o grito mudo

sobre tudo aquilo que carrego em mim

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

Millennium – (Nem) toda unanimidade é burra

Conheci a trilogia Millennium no ano de 2009, quando trabalhei em uma livraria. Na época, por a série estar fazendo um sucesso comercial avassalador, torci o nariz para ela. Entretanto, tempos depois, me despi dos preconceitos e resolvi dar uma chance para a obra. Tive então uma grata surpresa e uma experiência literária instigante.


A trilogia Millennium, editada no Brasil entre 2008 e 2009 pela Companhia das Letras, é composta pelas seguintes partes: “Os homens que não amavam as mulheres”, “A menina que brincava com fogo” e “A rainha do castelo de ar”. O autor da tríade é o sueco Stieg Larsson, que, por morrer de ataque cardíaco em 2004, não presenciou o retumbante sucesso de seus livros.

426-stieg-larsson-124263107543371600.jpegStieg Larsson

É interessante mencionar a teoria de que o infarto que fulminara Larsson, na verdade, teria sido induzido. Esta hipótese advém do fato de que o sueco, em vida, foi um respeitado jornalista, que denunciara várias organizações neofascistas e xenófobas. E que, por manter tal postura, era constantemente ameaçado de morte. Contudo, nada foi provado até agora.

Também não se sabe se é realidade, ou apenas boato, os rascunhos de continuações que estariam armazenados no computador do escritor. Muito se fala e pouco se tem, pois ainda estão ocorrendo disputas judiciais pelo legado do morto e, atualmente, novas publicações só complicariam ainda mais os trâmites legais. Mas vamos ao que interessa... O que torna Millennium maior que um simples best-seller policial?

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Quando acabamos de ler a série, a sensação que fica é a de que o autor sempre soube o que estava fazendo. Isto porque a trilogia é um engenhoso quebra-cabeça. A cada página que avançamos, personagens aparentemente irrelevantes mostram a sua importância e fatos que acreditávamos banais revelam-se peças indispensáveis na conclusão da trama... Só o que fica claro desde o começo é que os protagonistas de Millennium são Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist.

Lisbeth Salander é descrita como uma hacker, bissexual, superdotada e com problemas de interação social. É levantada a possibilidade de que, talvez, ela possua a Síndrome de Asperger. Porém, o tema não é mais bem desenvolvido. Fisicamente, ela se assemelharia mais com um adolescente punk do que com uma mulher em torno dos vinte e poucos anos. E a sua vida teria mais mistérios e problemas do que piercings e tatuagens em seu corpo...

rooney-mara-talks-being-compared-to-noomi-rapace-as-lisbeth-in-dragon-tattoo.jpgA Lisbeth Salander do filme estadunidense e a das adaptações suecas, respectivamente

Para sobreviver, Lisbeth é uma competente investigadora de uma empresa de segurança, apesar de quase todos na firma acreditarem que ela é só “a garota retardada do café”. Por fim, outra de suas características é a de “odiar homens que odeiam mulheres”, o que fez da personagem uma espécie de heroína feminista. É digno de nota que, ao longo de sua história, Stieg Larsson procurou denunciar os crimes cometidos contra mulheres na Suécia, como o tráfico humano de fim sexual. O que desconstrói o mito de que tal local é um “paraíso” e nos mostra que, infelizmente, estamos no século XXI e ainda não nos livramos da chaga da misoginia.

Já Mikael Blomkvist é uma espécie de alter-ego do autor: jornalista na casa dos cinquenta anos, sócio de uma revista chamada Millennium. Um homem desleixado com a aparência, mas, mesmo assim, sedutor e mulherengo. O “super Blomkvist” (apelido odiado pelo mesmo) se tornaria atraente por ser inteligente, íntegro e obstinado em denunciar o que estaria errado ao seu redor. Doa a quem doer... Inclusive a ele mesmo.

mikael-blomkvist_michael-nyqvist-e-daniel-craig (1).jpgO Michael Blomkvist da trilogia cinematográfica sueca e o do americano “Os Homens que não amavam as mulheres”

Tanto que, quando o conhecemos, nosso herói está arruinado financeiramente e com pouca credibilidade no meio jornalístico. A causa da sua decadência é a condenação que recebera por “difamar” o poderoso empresário Wernerstrom. Logo, as circunstâncias o levam a aceitar empreender uma investigação sobre o desaparecimento da sobrinha do milionário Henrik Vanger, episódio ocorrido na década de 1960. Este inquérito é a premissa de “Os Homens que não amavam as mulheres”. Nele, Blomkvist e Salander se conhecerão e serão apresentados ao público. O laço construído aqui é o que os unirá para enfrentarem os eventos futuros. Uma ligação que se concretiza muito pela hacker, tão desiludida com o ser humano, enxergar no jornalista qualidades que acreditava não existirem mais, como bondade e honestidade.

millennium-2011_macintosh.jpgCenas de “Os homens que não amavam as mulheres”

Como um fica sabendo da existência do outro? Primeiramente, Lisbeth é contratada para revolver a vida de Mikael. A finalidade desta sua pesquisa era a de Vanger assegurar-se que o “super Blomkvist” era realmente confiável para o serviço que iria lhe propor. Depois, ela é chamada para auxiliá-lo no caso Harriet Vanger. Sim, “Os Homens...” é repleto de clichês, como o do assassino que tem na bíblia uma inspiração para os seus crimes. No entanto, aqui, eles funcionam e o final é inesperado.

Os momentos mais relevantes de Millennium sucedem em “A menina que brincava com fogo” e “A rainha do castelo de ar”. Não é possível falar muito, já que as surpresas fazem parte do prazer que a saga proporciona, mas pode-se dizer que, nestes volumes, Mikael e Lisbeth se unem para enfrentar o Estado sueco. Este que não seria benevolente, igualitário e preocupado com os seus cidadãos. Mas sim composto por indivíduos que abusam dos seus e que cometem os piores crimes com a abstrata justificativa de que fazem o que fazem “em prol do bem geral”.

filmes_1695_A-Rainha-do-Castelo-de-Ar-5.jpg Cena da adaptação sueca “A rainha do castelo de ar”

As armas dos dois serão a resistência e a tenacidade de Blomkvist e o domínio do fluído território cibernético que Lisbeth possui. No espaço virtual, ela não seria só uma menina, um alvo. Na terra dos bytes, ela seria uma vespa de ferroada letal. Para concluirmos, é possível que talvez, daqui a cem anos, Millennium não seja um grande clássico... O que não impede que, atualmente, a sua leitura seja uma experiência extremamente prazerosa. Com ela, o tempo passa mais rápido que um clique.


Mariana Carolo

a dona de mil galáxias.
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