O Formalismo

O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana.

Wyatt Earp no cinema: Visões e desconstruções de um mito e a evolução nas representações desse personagem histórico.


Em 1931, o escritor americano de narrativas populares Stuart N. Lake publicou uma biografia sobre Wyatt Earp, delegado da cidade de Dodge City, no Kansas, e depois em Tombstone, no Arizona. Até então, Earp era uma figura vagamente conhecida, porém já havia criado fama em Hollywood, onde foi viver durante os idos da década de 1920 com sua segunda esposa, Josephine Marcus, atriz de uma companhia teatral itinerante e filha de um rico comerciante. Earp passou a visitar sets de filmagens de westerns e se tornou amigo de alguns caubóis atores daquele período, como Tom Mix e William S. Hart, além de diretores proeminentes daquela época, como Allan Dwan e John Ford.

Nesse ambiente propício nasceu Wyatt Earp: Frontier Marshal, biografia romantizada aparentemente baseada nos relatos do já idoso Earp para Stuart N. Lake. O western nessa época se encontrava de certa maneira em baixa com o público, que estava se cansando das inúmeras narrativas semelhantes sobre a conquista e assentamento do Oeste americano sob a égide mitológica. Além disso, o cinema sofria uma transição brusca do silencioso para o falado e se via como um dos instrumentos de fomento para a população pobre estadunidense que era afligida com os efeitos repentinos e severos da crise de 1929. A partir daquele momento nascia mais um herói nacional, isso devido à narrativa de Lake que enaltecia o mito de um homem destemido, altruísta e defensor da lei que domou a cidade de Tombstone, até então marcada pelo banditismo, a seu bel-prazer. Mesmo mais tarde Lake confessando que sua biografia se tratava de uma grande mentira e que nada a constar ali houvera sido relatado por Earp, a lenda já havia se estabelecido em cima da verdade, ou melhor, a lenda já havia se tornado verdade e um herói criado, do qual a nação se espelharia e se sentiria orgulhosa.

Direta ou indiretamente, o western em si moldou a História americana, engrandecendo e decantando os mitos e os homens por trás das histórias lendárias durante boa parte de seu período de reinado no cinema popular estadunidense. Esse gênero cinematográfico terminou por criar um universo à parte, uma espécie de Monte Olimpo cinematográfico, onde a História oficial da formação dos EUA foi sobreposta por narrativas populares que buscavam criar uma lenda historicamente necessária para se atingir o progresso como nação, uma vez que heróis são necessários em toda e qualquer constituição de uma civilização ou sociedade.

A primeira adaptação cinematográfica do livro de Lake seria dirigida pelo veterano e pioneiro Allan Dwan em 1939. Apesar de deixar sempre claro que Wyatt Earp era “tão fajuto como uma cédula de três dólares” (segundo palavras do próprio Dwan), o diretor resolveu levar à frente seu filme, A lei da fronteira, louvando o mito e a heroicidade de Earp, através de uma narrativa concisa e marcada essencialmente por cenas de ação que suprimiam fatos e personagens importantes da história do ex-delegado de Tombstone, tal como a tradição da obra literária de Lake, que, naquele período ainda trazia credibilidade ao figurar entre os créditos de algum material cinematográfico baseado em sua narrativa épica, romanceada e mitológica.

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Logo após, John Ford dirigiria Paixão dos fortes (1946), considerado uma refilmagem de A lei da fronteira, até por conter traços da narrativa semelhantes aos do filme de Allan Dwan. Entretanto, a aura mitológica e romântica antes empregada com certa timidez por Dwan, na obra de Ford assume-se como ponto central, aliada a um tom poético e ao mesmo tempo de ode ao bucolismo e aos costumes do Velho Oeste. De qualquer forma, personagens antes suplantados por Dwan, como os irmãos de Wyatt Earp (Virgil e Morgan), aparecem na narrativa de modo a melhor ilustrar inclusive a famigerada batalha do O.K. Corral, que em A lei da fronteira servia como forma de heroizar Earp e Doc Holliday, seu parceiro fora-da-lei, que falecia no fatídico combate contra os homens da família Clanton. Ford ainda continua a transferir esse lado de auto-sacrifício a Holliday tal como Dwan o fizera, e constrói o personagem como um charmoso jogador de pôquer e assassino.

Wyatt Earp ainda é visto como o destemido e altruísta herói, porém outras características foram acrescentadas, como o jeito tímido e reservado do homem se portar, principalmente na presença de sua amada Clementine, personagem que na realidade jamais existiu, apenas na ária popular My darling Clementine, título original de Paixão dos fortes. Esse fato ajuda a reforçar a mitologia e o lado romanesco e poético do filme, uma vez que a canção citada é entoada em várias passagens do western, além de conferir um olhar humano e realista ao personagem de Earp, ao invés de meramente maniqueísta.

Tal como em A lei da fronteira, Earp é alçado ao status de xerife de Tombstone ao salvar a cidade de um ataque de um índio bêbado, algo que se trata de pura lenda. Um ponto interessante a ser ressaltado acerca de Paixão dos fortes é o fato de John Ford construir seu filme praticamente sob o ponto de vista de Wyatt Earp, transferindo a mitologia para seu olhar, apenas narrando a lenda e não como a mesma se tornou fato, ao contrário do que faria anos mais tarde em O homem que matou o facínora (1962), western desolador sobre a inevitabilidade da vinda do progresso. De qualquer forma, ao contrário de Allan Dwan, Ford edifica seu filme em cima de um dos vários conflitos que seriam utilizados nas narrativas do Oeste, ou seja, o contraste entre a civilização e a selvageria, não da forma mais banal como em obras anteriores do gênero, com o homem branco representando a civilidade ou a modernidade, e o indígena o indomado e bravo silvícola, mas sim através de uma visão mais sofisticada, isto é, ao representar Tombstone como uma cidade em construção em uma região desabitada e marcada pela violência como forma única de se resolverem os conflitos e onde a lei e a ordem teriam dificuldades de serem estabelecidas.

Apenas onze anos depois a história de Wyatt Earp seria novamente adaptada para o cinema em Sem lei e sem alma (1957), de John Sturges, cineasta dos mais importantes na renovação de Hollywood, ao lado de nomes como Nicholas Ray, Samuel Fuller, Robert Aldrich, Arthur Penn, dentre outros. Sturges cria uma narrativa onde se aprofunda na amizade entre Earp e Doc Holliday, passando a revelar detalhes e personagens antes esquecidos nas adaptações anteriores, como a mulher de Holliday, Kate Fisher (também conhecida como Kate Elder). Wyatt Earp ainda é visto como um altruísta defensor da lei, porém Doc Holliday se transforma em um personagem multidimensional e psicologicamente rico, marcado pela admiração ao amigo Earp e ao amor e ódio por Kate, que considera o delegado de Dodge City (e posteriormente de Tombstone), como seu grande adversário. Tal psicologismo seria uma das características mais fortes dos westerns dos anos 1950, que já caminhavam para um revisionismo iniciado com timidez na década de 1940 através de obras como Consciências mortas (1943), de William A. Wellman, e Duelo ao sol (1946), de King Vidor, e que se tornaria a tônica dos filmes do gênero de 1960 em diante.

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O mesmo John Sturges realizaria A hora da pistola (1967), que se iniciava exatamente no ponto onde Sem lei e sem alma terminava, ou seja, na batalha do O.K. Corral. Entretanto, livre dos impedimentos dos estúdios que talvez tenham obstruído uma visão mais desvirtuada da mitologia no filme anterior, o diretor exibiu uma relação ainda mais forte entre Wyatt Earp e Doc Holliday, cobrindo o período subseqüente ao conflito violento com a família Clanton e os últimos seis anos da vida de Holliday, tomado pela tuberculose. Após o citado embate, os irmãos de Earp sofreram com a vingança por parte dos Clanton em um ataque covarde. Virgil Earp perdeu um braço, que teve de ser amputado, e Morgan faleceu. Wyatt terminou por se lançar à desforra contra todos aqueles que causaram tanto mal à sua família. Em A hora da pistola, Sturges continua a reconhecer o fato dos membros do clã Clanton serem ladrões de gado sanguinários, porém reflete sobre a decadência ética e moral de Earp, que se esqueceu de seu dever como delegado, contrapondo tal fato à humanização crescente de Holliday, que passou a questionar as atitudes de seu amigo, tornando-se seu leal conselheiro. Dessa forma, Sturges demoliu o mito em si, inclusive deixando claro nos créditos de abertura que a história narrada ali foi baseada em fatos reais.

Ao lado de A hora da pistola, Massacre de pistoleiros (1971), de Frank Perry, seria a versão mais desmistificada sobre a história de Wyatt Earp. Pela primeira vez a narrativa enfoca-se em Doc Holliday, onde todos os eventos são vistos através de seu ponto de vista. Ainda construído como um charmoso fora-da-lei, Holliday ainda é marcado pelo tom humanista antes visto no filme de Sturges. Já Earp é edificado como um personagem imoral e corrupto, tão ou mais pútrido que a família Clanton e que planeja minuciosamente o ataque empreendido no O.K. Corral. Com uma visão mais próxima da crítica ao imperialismo americano em si, Frank Perry cria uma representação alegórica da Guerra do Vietnã, tal como outros westerns realizados nesse período o fariam. Tanto é que Earp em Massacre de pistoleiros não passa de um machista orgulhoso e de um homem inescrupuloso. O próprio roteirista, Pete Hamill, chegou a declarar que “a Indochina era Dodge City, e os americanos uma espécie de versão coletiva de Wyatt Earp.”

A crítica chega a um nível tão alto que, em certo momento, quando Earp está concorrendo à eleição para xerife de Tombstone (que nunca venceu), ele planeja tornar Holliday e a si mesmo ricos a partir da cobrança de impostos indevidos na cidade. Doc então declara a Earp: “Nós parecemos gente ruim, Wyatt.” Earp pisca o olho de forma mordaz e responde: “Nós somos, John.” Não apenas esse fato ligado à metáfora quanto ao espírito imperialista americano é censurada, mas também os males dos anos 1960, como o abuso de drogas, seriam ilustrados através de Doc Holliday, viciado em láudano, medicamento que tem como uma de suas principais bases o ópio.

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As pretensões realísticas de destruir a mitologia tanto de A hora da pistola, quanto de Massacre de pistoleiros dariam força – ao lado do maior acesso à informação presente a partir dos anos 1980 – para serem realizados na década de 1990 dois importantes westerns a assumirem o tom desmistificador e investigativo: Tombstone – A justiça está chegando (1993), de George P. Cosmatos, e Wyatt Earp (1994), de Lawrence Kasdan. O primeiro assumiu referências óbvias ao western spaghetti – até pelo fato do diretor ser um italiano radicado nos EUA – e a obras anteriores do cineasta, marcadas pela ação e pela violência banais e pouca reflexão, além da estética sangrenta e extremamente barroca, a ode aos anti-heróis, a paródia ao cinema de gênero americano e os diálogos marcados por frases de efeitos por vezes tolas.

Já o filme de 1994 resolveu partir para um tom elegíaco, sentimental e, ao mesmo tempo, puramente investigativo, sem, no entanto, investir tanto quanto poderia no subjetivismo ou mesmo no psicologismo dos personagens. Kasdan construiu uma obra com mais de três horas de duração, com formato puramente epopéico, onde, pela primeira vez na história do cinema, é narrada toda a trajetória de Wyatt Earp, desde sua infância e adolescência, passando pela relação com o pai que moldaria seu caráter, até a velhice, pouco antes de mudar-se para Hollywood. Enquanto os primeiros realizadores a narrarem a história de Earp vangloriavam-se por serem fiéis à literatura mitológica de Stuart N. Lake, a partir dos anos 1960 e principalmente com esses dois filmes da década de 1990, a propaganda era contrária, isto é, com os cineastas orgulhando-se de buscarem questionar as figuras de Earp e Doc Holliday e muitas vezes pretendendo estarem dentro dos fatos históricos.

No caso específico de Wyatt Earp, ao mesmo tempo em que se narra a história verdadeira do delegado de Tombstone e mostra-se como ele se tornou uma lenda – sem a inteligência de O homem que matou o facínora, por exemplo –, o lado romanesco e sentimental parece dizer o contrário ao heroizar Earp em inúmeros momentos, principalmente devido à trilha sonora e ao tratamento essencialmente melodioso conferido por Kasdan. De qualquer forma, Tombstone e Wyatt Earp têm seus méritos ao mostrarem de forma inédita no cinema a relação turbulenta de Earp com Mattie Blaylock, que a levaria ao suicídio por uma overdose de remédios, e posteriormente com Josephine Marcus, amante do xerife de Tombstone, John Behan. Os dois disputaram a eleição para xerife em 1881 e Earp perdeu, porém ficou com Josephine, causando um profundo ódio em Behan, que tinha alianças com os criadores de gado da cidade, como Ike Clanton, por exemplo. Algum tempo depois, Virgil e Wyatt se desentenderam com Ike e seu amigo Tom McLaury, fato que desencadeou o conflito violento no O.K. Corral.

Hoje em dia, sabe-se que Wyatt Earp provavelmente assassinou apenas um homem em sua trajetória como delegado de Dodge City e depois de Tombstone, e que utilizava sua arma para apenas dar coronhadas nos caubóis que lhe causavam problemas. Além do mais, a batalha no O.K. Corral durou alguns segundos e provavelmente Earp e seus irmãos, ao lado de Doc Holliday, atiraram em homens desarmados, uma vez que era proibido portar armas em Tombstone.

Resta a pergunta: a função da arte é a mesma da História, ou seja, investigar os fatos ao invés de construir lendas? A verdade é que os filmes que buscaram questionar o mito de formação dos EUA foram mal recebidos por crítica e público, uma vez que os mesmos tocam em duras feridas do povo americano. Talvez uma forma de responder essa pergunta esteja em uma afirmação famosa de um personagem de O homem que matou o facínora: “Estamos no Oeste. Quando a lenda se torna fato, nós a publicamos.”

Referências

FARAGHER, John Mack. A História de Wyatt Earp: Sete Filmes. In: CARNES, Mark C. (org.). Passado Imperfeito: A História no Cinema. Trad.: José Guilherme Correa. Rio de Janeiro: Record, 1997.

MATTOS, A. C. Gomes de. Publique-se a Lenda: A História do Western. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.


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