O Formalismo

O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana.

O avião-diligência desgovernado e a diferença de classes em Os amantes passageiros, de Pedro Almodóvar


O espanhol Pedro Almodóvar tem uma carreira marcada por uma investida em dois gêneros cinematográficos: o drama que por vezes flerta com o suspense – Maus hábitos (1984), Matador (1986), Ata-me (1990), Tudo sobre minha mãe (1999), Fale com ela (2002), Má educação (2004), Volver (2006), A pele que habito (2011) – e a comédia, casos de Pepi, Luci, Bom e outras garotas da turma (1980), Que fiz eu para merecer isto? (1984), Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988) e Kika (1993), por exemplo. Entretanto, é notório o fato do diretor se sentir mais à vontade quando trabalha com filmes de cunho humorístico. Porém há dois fatos que se encontram de comum acordo em toda a filmografia de Almodóvar e que devem ser compreendidos, caso se queira entender sua obra. Em primeiro lugar há o tom farsesco empregado em seus filmes, visto tanto na estética – a direção de arte e a fotografia de tons extremamente coloridos e berrantes, mesmo em obras de caráter obscuro per se – quanto no modo antinaturalista e, algumas vezes, histriônico de seus atores encarnarem suas personagens. Em segundo lugar, há a junção (e não a dissociação) dos dois gêneros citados, como se ambos convivessem em simbiose não apenas na arte, como também na vida, uma vez que a primeira existe graças à segunda. Essa união entre drama e comédia atinge em vários filmes de Almodóvar nível melancólico, onde o espectador em determinados momentos de um filme com tal característica tem sensações extremas, chorando e rindo ao mesmo tempo, como é o caso de Tudo sobre minha mãe, por exemplo.

Guardadas as devidas proporções, o americano descendente de irlandeses, John Ford, também demonstrava essa veia transitante entre o humor e o drama em suas obras praticamente da mesma forma tênue, isso nos idos da era de ouro de Hollywood, porém de uma forma completamente distinta, obviamente, pois Ford, como se sabe, era um conservador, e se sentiria ofendido ao ser comparado com Pedro Almodóvar. Porém a comparação aqui se dá apenas em um nível de características próximas que ambos carregam em suas filmografias e se mostrará válida logo a seguir ao se colocar em confronto as estruturas narrativas de No tempo das diligências (1939), de Ford, e Os amantes passageiros (2013), de Almodóvar.

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Para começo de conversa, é preciso deixar claro que Os amantes passageiros é um filme gay, que respira e transpira esse atributo em cada cena, em cada personagem, em cada pequeno detalhe. Gay tanto no sentido homossexual propriamente dito (sinônimo do qual essa palavra se associou há algum tempo), quanto no sentido original da expressão, uma vez que ela designa, em sua língua mãe, a alegria, a felicidade, a jovialidade, as cores vivas, sendo essas as formas de descrever o cinema de Almodóvar com propriedade.

Entretanto, ao contrário de filmes anteriores, marcados por certa delicadeza e sutileza no tratamento da sexualidade de suas personagens (mesmo com seu citado histrionismo), em Os amantes passageiros, Almodóvar trabalha com estereótipos que demarcam símbolos da sociedade espanhola. A diligência é retirada do século XIX e destituída da virilidade dos cowboys presentes na mesma, trazida para o século XXI, transformada em avião para uma Espanha entregue à crise que aflige a economia capitalista, ou seja, um espaço onde se concentram personagens que são símbolos de seu país (o nome da companhia aérea é Península – a Espanha faz parte da Península Ibérica). Se o filme de Ford foi realizado quando o crack da Bolsa de Nova York completava dez anos e se mostra como uma simbólica crítica à interferência do governo na economia, presente em uma personagem de um banqueiro, o de Almodóvar se mostra como uma paródia, uma sátira da situação da Espanha, valendo-se de uma reflexão sobre os jogos de poder que movem a sociedade.

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A história é a de um avião com direção ao México e que, ao perder seu trem de vôo e não ter onde pousar, fica dando voltas por cima da cidade de Toledo até encontrar uma solução. Enquanto a classe econômica é “anestesiada” com relaxante muscular por parte das aeromoças e dorme em sono profundo, a primeira classe (o poder dominante da sociedade dentro de uma alegoria) faz a festa, promovida por três comissários de bordo homossexuais, que fazem um coquetel regado a muito álcool e drogas, levando todos a se soltarem e a revelarem seus mais profundos segredos. Há o empresário acusado de fraude que foge para o México afim de não ser preso, uma prostituta de luxo – substituindo a de bom coração que se enlaçava com o mocinho em No tempo das diligências – que suborna seus amantes com vídeos realizados dos encontros entre eles, um matador de aluguel contratado para matá-la, um ator de TV que namora uma suicida em potencial, um casal de recém-casados cujo noivo trabalha como “mula”, e uma sensitiva que prevê o ocorrido com o avião.

A comparação com No tempo das diligências realmente cabe para se falar da estrutura narrativa, ou seja, das personagens que são símbolos de uma Espanha falida e desgovernada, entregue à sua própria sorte. Entretanto, narrativamente, Os amantes passageiros traz à lembrança outro filme clássico: A regra do jogo (1939), de Jean Renoir. Ambas as obras são críticas ferozes à burguesia de suas respectivas épocas, e tratam a diferença de classes de forma alegórica, porém enquanto o filme de Renoir era poético por si só, o de Almodóvar se mostra sarcástico ao extremo, deixando claro que enquanto o país se encontra em uma realidade de desemprego, de miséria e de uma economia falida trazida pela crise, os poderosos preocupam-se apenas com seus problemas.

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A classe econômica – leia-se tanto a classe média, quanto as classes mais baixas, as maiores afetadas pela crise – encontra-se entorpecida porque é como se os cidadãos pertencentes a essas classes realmente encontrassem-se dessa maneira. O piloto do avião e seu co-piloto se entregam à bebida e ao sexo durante a viagem – sendo ambos machões que escondem um bissexualismo devasso enrustido. Seria uma crítica direta ao ditatorial Primeiro-Ministro espanhol, Mariano Rajoy, acusado de envolvimento com corrupção no início de 2013, e ao Rei Juan Carlos? Talvez. E o entorpecimento simbólico da classe econômica, nesse caso, pode estar se referindo tanto a um estado de alienação, quanto de entrega impotente a governantes que não resolvem seus problemas.

Há a questão da sexualidade, anteriormente tratada de forma um pouco mais sutil por Almodóvar e vista em Os amantes passageiros como se fosse explodir na tela, devido ao desejo exacerbado de suas personagens, que inclusive relacionam-se dentro do próprio avião sem o menor escrúpulo ou pudor, algo que se torna claro não apenas no escracho erótico presente nos diálogos, como em uma performance da canção I’m so excited por parte dos comissários de bordo. Aliás, os comissários são provavelmente os homossexuais mais afetados de toda a galeria de personagens de Almodóvar e são aqueles que se tornam o fio condutor da narrativa.

Os amantes passageiros se mostra, assim, um libelo anárquico e revoltado por parte de Almodóvar envolto por um quadro de puro escracho (de tom farsesco e absurdo), chanchada erótica e screwball comedy mista de commedia dell'arte, que se mostra uma crítica tanto à Espanha atual quanto ao capitalismo contemporâneo – é só observar o modo como as personagens se utilizam demasiadamente das redes sociais. Mesmo assim, o filme termina de maneira a enxergar uma luz no fim do túnel, isso graças às personagens que assumem seus erros e buscam corrigi-los, como se Almodóvar dissesse que apenas dessa maneira a Espanha estaria salva da crise.


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O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana..
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