O Formalismo

O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana.

Cine Holliúdy: um filme joiado e resistente diante do produto estrangeiro e da televisão.


A principal marca alardeada pela Globo Filmes e afins no que diz respeito ao cinema brasileiro de cunho comercial, principalmente o pertencente ao gênero comédia, é a de média de um milhão de espectadores em qualquer filme, o que não é muita coisa caso se pare para pensar que é um número que corresponde a menos de um por cento da população brasileira. Essa marca é atingida devido às características presentes em todos os filmes do tipo descrito anteriormente: a presença de atores televisivos, a linguagem própria de telenovelas e a transposição de programas ou personagens de sucesso na TV para o cinema, fato que vem se tornando moda atualmente. Dessa forma, para se obter essa média de um milhão de espectadores, deve-se seguir essa cartilha básica. Porém, esses filmes muitas vezes não costumam incomodar os distribuidores estrangeiros, que ganham rios de dinheiro no Brasil em apenas um final de semana de lançamento de suas produções. Quando então se vê uma notícia de um filme de características regionalistas entre as maiores bilheterias do país e batendo produções estrangeiras, mesmo que em uma região específica (no caso o Nordeste) e mesmo sendo lançado com apenas nove cópias, a sensação é de que há algo de diferente no ar, alguém ousou transgredir a cartilha e conseguiu atingir um bom êxito. O filme em questão é Cine Holliúdy (2013), de Halder Gomes.

O cineasta chamou a atenção da mídia e dos distribuidores e conseguiu agora trazer seu filme para o sudeste devido ao “apadrinhamento” da distribuidora Downtown, que viu aí uma possibilidade atingir o mesmo êxito em outros locais do Brasil, passando a investir em uma grande campanha de marketing – que utiliza o fato do filme ser falado em “cearensês” (ou seja, a linguagem regionalista própria do Ceará) e por isso contar com legendas.

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Baseado em um curta-metragem que angariou prêmios e fez sucesso em vários festivais, Cine Holliúdy se passa nos anos 1970 em plena época da popularização da TV no Brasil, inclusive nos rincões do Nordeste. Ele conta a história de Francisgleydisson, dono de um cinema mambembe que se torna itinerante por não conseguir se estabelecer em nenhuma cidade graças à concorrência com a televisão. Agora, além da esposa, ele tem o filho para sustentar e precisa conseguir se instalar de vez em algum lugar com seu cinema para começar a ganhar dinheiro e dar uma vida melhor para o menino. Francis então vai parar na cidade de Pacatuba e, para conseguir construir seu cinema, o Cine Holliúdy do título, ele precisa aceitar as exigências do inescrupuloso e populista prefeito local. A sessão de estréia, onde é exibida uma fita de artes marciais dublada em “cearensês”, é um sucesso, mas devido à falta de recursos de Francis, seu velho projetor quebra no meio da exibição (uma marca de subdesenvolvimento) e ele tem de distrair seu público inventando uma história que complemente o resto da narrativa do filme, encenando tudo na frente do público e se utilizando de sua imaginação fértil – característica que também passou para seu filho –, algo que exalta a magia da imaginação e a própria tradição oral nordestina e traz à memória Luzes da ribalta (1952), de Charles Chaplin, bem como todo o humor inocente e pantomímico de Carlitos.

Halder Gomes cria uma comédia única, que causa humor com os estereótipos construídos em cima das personagens diferentes, presentes em qualquer cidadezinha do interior e edifica uma galeria de figuras que tecem todo um inventário de um Nordeste que hoje está desaparecendo, principalmente graças à televisão. Cine Holliúdy carrega, assim, certa comicidade, e, no final das contas, se mostra nostálgico e, ao mesmo tempo, lúdico e melancólico e fala que ainda há esperança guardada na imaginação de pessoas como Francisgleydisson. Por isso, não existe uma supressão de protagonistas e coadjuvantes ou secundários. Isso fica claro na montagem de Gomes, que constrói aos poucos cada uma das personagens e depois as reúne na seqüência da exibição do filme. A câmera ali está em função de dar deixas e momentos humorísticos para cada uma das personagens através do corte, lembrando, de certa forma, o que Chico Anysio fazia em seu programa televisivo Escolinha do professor Raimundo.

Comparações à parte, é inevitável não dizer que Cine Holliúdy é uma espécie de Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore, à brasileira, pois os temas de ambos os filmes são análogos: a nostalgia pelo cinema e de como as sessões públicas e por vezes mambembes eram lotadas de diversão e descobrimento de novos mundos, coisas que ocorriam em público, de forma coletiva, o que a televisão suprimiu. Hoje em dia, mesmo a TV transmitindo filmes ou sendo-se possível assisti-los com o auxílio de um DVD, não é a mesma coisa, pois além do individualismo óbvio embutido aí, não há a relação de troca de sensações com o outro permitida pela exibição coletiva. Ao mesmo tempo, Cine Holliúdy também lembra Bye bye Brasil (1979), de Carlos Diegues, que lá nos anos 1970 já anunciava que a televisão iria de alguma forma acabar com o saudosismo e a paixão pelos espetáculos mambembes de ordem coletivista e mergulhar mesmo as populações mais simples na alienação viciante da telinha em detrimento da telona.

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Dessa maneira, Cine Holliúdy celebra esse passado de forma metalingüística e, logo ao seu final, mesmo dando-se boas risadas, a sensação que fica é de tristeza, principalmente quando aparece um letreiro dizendo que infelizmente a TV dominou o Ceará, pois, de cento e oitenta e quatro cidades, apenas cinco tem salas de cinema e, evidentemente, nelas devem ser exibidas somente produções estrangeiras.

Mesmo assim, vale sonhar como Francisgleydisson, seu filho e sua esposa, que, ao final, conseguem fazer sucesso internacionalmente com sua rede de cinemas (a “Francisplex”), inclusive em Hollywood. Tal fato é utilizado por Halder Gomes através de um sonho recorrente da esposa de Francis: uma musa que sempre aparece em sua imaginação e que mais parece o glamour da televisão que vem roubar o público do cinema. Pois ao contrário, essa musa se mostra depois como uma espécie de presságio do êxito futuro de Francis e família quando conseguem criar sua rede de salas de cinema ao estilo multiplex abrasileirado, vencendo a batalha Davi x Golias do cinema brasileiro frente ao estrangeiro.

O público geral no Brasil de Cine Holliúdy pode não ser o de um milhão de espectadores, mas com certeza seu sucesso no Nordeste mostra o quanto o espectador nacional necessita de filmes que falem sobre sua realidade, que digam algo sobre o que ele vive em seu dia-a-dia, ou que o faça ser levado ao passado e a celebrar a nostalgia. Mesmo a situação de domínio das produções estrangeiras ainda sendo desleal e guardar uma enorme disparidade entre elas e o cinema brasileiro, o que resta é celebrar o sucesso de Cine Holliúdy e torcer para que ele seja o primeiro de muitos filmes de resistência, ao contrário da maioria das produções contemporâneas que apenas levam um produto televisivo qualquer para o cinema com linguagem que mais aliena do que desperta o público para sua realidade ou filmes que ficam restritos somente ao universo dos festivais e mostras. Então, tomara que um filme joiado como Cine Holliúdy continue com sua trajetória de sucesso, pois a contracorrente é a sempre a melhor opção...


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O Formalismo fornece à teoria formativa do cinema o amplo contexto filosófico no qual precisamos examiná-la. Embora todos os teóricos as aceitem. Basicamente uma teoria da linguagem poética que estabelece toda uma teoria da atividade humana..
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