o grito mudo

sobre tudo aquilo que carrego em mim

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

Pasquim, o deboche e o feminismo

Revolução, pero no mucho


O movimento feminista dos anos 1960/70 surgiu junto com outros grupos de oposição à ditadura civil-militar brasileira. O mesmo denunciava o caráter violento da dominação masculina e lutava contra as condições de vida das mulheres da época. Contudo, as feministas não foram discriminadas apenas pelos partidários do regime autoritário.

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A chamada esquerda também as rechaçava. Não por acaso o Pasquim, periódico que foi o mais famoso adversário midiático do regime, só se mostrava conservador no que concernia às questões de relações entre gêneros.

A pesquisadora Rachel Soihet aponta que a reação mais comum desse grupo ante o feminismo era a zombaria. Para além da justificativa de que feminismo era “futilidade, pois a luta deveria se concentrar na derrubada do governo”, Soihet nos traz declarações do Pasquim que mostram a mentalidade dos seus editores:

“Connecticut, nos EUA, as licenças de cachorro têm a forma de um hidrante. Organizações feministas prontamente protestaram contra a discriminação sofrida pelas cadelas. Depois as mulheres se queixam quando a gente manda elas pro tanque, pra cozinha, pra cama, esses lugares enfim onde são mais úteis, chateiam menos e podem usar melhor a cabeça”. (LESSA, Ivan. Cadelas, uni-vos! O Pasquim, n. 345, p. 31, 6 a 12 fev. 1976. In: SOIHET, Rachel. Zombaria como arma antifeminista: instrumento conservador entre libertários. Estudos Feministas, Florianópolis, 13(3): 320, setembro-dezembro/2005).

A violência simbólica contra mulheres ativas também era inoculada em entrevistas, charges e piadas discriminatórias. Desta forma, a comicidade do periódico tendia a reproduzir imagens sobre o movimento que se contrapunham aos ideais coletivos do que seria próprio do feminino.

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Entretanto, as feministas nunca pararam de se organizar e de enfrentar o descrédito da sociedade. Assim, na década de 1970, a mobilização começou a apresentar resultados. Utilizando novamente o Pasquim, um indicador foi o aparecimento, em suas páginas, de algumas matérias de intelectuais como Elice Munerato e Iza Freaza.

Ou seja, o Pasquim continuou a publicar conteúdo machista, só que as mulheres estavam se impondo cada vez mais. Foi essa mesma geração que nos legou várias vitórias, como a incorporação do trabalho feminino no inconsciente coletivo e a visibilidade das diferentes formas de exclusão de gênero. Contudo, o caminho ainda é longo, não por acaso mulheres brasileiras recebem quase 30% menos do que homens que ocupam o mesmo cargo ou tem de assistirem a leis que querem interferir em seus corpos, como é o caso do estatuto do nascituro.

Termino este artigo lembrando que nenhum humor é neutro, ele sempre vinculará mensagens sociais (feministas são histéricas, judeus são avarentos, obesos são incontroláveis). Devemos tomar cuidado para não perpetuarmos preconceitos de maneira quase inocente. Já que é muito fácil rir do oprimido, difícil é debochar do opressor.


Mariana Carolo

a dona de mil galáxias.
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