O Formalismo

O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana.

Um homem sério e a crise do homem contemporâneo.


Mesmo inseridos em um ambiente de comercialismo como o do cinema de Hollywood, os Irmãos Coen talvez sejam hoje em dia os cineastas mais autorais de sua geração. Até em obras meramente comerciais como Na roda da fortuna (1994), O amor custa caro (2003), Matadores de velhinha (2004) e Queime depois de ler (2008), seu humor negro e sua construção de situações absurdas, entretanto realistas, além das lacunas apresentadas, se sobressaem. Após serem consagrados com inúmeros prêmios e um bom sucesso de bilheteria a partir de Onde os fracos não têm vez (2007) e depois do bom êxito de Queime depois de ler, um retorno às comédias “escrachadas”, os Coen resolveram se voltar para um universo mais profundo em busca de realizar muito provavelmente sua obra mais pessoal, Um homem sério (2009).

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Com mais de cinqüenta anos e por volta de trinta de carreira, Ethan e Joel resolveram fazer um balanço de sua vida e sobre a chamada “crise da meia-idade”, tudo isso a partir de situações muito próximas aos dois, escolhendo, assim, um universo particular para nortear sua narrativa, ou seja, o mundo da religião judaica, envolto por inúmeros mistérios sem explicações claras. A trama trata de Larry Gopnik, professor universitário de física, um homem de meia-idade que vê sua vida desmoronar de uma hora para a outra. A cada instante, seus problemas parecem aumentar. Sua esposa quer o divórcio para poder se casar com o recém enviuvado Sy Ableman, um amigo da família e membro da comunidade – que, para completar, decide junto de Judith, a esposa de Larry, que o marido deve morar em um hotel indecente para não envolver seus filhos no divórcio –, seu irmão desempregado e viciado em jogos de azar dorme no sofá da casa e vive dentro do banheiro extraindo um líquido de uma glândula sebácea, um aluno sul-coreano que foi reprovado tenta lhe subornar para obter uma melhor nota, seu vizinho está invadindo sua propriedade e seu filho se tornou membro do “clube do disco” usando seu cartão de crédito sem a devida permissão.

Como sempre faz, Larry prefere, ao invés de protestar, tentar ser um homem melhor, um homem sério, tal como o amante de sua esposa – ironicamente, Ableman é nada mais do que “homem capaz” em inglês – e, para tanto, busca respostas para seus problemas através da fé, reunindo-se com três rabinos de sua comunidade. Em resumo, os dois primeiros apenas dizem a seu modo – quer seja a partir de balbuciações sobre um estacionamento, quer seja partindo de uma parábola sobre um estranho dentista que vê uma mensagem escrita “ajude-me” na parte de trás dos dentes de um cliente – que Larry deve aceitar os mistérios apresentados pela vida e seguir em frente, sendo um membro ativo e atuante de sua comunidade. O último rabino, um idoso ocupado por demais em seus pensamentos, não recebe Larry, causando-lhe mais confusão mental.

Um homem sério não é tão simples como parece e apresenta simbolismos que merecem interpretação caso se queira compreendê-lo. Primeiramente, antes da história de Larry, os Coen apresentam um prólogo – filmado em um claustrofóbico e espartano fullscreen – onde uma parábola judaica sobre a dúvida diante da fé e do extraterreno é encenada de modo a apresentar o que virá logo em seguida. Após isso, há as coincidências: Larry é um judeu de classe média do meio-oeste americano, assim como os Coen e sua família, algo que se traduz em aspectos autobiográficos trazidos para dentro da narrativa, característica pouco usual na carreira dos dois irmãos. Além disso, há os outros símbolos, como o fato da trama se passar em 1967, um ano antes de todas as revoluções ocorridas em 1968. Larry e seus problemas são uma síntese, um prenúncio do turbilhão de mudanças que vinham ganhando o mundo e que, a partir de 1968 em diante, se tornariam comuns nas vidas de todas as pessoas, com as mulheres tomando as rédeas das relações e deixando de ser submissas, além do divórcio, das drogas ilícitas – o filho adolescente de Larry é usuário de maconha e vive devendo um colega de escola, e o pai chega a experimentá-la também – da religião que não conseguia mais explicar os “tempos modernos” e dos homens cada vez mais envoltos pelo conflito entre a fé e a razão.

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Larry é o símbolo dessa colisão, tentando explicar fenômenos misteriosos, como o paradoxo de Schrödinger – do gato em uma caixa que se encontra, ao mesmo tempo, vivo e morto –, a partir da matemática, ciência racional, assim como a física. Entretanto, ele é um homem religioso, ansioso por ser considerado “um homem sério” dentro de sua comunidade, e que não consegue explicar racionalmente, apesar das tentativas frustradas, a intervenção de Deus (ou HaShem, segundo o judaísmo) em sua vida e o porquê de seus problemas. A resposta mais próxima disso que Larry consegue obter vem do pai de seu aluno sul-coreano: “Por favor, aceite o mistério.” Entretanto, Larry busca respostas racionalistas e não as encontra, algo que o faz se entregar ao universo oculto ao final.

Para construir essa situação, os Irmãos Coen utilizam-se, entre outras coisas, da mise-en-scène. Sy Ableman, o dito “homem sério” consegue exprimir seus pensamentos de forma serena e dominar Larry, que por sua vez, mal consegue balbuciar alguma palavra, porém logo estaciona em sua submissão de não reclamar de coisa alguma. Como forma de ilustrar isso, Larry se mostra descontrolado, sempre com um andar pesaroso e trôpego, com as costas arqueadas, como se carregasse um peso sobre os ombros. Sua fala é fragmentada, assim como seus pensamentos, e ele não consegue se expressar de forma entendível, sempre com olhos lacrimejantes e a testa cerrada, como se sua cabeça estivesse prestes a explodir. Analogamente se encontra seu irmão, entretanto com dois acréscimos: seu olhar e seu modo de andar, próprios de uma criança sempre à espreita, sabendo que será castigada por ter cometido alguma travessura, no caso seu vício em jogos de azar. Dessa forma, Larry é confrontado por seu fraterno que, em certo momento, diz, em prantos, que o irmão tem sorte por possuir uma família e um emprego dos quais se orgulha, ao contrário dele, amaldiçoado por HaShen, que nada lhe deu.

Para deixar mais clara essa abordagem fragmentária dos pensamentos tanto de Larry, quanto de seus pares que passam por problemas – como seu irmão e seu filho –, os Coen se valem de enquadramentos subjetivos, causando certo estranhamento, geralmente com personagens no centro da tela – que dizem respeito à postura centralizadora e dominante dos membros da comunidade judaica em relação a Larry – e angulações tortuosas, muitas delas subjetivas também, além de cortes secos e planos fechados extremamente claustrofóbicos, prestes a engolir, a sugar o protagonista, algo também explorado pelo design de som, que busca causar certa cacofonia e incômodo através de sons de objetos presentes na narrativa.

Larry é o homem comum, ordinário, envolto pelo caos, todavia contemporâneo, que busca explicações, respostas. Os Coen traçam um perfil de crise desse dito “homem contemporâneo” ao expô-lo não a problemas de ordem sobrenatural e sim a dilemas da vida moderna que esbarram em sua até então resolvida fé e no conflito da mesma com sua racionalidade. A partir daí podemos entender o homem de nossos tempos, cada vez mais sem soluções para os “mistérios” que o afligem – dentro disso compreende-se a ascensão do número de ateus no mundo, uma vez que as religiões em geral oferecem poucas respostas, levando os homens a crer, a aceitar os dogmas, e não questionar jamais, que, no caso de Larry, aparece sob a forma de protestos do tipo “eu não fiz nada para merecer isso”.

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Exatamente, não é preciso fazer nada para que caiam sobre nossas cabeças as desgraças da vida moderna, ou será que a passividade não leva a um “castigo” divino, assim como a aceitação do mistério, tal como é demonstrado na ambígua seqüência final. Não se trata, portanto, de uma crítica à fé por parte dos Coen, e sim de uma constatação de que nem religião, nem ciência – através de suas fórmulas e métodos racionais – explicam determinadas coisas. A resposta ou a falta dela e o conforto que devemos obrigatoriamente aceitar, parece encontrar-se na música da banda Jefferson Airplane, Somebody to love, tema de Um homem sério: “Quando a verdade se revela mentira e todos os contentamentos dentro de você morrem, você não deseja ter alguém para amar? Você não precisa ter alguém para amar? Não amaria ter alguém para amar? É melhor encontrar alguém para amar...” Assim segue Larry e todos que compartilham seus dilemas, ou seja, sem algo para se consolar.


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O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana..
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