o grito mudo

sobre tudo aquilo que carrego em mim

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

A literatura de Daniel Galera

Um olhar sobre a obra desse jovem autor brasileiro



Hoje em dia, devido à correria do cotidiano, literatura é algo que quase não faz mais parte da minha rotina. Pois, para ler um livro, é necessário entregar-se com disposição, uma qualidade que tem me faltado. Assim, nesse estado de espírito em que me encontro, a arte da leitura vem acompanhada da incômoda sensação de que o referido ato é, na verdade, uma grande perda de tempo.

fleixeiras.jpg Daniel Galera

Contudo, recentemente, descobri o trabalho de Daniel Galera, e o mesmo conseguiu me tirar dessa apatia. Assim como a flor que Carlos Drummond de Andrade recita em seu célebre poema “A náusea”, tais textos furaram o tédio dos meus dias. Eles foram uma surpresa agradável, da qual ressalto como único porém a abstinência que estou sofrendo após terminar os títulos.

Daniel Galera é um jovem de origem paulista que viveu a maior parte da sua vida em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Ele lançou os seus primeiros trabalhos - “Dentes guardados” e “Até o dia em que o cão morreu” - por uma editora própria, a “Livros do Mal”, que criara em parceria com amigos e que acabou alcançando o status de cult.

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No meio da década passada, o escritor tornou-se um nome da renomada Companhia das Letras. Por ela relançou “Até o Dia em que o Cão Morreu”, publicou “Mãos de Cavalo”, “Cordilheira” e “Barba Ensopada de Sangue” (sua última obra), além de colaborar na elaboração da HQ “Cachalote”.

barbas.jpg O último livro de Galera

Também é digno de nota que, no ano de 2007, foi filmado “Cão sem Dono”, a adaptação em película de “Até o dia em que o Cão Morreu”. E que, no momento, está se encaminhando a produção cinematográfica de “Barba Ensopada de Sangue”.

cão sem dono.jpgCapa do filme “Cão sem dono” (2007)20px;" />

Pesquisando sobre o trabalho em questão, tomei conhecimento de que alguns especialistas denominam a obra de Daniel Galera de “literatura masculina”. Isso pelo fato de que o universo do autor seria povoado por personagens masculinos, que emitiriam opiniões e percepções de mundo que seriam próprias do gênero.

6267557ok.jpgCena da HQ Cachalote

Considero essa uma visão que diminui as criações de Galera. Primeiro, pelo fato de que as personagens femininas, apesar de poucas, são tão ou mais fortes, atuantes e complexas que as construções masculinas do autor. No mais, esse é um rótulo que não traduz a força das linhas do escritor. Muito mais do que masculina, a sua literatura é regida por instintos que não são exclusividade de nenhum sexo. Notamos uma primariedade quase brutal, e por que não dizer bela, em cenas que narram um apartamento destruído, quentes atos voluptuosos ou o desejo de sangrar para se sentir vivo.

cachalote 700.jpg Trecho da HQ Cachalote

Outra questão importante é a de que um leitor mais desatento pode acusar o escritor de tratar apenas de problemas que dizem respeito a jovens brancos de classe média. Em contrapartida, afirmo que, aproveitando a ideia de Tolstói de “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, Galera trata daquilo que entende para falar de temas como as relações humanas e as frustrações que estão atreladas as mesmas, as dificuldades do crescimento, a inadaptação, a força do lembrar e do esquecer, o amor em suas várias facetas...

Não me aprofundarei nas tramas e nos muitos outros aspectos do tema em questão, pois não quero tirar de ninguém o deleite que é descobrir esse talento brasileiro. Termino o artigo afirmando que sim, o mais rápido possível, leia Daniel Galera. Quem sabe ele também acabe com o seu tédio.

"Levará alguns minutos para o rosto sumir. Restará apenas um borrão. Não importe o quanto ele goste da pessoa, acontece toda vez. Mas não permitirá que aconteça enquanto ela estiver ali dentro do apartamento. Aproveita que ela tá aí. Um, dois, três, valendo" (GALERA, Daniel. Barba ensopada de sangue. 2012. página 409)

cena do filme "Cão sem dono"

Link do site de Daniel Galera: http://ranchocarne.org/

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias.
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