesar da fotografia soturna e fúnebre – marcada por tons dourados que, dentro do estudo das cores, remetem à corrupção e à degradação –, bem próxima do expressionismo, parecendo dizer que os personagens ali devem ser sepultados, algo também visto na simbologia de uma fossa que está sendo construída por um dos personagens. Mesmo assim, o diretor não julga os homens de sua narrativa, buscando entender o fato do comportamento dos mesmos fazer parte de toda uma realidade social de miserabilismo inserido em um ambiente onde o plantio ruralista e manual da cana-de-açúcar ainda é um raro sustento que aos poucos é suplantado pela chegada do progresso das máquinas e das usinas, porém sem que os mesmos homens abandonem seu machismo e seu paternalismo. Aliás, até o popular maracatu ganha em certos momentos um ritmo de crescente destruição, tal como o Nordeste pintado ali por Assis.

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Dessa forma, o realizador demonstra toda a sua descrença na raça humana, mas ao mesmo tempo sem apelar para a gratuidade das imagens, algo que poderia fazer todo o seu discurso cair por terra. Uma das cenas mais emblemáticas dessa característica é quando uma prostituta está sendo atacada por vários rapazes que inserem um pedaço de madeira em seu órgão genital. Assis desloca a câmera para a direita, onde se localiza uma parede, passando a descrever toda a ação através das sombras e, obviamente, do som, algo que não tira nem um pouco da crueldade ou do voyeurismo da cena. Aliás, tal escolha estética leva maior violência a toda a questão ali transcorrida, uma vez que o espectador é privado de seu olhar, isso em uma época onde a perversidade e o barbarismo têm cada vez mais dominado tanto os noticiários jornalísticos como o próprio cinema também, onde o espectador, de forma cada vez mais passiva, se acostuma com as imagens violentas que vão de encontro ao seu olhar inebriado.

As perguntas que ficam são: Baixio das bestas serve como denúncia? Suas imagens são realmente necessárias? Até que ponto a polêmica é válida? De polemistas se faz o cinema contemporâneo e talvez a melhor das respostas seja: antes a coragem em enfrentar os assuntos difíceis de serem abordados e causar um choque despertador no espectador do que fingir que o mundo é um mar de rosas e o ser humano bom por natureza.


O Formalismo

O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana..
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