o grito mudo

sobre tudo aquilo que carrego em mim

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

A tristeza extraordinária do leopardo das neves

Nós também somos um pouco criatura.


Joca Terrón é um escritor que nasceu em Cuiabá e atualmente está radicado na megalópole de São Paulo. Possui vários títulos, de poemas, contos e prosa. Esse ano, o também designer lançou o seu último livro, pela editora Companhia das Letras, chamado A Tristeza Extraordinária do Leopardo das Neves.

tristeza-extraordinaria-do-leopardo-das-neves_bx.jpg A interessante capa da obra

“A Tristeza Extraordinária...” é uma obra que fornece uma experiência de leitura satisfatória. Não pelo seu desfecho, pois é possível deduzi-lo com algumas páginas de antecedência (mais ou menos na metade do livro já temos uma noção do que ocorrerá), mas sim por seus personagens e pelas suas relações bem construídas.

0,,21397186-EX,00.jpg Bairro do Bom Retiro, São Paulo

Antes de aprofundarmos as figuras da composição, é necessário mencionar o palco em que elas se encontram. Terrón escolhe, acertadamente, o bairro do Bom Retiro como cenário de sua obra. Esse, majoritariamente operário em sua origem, começou no século passado a receber imigrantes – italianos, sul-coreanos, bolivianos e judeus. É um espaço que, quase um Frankenstein por seu mosaico de cores, línguas e corações, diz muito sobre a pluralidade étnica do ser brasileiro. Ou, melhor, do ser humano em qualquer lugar do mundo globalizado de hoje.

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É no Bom Retiro que vamos ser apresentados ao taxista de gostos refinados e as suas feras, ao escrivão insone e alcoólatra (um narrador que se equilibra na corda bamba do clichê), a um apaixonado entregador de compras, a velhos judeus ortodoxos – fantasmas vivos de um passado agonizante do bairro – e a uma bióloga aspirante à celebridade da mídia. Também conheceremos uma enfermeira religiosa e solitária, responsável pelos cuidados do que o autor chama de a criatura.

maxresdefault.jpg A criatura sempre se vestia com uma capa de chuva vermelha, calças e galochas

Tal ser, vestida sempre com uma capa vermelha e repulsiva em sua aparência de monstro, acaba sendo a mais humana das personagens. Pois à medida que a trama vai se desenrolando, vamos conhecendo o lado animalesco dos outros. E, por que não dizer, um pouco nosso também... Aqueles cantos escuros, selvagens, que liberamos nas noites de nossa existência. Aliás, a noite e o sangue são os dois elementos que permeiam toda a narrativa.

Entrar na trama é entregar surpresas para possíveis futuros leitores, mas é dever comentar sobre como a obra é mais do que uma simples novela policial. Nas relações entre as personagens, a incapacidade comum de perceber e administrar as diferenças – uma hora, o escrivão se questiona se eram vários bolivianos ou apenas um só que atendiam na mercearia de seu pai, já que eles seriam todos iguais mesmo –, conflitos com o quem se é e, entre outras problemáticas, a agonia da morte, o final que espera a todos nós.


Mariana Carolo

a dona de mil galáxias.
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