o grito mudo

sobre tudo aquilo que carrego em mim

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

Sherlock

Como seria se o maior detetive de todos os tempos e o seu fiel companheiro vivessem as suas aventuras em pleno século XXI?


Não é novidade que a obra de Arthur Conan Doyle já foi exaustivamente adaptada para o cinema e televisão. Exemplifica a afirmação os blockbusters Sherlock Holmes (2009) e Sherlock Holmes: o jogo das sombras (2011). Contudo, conseguir trabalhar com o legado de Sir Doyle de uma forma criativa, sem recorrer dogmaticamente aos clichês que todos conhecem, é um feito bem mais raro. O seriado da BBC, Sherlock, ao pintar o retrato de um Sherlock Holmes (Benedict Cumberbatch) e de um Dr. John Watson (Martin Freeman) contemporâneos, consegue realizar tal proeza.

sherlock_holmes_bbc_tv_series_image_01-600x450.jpgSherlock Holmes e Dr. Watson, respectivamente

Com duas temporadas até agora, e a promessa de uma terceira para o fim deste ano ou início de 2014, a série se propõe a responder a pergunta que introduz o artigo. Assim, a cada programa, casos célebres dos amigos ganham uma roupagem moderna, repleta de referências pop e de sarcasmo.

Antes de prosseguirmos, é válido relembrar que uma distinção dos seriados britânicos é a curta duração. Particularmente, penso que tal marca pode ser tanto uma qualidade quanto um defeito. Predicado pelo fato de que um tempo reduzido impede que as produções se tornem entediantes cópias de si mesmas. Já defeito seria por deixar a audiência, quando conquistada, sedenta por mais...

sherlock3.jpgAbertura do seriado

No caso de Sherlock, estamos falando dessa propriedade enquanto um problema. Isso por que, juntas, as temporadas totalizam modestos seis capítulos. É verdade que, pela longa duração, 1h30min cada, eles podem ser chamados de telefilmes – que de tão ágeis e divertidos que são, quando acabam, deixam a sensação de “mais já terminou?” e a agonia de uma espera sem previsão exata de fim.

Seguindo a ordem dos livros, Um Estudo em Vermelho foi o texto que serviu de inspiração para o episódio piloto de Sherlock, que recebeu o título de Um Estudo em Rosa. Nele, o primeiro personagem que aparece é o Dr. Watson, um médico que acabara de retornar do Afeganistão e que está sofrendo de stress não por carregar traumas da guerra, mas por estar sentindo falta da adrenalina do conflito. Logo, quando ele é apresentado por um conhecido em comum a Sherlock Holmes e aceita dividir com aquela excêntrica figura o apartamento 221B da Baker Street, os seus problemas se resolvem. Pois conviver com Holmes é uma garantia de emoção a todo instante.

foto-do-seriado-ingles-sherlock-da-bbc-1337986080852_300x420.jpgA nova aparência do endereço 221B, Baker Street, Londres

Assim, não demora para o doutor assumir o cargo de auxiliar, bem como o de melhor amigo do investigador. E a dinâmica entre eles flui tão naturalmente que as piadas sobre o caráter do relacionamento da dupla são inseridas constantemente no roteiro da série.

Algumas das figuras do universo sherlockeano, como Lestrade, o chefe de polícia que está sempre solicitando os serviços do detetive, e Mycroft Holmes, o irmão mais velho, surgem já em Um Estudo em Rosa. Entretanto, o coadjuvante mais emblemático terá o seu rosto revelado ao público só em O Grande Jogo (1TX03EP). Estamos falando do único homem capaz de fazer frente à nobreza intelectual de Sherlock Holmes, do gênio do crime que tece e comanda a teia dos eventos como quer: Jim Moriarty.

Andrew Scott as Jim Moriarty on Sherlock Series Two Finale The Reichenbach Falll.pngJim Moriarty

Seria uma injustiça não citar o magnífico trabalho que Andrew Scott construiu em cima deste ícone do mal. Pois ele arriscou tudo ao produzir um Moriarty que, pelas suas características (olhos arregalados e cruéis, movimentos abruptos e histéricos, risada maquiavélica, a habilidade inata do disfarce), se assemelha aos vilões sessentistas de James Bond, que mais faziam rir do que assustar. Todavia, por sua entrega e energia ao atuar, os espectadores são convencidos de que ele é insano e perigoso de verdade. Para finalizar, é preciso ressaltar que os principais intérpretes do seriado estão no mesmo nível de Scott. O desempenho em cena de Benedict Cumberbatch e Martin Freeman é tão complexo que seria preciso redigir outro artigo para falar do tema com propriedade.

Sherlock-1x01.jpgSherlock em ação

Em Sherlock, a dedução continua sendo a ferramenta mais empregada pelo sábio detetive. Contudo, estamos no terceiro milênio e, por isso, computadores, celulares e afins se fazem presentes nos empreendimentos de Watson – que, na série, escreve as suas memórias em um blog - e Holmes. Mostrando que o programa sabe transformar o humor em uma arma a seu favor, temos a cena em que Lestrade, citando a famosa franquia estadunidense sobre peritos especialistas em tecnologias, fala que a dinâmica de trabalho de Sherlock seria como a de um CSI Baker Street... E como é agradável assistir a um produto televisivo que sabe fazer rir. Logo, por tudo o que foi posto, é possível dizer que, hoje, a série faz parte das jóias da Coroa. Vale a pena desfrutá-la.


Mariana Carolo

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