o grito mudo

sobre tudo aquilo que carrego em mim

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

Caio Fernando Abreu e as redes sociais

Pílulas que de nada ajudam. Mas que contam muito sobre o nosso tempo.



Caio Fernando Abreu foi um escritor sul-rio-grandense das décadas de 1970, 80 e 1990. Um dos porta-vozes da chamada “geração coca-cola”, dentre as suas obras mais famosas temos Morangos mofados (1982), Onde andará Dulce Veiga? (1990) e O ovo apunhalado (1975).

caio-fernando-abreu1.jpgCaio Fernando Abreu

Homossexual assumido, Caio F. faleceu no ano de 1996, em decorrência da AIDS. Nessa época ainda não havia tratamentos contra o vírus HIV, que era erroneamente chamado de “câncer gay”.

Sexo, desajustamento, morte e amor foram alguns dos principais temas do autor. Que os tratava de um modo visceral, quase cru. Além disso, em suas linhas, ele sempre deu voz a personagens outsiders:

“(...) Botas brancas até o joelho, minissaia de couro, cabelos presos no alto da cabeça, pulseiras tilintando, a maquiagem de prostitutas borrada (...) – era Jacyr. - Oi – cumprimentou. E depois, agressivo: - Que foi bofe, nunca me viu? Eu disse: - A sua mãe está preocupada. Você sumiu, Jacyr. (...) Em vez de suspirar, peguei um cigarro. - Me dá um. - Você só tem treze anos (...). - Catorze – Jacyr corrigiu (...)”. (ABREU, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga?: um romance. 2012. Página 55).

Devido às características de seu trabalho, o gaúcho era o que podemos chamar de uma figura maldita. Atesta-nos a afirmação o fato de que, em vida, Caio Fernando Abreu nunca conseguiu grandes tiragens, pois a sua escrita era considerada forte e suja demais para virar aposta editorial. Só que os tempos mudaram, e o sucesso pós-morte de Caio ocorreu de uma maneira um tanto que inesperada.

Quase 20 anos depois, Caio Fernando Abreu estourou devido ao barulho que o seu legado começou a fazer nas redes sociais. Segundo matéria da Folha, a busca por "Caio Fernando Abreu" no Twitter e no Facebook traria um novo resultado, em média, a cada 15 segundos. Nessas plataformas, encontramos um mar de citações levando o nome do escritor, sendo que muitas nem seriam realmente dele. Mas de onde surgiu essa repentina paixão por Caio F.?

Como já foi dito, Caio, quando produzia, falava com passionalidade. Além disso, era um homem cheio de incertezas e contradições. E é inegável que transgressão, dúvidas e ternura são chamariscos para os jovens de qualquer época. Por isso, quando começaram a pipocar na web alguns de seus trechos - quase sempre descolados de seu contexto original e, na maioria das vezes, extraídos dos “picos otimistas” do beletrista - os internautas começaram a compartilhar tal conteúdo. Sobre as menções que levam falsamente a sua alcunha, essa apropriação, provavelmente, foi a maneira que os verdadeiros mentores de tais “pílulas” encontraram para disseminarem as suas criações no mundo virtual.

O lado negativo dessa “febre Caio” é um reflexo de nosso tempo fluído e fragmentado. As pessoas procuram rapidez e aparência. Logo, citar uma frase que nem se tem certeza da autoria é considerado mais interessante do que descobrir as nuances de um livro – algo que exige tempo e comprometimento. É por causa dessa superficialidade que sofremos que Caio F., hoje, é conhecido por alguns como um “guru da auto-ajuda”. Título que, certamente, ele não merece. Torçamos para que, pelo menos, um adolescente se interesse em ir além das frases bonitas do Twitter e do Facebook. Certeza que, de onde estiver, Caio irá respirar aliviado se isso ocorrer.

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias.
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