o grito mudo

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Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

Sons of Anarchy e o fascínio que as motocicletas nos causam

Sobre as motocicletas e o fascínio que elas causam na indústria cultural - o caso Sons of Anarchy


As motocicletas são veículos de duas rodas, com tração traseira e motor, que proporcionam uma grande capacidade de locomoção para aqueles que as dirigem. Com mais de um século de história - o primeiro modelo surgiu em 1885 na Alemanha -, elas foram uma das invenções da era moderna que transformaram radicalmente nossas vidas. Isto por que o motociclo contribuiu para a concretização da aspiração coletiva de nossa época de tornar as distâncias cada vez mais curtas e, o tempo, mais rápido e produtivo. 1.jpg

Atualmente, as motos servem para diversas finalidades. Muitos desses usos não são nem um pouco glamourosos, como, por exemplo, ser a fonte de renda de jovens que trabalham como “motoboys”. Contudo, ainda hoje, persiste a idealização de que as motocicletas são um passaporte para a liberdade. De que aqueles que as dominam se tornam sobre-humanos, adquirindo o poder de se livrar das amarras do cotidiano e ir adiante sem necessitar de nada ou ninguém. E o perigo que é correr sobre rodas, no fim, só faz aumentar o fascínio que sentimos por essas poderosas máquinas. Já que é do ser humano flertar com aquilo que é arriscado.

Devido a toda essa carga simbólica, as motocicletas e seus donos já foram temas de inúmeros livros, filmes, músicas e afins. Recentemente, dentre os produtos culturais que homenageiam os motociclos, destaca-se o seriado estadunidense Sons of Anarchy. 2.png Escrita por Kurt Sutter, a série estreou em setembro de 2008 na tv paga, sendo uma das mais assistidas do canal FX Networks. Hoje, o programa em questão encontra-se na sua quinta temporada, com previsão de mais duas a serem filmadas. Sons of Anarchy, num instante inicial, pode soar como clichê para um espectador desatento. Primeiramente, porque a sua premissa parece maniqueísta quando a lemos – um grupo de motoqueiros que lutam para defender a cidade em que vivem, a fictícia Charming, de malfeitores. Além disso, existem muitos elementos na série que agradam em cheio aos que podemos denominar “americano médio”. Estão lá a violência, a ação, a pornografia, as armas sendo tratadas como objetos de fetiche e até mesmo as adoradas motocicletas podem ser elencadas nesta lista. Entretanto, Sons of Anarchy é tudo, menos um lugar-comum. 3.png

Como uma cebola, o seriado tem mais a nos oferecer do que a sua casca. É fato que nele apenas os protagonistas andam de moto e são apresentados como aventureiros. Todavia, estes não ficam limitados a estereótipos rasteiros. Eles sofrem, amam, sentem medo, possuem crenças, gostos pessoais, fraquezas, conflitos, são afligidos por dilemas. O principal deles é que os próprios procuram “varrer o lixo para fora de Charming” ao mesmo tempo em que vivem de atos criminosos como a venda de armas pesadas. 4.jpg Igualmente, é enfatizado na produção que vários dos motoqueiros, que acreditamos que são outsiders por natureza, se tornariam membros do motoclube por verem nele um modo, ainda que tortuoso, de desfrutar o american way of life. Pois pilotar motocicletas seria a maior capacidade deles, podendo ganhar mais com tal qualidade, e com as outras atividades ilegais do MC, do que com um emprego qualquer.

Outra faceta de Sons of Anarchy que é digna de nota é o tamanho da importância que dão para as relações familiares (família em um sentido amplo) e a clara referência a Hamlet. Jax-Teller-sons-of-anarchy-27491024-500-281.jpg Entretanto, ao invés de um reino europeu, temos em xeque a liderança dos “filhos da anarquia”. Já o “príncipe”, Jax Teller (Charlie Hunnam), não é atormentado pelo fantasma de seu pai, mas sim pelo utópico e pacifista manuscrito deixado por ele. Na mesma direção, Jax não enfrentará um tio, mas sim o seu atual padrasto e melhor amigo de seu falecido pai, Clay Morrow (Ron Perlman). Por fim, é interessante ressaltar que a série lança um olhar quase antropológico para os motoqueiros e seus códigos de conduta, lembrando a reportagem de 1966 de Hunter S. Thompson sobre os Hells Angels. Ou seja, Sons of Anarchy é uma série que vale a pena e tem potencial para se tornar tão cultuada quanto The Sopranos.


Mariana Carolo

a dona de mil galáxias.
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