O Formalismo

O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana.

Nascido para matar: um maço de significações sobre a natureza humana e o mundo de merda de Stanley Kubrick


Nascido para matar (1987), de Stanley Kubrick, se inicia com uma montagem de imagens de jovens sentados em uma cadeira de barbeiro enquanto raspam seus cabelos – maneira de torná-los indistinguíveis entre si – ao som da canção Hello Vietnam, de Johnny Wright. A música diz coisas como “Me dê um beijo de despedida e me escreva enquanto estou partindo. Adeus meu amor. Olá Vietnã” e “Eu não acredito que essa guerra irá terminar. É um combate que nos destruirá outra vez”. Claramente, Kubrick fala de um momento simbólico que diz respeito à perca da inocência por parte desses jovens, que, como primeira tarefa para ingressarem no corpo de fuzileiros navais dos EUA (que irá combater no Vietnã) e, conseqüentemente, entrar na vida adulta, eles devem primeiramente deixar suas madeixas para trás e, com isso, sua pureza para encararem de forma dura a principal prática de crueldade da existência humana: a guerra. Esse tom irônico, conseguido principalmente pela canção de Wright, irá permear o filme de Kubrick até seus minutos finais.

O combate no Vietnã em meio ao contexto da Guerra Fria foi tema de inúmeras obras chocantes, quer seja as que pendiam para um lado de apoio ao conflito (caso de Os boinas verdes [1969], de Ray Kellogg e John Wayne), para a crítica e reflexão sobre as chagas deixadas pela batalha – como se mostram Os visitantes (1972), de Elia Kazan, O franco-atirador (1978), de Michael Cimino, Amargo regresso (1978), de Hal Ashby, Apocalipse now (1979), de Francis Ford Coppola, Hamburger Hill (1987), de John Irvin, e a trilogia de Oliver Stone, formada por Platoon (1986), Nascido em 4 de julho (1989) e Entre o céu e a terra (1993) –, os filmes de caráter ambíguo (Rambo - Programado para matar [1982], de Ted Kotcheff, por exemplo), ou mesmo os que tratavam a guerra de forma alegórica, como M.A.S.H. (1970), de Robert Altman, Pattoon - Rebelde ou herói (1970), de Franklin J. Schaffner, e Exército do extermínio (1973), de George Romero. Entretanto, nenhum dos citados é tão contundente e abrangente como Nascido para matar, pois, além dele reunir elementos e temas de alguns dos outros filmes citados embebidos em uma profunda crítica permeada por puro humor negro e por um grande desprezo pela humanidade (algo praticamente normal em Kubrick), o filme ainda esbarra em outras questões que o fazem criar uma série de camadas.

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Kubrick é o cineasta da relação homem e máquina, não no sentido mais simplório que diz respeito a um conflito em si puro e simplesmente, mas sim à automatização do ser humano nas sociedades modernas que o levam à conseqüente perca da única coisa que o separa dos outros animais e da máquina: os sentimentos. Isso já podia ser visto de forma tímida em suas primeiras obras, como A morte passou por perto (1955), O grande golpe (1956), Glória feita de sangue (1957), Spartacus (1961) e Lolita (1962). Nesses primeiros filmes, outras marcas do diretor também se encontravam presentes, porém de forma mais aflorada, como seus protagonistas sempre imersos na solidão e em um mundo onde ninguém é completamente confiável.

Para Kubrick, essa transformação do homem em máquina passa por um processo de alienação que é realizado pelas sociedades ou pelas instituições que desejam converter o ser humano em um autômato que não questione os ditames do governo, que trabalhe para consumir bens materiais inúteis e que seja um cidadão exemplar, mesmo que de uma maneira falsa, algo que fica claro em Laranja mecânica (1971), por exemplo. Em Nascido para matar, isso é enxergado através da própria situação que constitui praticamente toda e qualquer guerra desde o início dos tempos: quem a declara são os poderosos e eles não vão para o combate. Geralmente quem vão são os jovens, que mal acabaram de entrar na vida adulta e, portanto, não têm ainda uma visão política formada, e/ou, mais precisamente, os marginalizados da sociedade, como os pobres e os negros, por exemplo.

Nascido para matar se divide em duas partes que ilustram basicamente a preparação ou o treinamento para a guerra e a batalha em si. Entretanto, apesar de separadas para efeitos de narrativa, ambas se interligam através de determinadas questões que são apresentadas via situações distintas, mas que no fundo remetem a todo tempo ao caráter anti-guerra defendido com dureza por Kubrick dentro de seu escudo de desprezo pela humanidade em geral. Essa divisão quase didática esconde uma série de significados que não dizem respeito apenas ao Vietnã, mas também a todas as guerras travadas pelos EUA, bem como as intervenções militares promovidas pelo país e até mesmo aos órgãos de vigilância do governo, como o FBI e a CIA.

Essa primeira parte de Nascido para matar é a que talvez melhor exemplifique a idéia da maquinização do homem presente no cinema de Kubrick. Os jovens se encontram na Ilha de Parris, onde passarão por um treinamento ao mesmo tempo humilhante, exaustivo e repetitivo. Logo, eles serão designados para servirem em divisões específicas do exército, algo que inclusive leva a outro significado ligado à própria divisão do trabalho, que, segundo o marxismo, com a repetição de movimentos e exercícios leva à alienação. Os recrutas são treinados por uma máquina em corpo de homem, o Sargento Hartman, que apenas transfere a eles o que vivenciou com os marines também quando jovem (e, afinal, ele aparenta ter idade suficiente para ter lutado na Segunda Guerra Mundial). Nas mãos de Hartman, eles sofrerão grandes humilhações, que incluem a atribuição de apelidos que dizem respeito à suas origens ou características, como cowboy, snowball (bola de neve), joker (piadista, brincalhão) e Gomer Pyle – personagem de uma série de TV que tinha como principal característica o fato de ser abobalhado. Assim, os jovens se tornarão homens desumanos que não pensam, apenas executam uma série de tarefas como se tivessem um cabresto social a controlá-los. É nada mais do que uma alegoria com a própria vida, com a sociedade em si.

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O Gomer Pyle de Nascido para matar tem uma espécie de problema mental e, por isso, sofre nas mãos de Hartman mais do que os outros recrutas. Joker o ajuda a superar suas dificuldades e logo Pyle descobre que seu grande talento é atirar. Certa noite, durante a ronda de Joker, Pyle assassina Hartman e se mata. Antes do ocorrido, Pyle tem uma conversa com Joker e diz duas frases que são a chave do filme: “eu estou em um mundo de merda” e “com cápsula de metal” (se referindo às balas de seu rifle). A expressão cápsula de metal traduzida para o em inglês leva a “full metal jacket”, o título original de Nascido para matar. É isso que os jovens recrutas se tornaram e o Sargento Hartman é, ou seja, autômatos revestidos por cápsulas de metal, por uma carapaça dura e intransponível que retirou-lhes todos os sentimentos que os faziam humanos. Pyle se revoltou e enlouqueceu não com seu treinamento, mas com o mundo de merda em que vive, representando pela autoridade do Sargento Hartman.

A segunda parte do filme mostra os homens no combate e é narrada sob o ponto de vista de Joker, que se tornou repórter da unidade de jornalismo do exército. Em suas idas ao campo de batalha para escrever suas reportagens, ele encontra sujeitos tão ou mais insanos do que ele, que não sabem o que estão fazendo ali, apenas se tornaram máquinas de guerra feitas para matar o inimigo – como um metralhador de um helicóptero que diz a ele ser fácil matar crianças e mulheres, pois só precisa mirar não muito à frente delas, um soldado que lhe pede para tirar uma foto com um vietcongue morto ao seu lado (quase um ato visionário sobre as fotos divulgadas de soldados humilhando presos e suspeitos pegos na recente Guerra do Iraque), ou mesmo um Coronel que diz: “Filho, a única coisa que peço a meus fuzileiros é que eles obedeçam às minhas ordens como obedeceriam às palavras de Deus”.

Joker e o fotógrafo que lhe acompanha (que sente náuseas ao ver o metralhador do helicóptero atirando em camponeses), são os únicos que ainda conservam alguma humanidade, que ainda têm algum espírito crítico diante da guerra. Joker conserva em seu capacete a expressão “born to kill" ou “nascido para matar”, traduzindo-se para o português e leva em seu peito um broche com o emblema da paz. Questionado pelo Coronel citado anteriormente sobre o que isso significaria, Joker responde que aquilo é um símbolo da dualidade humana, uma demonstração da teoria de Jung sobre os arquétipos que dão ao homem duas faces: a do bem e a do mal, ambas convivendo em simbiose. Porém, o Coronel não compreende, pois ele é um autômato que apenas repete o mesmo que todos ao seu redor dizem.

Ao final, Joker reencontra Cowboy, com quem havia feito amizade na ilha de Hartman onde foram treinados. A tropa comandada por Cowboy é atacada por uma franco-atiradora vietcongue que mata alguns soldados, inclusive o próprio Cowboy. Os homens conseguem matá-la e vão embora cantando a música-tema do programa Clube do Mickey. Essa seqüência é uma grande alegoria com o que se tornou a Guerra do Vietnã, uma vez que as tropas americanas foram destroçadas pelos vietcongues liderados por Ho Chi Minh e financiados pela União Soviética. Além disso, é uma forma de dizer que os fuzileiros são nada mais do que jovens que foram levados a não mais distinguirem o certo do errado, o bem do mal, pois foram treinados de forma exaustiva para tanto. Eles se desumanizaram, se tornaram as cápsulas de metal sem sentimentos que o Sargento Hartman queria que fossem. Tanto é assim que Joker só raciocina quando não está em combate. Logo que ele entra em contato direto com o morticínio da guerra, seus fantasmas retornam e ele se torna novamente um autômato. Uma das formas de Kubrick refletir esse maquinismo é cruel: quem sente algum sentimento pelos baleados pela franco-atiradora e resolve resgatá-los, é morto também. É uma maneira de dizer que na guerra – ou na vida, no mundo de merda que nos ronda –, quem tem algum sentimento humano é, infelizmente, extirpado. Essa talvez seja sua maior crítica à sociedade, deixando claro que os fracos são extraídos como um câncer, pois não há espaço para eles na sociedade.

Realizado quase tardiamente – e, por isso, obtendo um distanciamento que lhe fez trazer uma reflexão mais acurada sobre o conflito no Vietnã –, Nascido para matar se mostra um tour-de-force assustador e brutal pela natureza humana filmado através de inúmeros travellings e lentes grandes angulares distorcivas (obsessões de Kubrick), que reúne aspectos dos filmes realizados anteriormente sobre o Vietnã, porém se torna ao final das contas um passeio violento pelos campos do mundo de merda de Kubrick. Atual como poucos filmes, Nascido para matar ainda segue medonho em seus questionamentos e críticas, até porque o que se vê ali ganha ressonâncias na Guerra do Iraque e em todos os conflitos militares ou intervenções empreendidos pelos EUA e na constante automatização do homem que se enxerga dia após dia. O desprezo de Kubrick pela humanidade, nesse ponto, é completamente entendível.


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