o grito mudo

sobre tudo aquilo que carrego em mim

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

O cangaço em diferentes visões

As artes, através de diferentes apropriações, contribuíram para fazer do cangaço elemento da identidade brasileira. Conheceremos aqui algumas destas perspectivas.


O cangaço foi um episódio da história do Brasil que ocorreu no interior da região nordeste, pedaço do país marcado por secas, fome e disparidade social. Tal fenômeno surgiu nas décadas finais do século XIX e acabou nos anos 40 do século XX. Os cangaceiros eram homens pobres que, armados, andavam sozinhos ou em bandos saqueando, pilhando e desafiando as autoridades e os oligarcas daquelas terras. Como eles conheciam bem o espaço em que atuavam, fugiam facilmente quando eram procurados. Cabe destacar que a maioria desses indivíduos só lutava em benefício próprio. E que as únicas leis que respeitavam eram as ditadas pela aridez do meio em que sobreviviam.

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Involuntariamente, através de suas façanhas de foras-da-lei, os cangaceiros faziam com que os necessitados do Nordeste acreditassem que eles tinham como se levantar, sim, contra os que lhes oprimiam e exploravam. Por isso, ao longo do tempo, eles foram ganhando a fama de justiceiros, se tornando os heróis dos que estavam cansados das iniquidades do sistema. A figura do cangaceiro virou uma espécie de Robin Hood brasileiro. Assim, acabou-se construindo o que é possível chamar de mitologia do cangaço. Esta que tem em Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o seu personagem mais famoso.

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Mitos são narrativas que, reais ou não, servem para esclarecer dúvidas e acalmar os anseios das pessoas. Com o passar dos anos, estas histórias podem ser contadas de diferentes maneiras, para responder às necessidades específicas do grupo que então as assimila. Foi assim com o cangaço, revisto várias vezes na literatura acadêmica e popular e, depois, no cinema e na televisão.

Em Seara Vermelha (1946), livro de Jorge Amado, e em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), filme de Glauber Rocha, o cangaço é apresentado como uma reação aos problemas da desigualdade brasileira. Os respectivos autores o compreendem como um dos primeiros de muitos gritos que estariam por ecoar das massas da nação verde e amarela. E também como um indício de que seria no sertão que estouraria a “grande revolução social” – ilusão que não se concretizou –, pois ali os problemas da fome e da miséria seriam muito mais acentuados.

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Jorge Amado, no seu “romance cangaceiro”, almejou propagandear como o Partido Comunista Brasileiro se fazia necessário. Nas suas páginas, ele afirma que o cangaço (vontade desorganizada de mudança) só prosperaria quando se juntasse ao Partido Comunista (a vanguarda que os guiaria). Não podemos nos esquecer de que o escritor era um militante do PCB e que, na época de lançamento de Seara Vermelha, o pós-Segunda Guerra imediato, havia uma enorme euforia pela organização ter sido legalizada no Brasil.

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Já para entendermos a película de Glauber Rocha, o mestre do Cinema Novo brasileiro, temos que ter em conta que, em 1964, estávamos numa época de grande efervescência política, que culminou com a interrupção do regime democrático em abril daquele ano. Havia toda uma esperança da esquerda do momento, que acreditava que “mais fortes eram os poderes do povo” e que esse povo se tornaria senhor de si quando colocasse a dita corrente política representando-o definitivamente. O cangaço, para Glauber Rocha, era uma prova dessa inevitabilidade de autonomia e, por isso, ele realizara o filme sobre o tema. Porém, os militares tomaram a frente e as coisas não saíram como o esperado pelas décadas seguintes...

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Por fim, na novela Cordel Encantado (2011) da TV Globo, há um grupo de cangaceiros que, quando da chegada ao sertão de um rei europeu, tornam-se seus aliados e respeitadores de sua autoridade. Aqui se dilui a violência e a luta social. E a peça televisiva transforma o cangaço em um produto midiático para ser explorado por diversas idades e audiências, sendo o “Lampião” da novela interpretado pelo galã Domingos Montagner - uma isca para o público feminino. Ocorreu, neste caso em particular, a venda deste episódio da nossa história como algo que foi exótico, divertido e caricato, fazendo-nos concluir que a mitologia do cangaço ainda não foi esgotada e está aberta a muitas ressignificações.


Mariana Carolo

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