o grito mudo

sobre tudo aquilo que carrego em mim

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

Céline – um louco dentro do insano século XX

No romance Pulp, de Charles Bukowski, o detetive Nick Belane é contratado pela Morte para encontrar um escritor chamado Céline, que estaria circulando por Los Angeles mesmo depois de morto. Já este artigo busca apresentar quem fora o indivíduo homenageado por Bukowski. Sim, o Céline realmente existiu. Em vida, foi um francês de convicções repugnantes. Entretanto, é inegável que a sua escrita revolucionou e se encontra entre as melhores da literatura moderna. Entenda abaixo porque conhecê-lo se faz necessário...


Céline nasceu em Courbevoie, periferia parisiense, no ano de 1894. O seu nome de batismo era Louis-Ferdinand Auguste Destouches. Sobre o seu pseudônimo, o mesmo pode ser explicado como uma homenagem para a avó materna, de quem pegara emprestada a alcunha.

louis-ferdinand-celine-a-meudon_1222763465.jpgLouis-Ferdinand Céline

A família do escritor, composta por comerciantes e burgueses decadentes, era bastante problemática. Louis Céline nos deu uma mostra de como era doentio o ambiente em que foi criado ao relatar a sua juventude no livro Morte à Crédito. A referida obra, lançada em 1936, é um romance de formação às avessas, no qual Céline procura escancarar em cada linha a miséria humana: a sua, a de sua família, a das figuras que habitavam as vielas de Paris... A existencialista ideia central, como entrega o título, é a de que viver seria esperar pelo fim, quando terminaria a agonia do cotidiano. É digno de nota que as melhores páginas de Morte à Crédito ocorrem quando o autor rememora os episódios traumáticos de sua infância, como quando o pai batia nele por considerá-lo relaxado.

Ainda sobre Morte à Crédito, Céline nele radicalizou aquela que depois seria vista como a sua marca: o uso de uma linguagem musical e de expressões populares. Contudo, a proposta da publicação não foi bem compreendida - foi dito que lê-la era “chafurdar na merda” - e Morte à Crédito não recebeu a aclamação que a sua primeira produção, Viagem ao fim da noite, teve.

celine.jpg

“Viagem...” também é autobiográfico, e o livro deu fama à Céline pela sua percepção do trauma coletivo que fora a I Guerra Mundial. Nele, conta-se como um jovem estudante, Ferdinand Bardamu, acabou nos fronts. E é através dessa trajetória que o autor, que realmente abandonou os seus estudos para servir ao exército francês, revela para seus leitores que a guerra era tudo o que ele não compreendia. E que como, de missão em missão, o que ele mais temia era morrer carregando batatas.

A história de Viagem ao fim da noite também se desenvolve nas colônias da África, em um hospício e nos Estados Unidos. Todos, pintados em tons infernais e, sem exceção, lugares que o escritor realmente visitara. Apesar da recepção calorosa de parte da crítica, a inovação e o tom de “Viagem...” fizeram Louis Céline perder o Goncourt de 1932. Naquele ano, a justificativa dos jurados do prêmio era a de que eles não podiam laurear grosserias. É que não podemos esquecer que, até a década de 1930, Em Busca do Tempo Perdido ditava o que seria boa literatura. E, se Marcel Proust era delicadeza, fineza e meios-tons, Céline era a crueza, a sujeira e a violência de um tempo de recessão.

lf-celine.1190847904.jpg

Porém, o maior escândalo da vida deste homem começou em dezembro de 1937. Foi quando Céline embarcou numa viagem sem volta pelo anti-semitismo e racismo, defendidos por ele com uma fúria até hoje inexplicável. É a partir desta data que ele começa a publicar alguns panfletos de ódio e a dar entrevistas exaltando a perseguição aos judeus e outras minorias. Apesar de, posteriormente, ele ter negado as referidas declarações, impõe-se o peso da realidade dos registros.

Logo após o desembarque dos aliados na Normandia, Destouches escapou da França com um salvo-conduto fornecido pelos alemães. Esta temporada de sua vida é contada na trilogia De castelo em castelo, Norte e Rigodon, ainda não traduzido para o português. Em fevereiro de 1950, Louis-Ferdinand foi condenado a um ano de prisão, ao estado de indignidade nacional e ao confisco de seus bens. Anistiado alguns meses depois, retornou à França em 1951, reinscrevendo-se na Ordem dos Médicos. Por fim, Céline morreu de congestão cerebral, aos 67 anos, desprezado e esquecido. Contudo, recebeu o reconhecimento póstumo de outros escritores. Entre eles, o já mencionado Bukowski, os beatniks que se encantaram com a sua prosa fluída e Henry Miller. Sobre este último, reza a lenda de que ele teria reescrito o seu Trópico de Câncer após ler “Viagem...”.

Concluímos colocando que, ao longo dos seus anos, Louis-Ferdinand Céline participou de momentos chaves da história ocidental, como a I Guerra Mundial, a dominação da África, a crise dos anos 30 e o Holocausto. Estas vivências estão refletidas no seu legado, que nos presenteia com um olhar niilista, e muitas vezes também insano, sobre tais fatos de nossa história. E, se em um momento inicial, é possível acreditar que estamos diante de um indivíduo de convicções esquerdistas, a sua recusa de qualquer crença na capacidade e na bondade humana derruba tal tese. E acaba nos mostrando que a sua pessoa vivia era num permanente estado de quase loucura.


Mariana Carolo

a dona de mil galáxias.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Mariana Carolo