o grito mudo

sobre tudo aquilo que carrego em mim

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

Garota, interrompida

O lado não tão rosa de ser uma garota.


Após ingerir uma grande quantidade de comprimidos e bebida alcoólica, uma confusa jovem de 18 anos se interna voluntariamente em um hospital psiquiátrico. Ela permanecerá trancafiada nessa instituição durante quase dois anos. Enquanto isso, é 1967 e os Estados Unidos está sendo engolido pela onda do rock e do sonho hippie.

images.jpg Cartaz do filme Garota, Interrompida

A trama do filme Garota interrompida (1999), que tem Winona Ryder como protagonista e deu o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Angelina Jolie, se torna ainda mais interessante quando descobrimos que a mesma é baseada em um caso real. Mais especificamente, no ácido relato de Susanna Kaysen.

susanna.jpg Susanna Kaysen

Kaysen é uma escritora norte-americana que tem em Garota, interrompida, livro homônimo do filme, a sua obra mais famosa. No título, de 189 páginas e publicado no Brasil pela editora Gente, ela nos conta como foi a sua passagem pela instituição psiquiátrica. O testemunho é enriquecido com as fichas médicas da escritora, como o seu Extrato da Internação Voluntária (27/04/1967) e o Relatório de Alta Ambulatorial (09/04/1968).

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A linguagem de Garota, interrompida é fluída, jovial, quase bem-humorada... Ao longo do texto, a autora procura estabelecer um diálogo entre os leitores e a menina que um dia ela foi. E Susanna obtêm sucesso em sua missão. Como leitora, senti uma intensa conexão com a sua obra. Tanto que, entre idas e vindas, a terminei no mesmo dia em que comprei a publicação. Além do mais, destaca-se a franqueza do texto, que é aberto com a seguinte fala:

(…) AS PESSOAS ME PERGUNTAM: como você foi parar lá? O que querem saber, na verdade, é se existe alguma possibilidade de também acabarem lá. Não sei responder a pergunta. Só posso dizer: é fácil. (…) (KAYSEN, Susanna. Página 11. 2007.)

O questionamento da fronteira entre a normalidade e a insanidade perpassa toda a publicação. Um bom exemplo é quando a autora explica a sua tese sobre as razões que as famílias internariam os seus membros “anormais”:

(…) Os lunáticos são como rebatedores escalados em uma partida de beisebol. Muitas vezes, a família toda é louca, mas, como não se pode mandar uma família inteira para o hospício, um de seus membros é declarado louco e internado. Aí, dependendo da reação do resto da família, essa pessoa permanece internada ou é liberada, de forma que ateste alguma coisa sobre a saúde mental familiar (…) (KAYSEN, Susanna. Páginas 110-111. 2007).

Garota, interrompida tem relação com a teoria de Michel Foucault de que a sociedade disciplina através do corpo. A disciplina residiria no detalhe, funcionando através de um controle minucioso dos gestos, hábitos, atitudes e comportamento daqueles que devem ser adestrados.Nesse sentido podemos enxergar o horário de tomar remédio, o da ronda, os passeios programados para fora do Hospital Mclean ...

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Indo além, essa atenção se redobraria quando tratamos do feminino. O objetivo seria o de que a mulher não caía na armadilha da sexualidade desenfreada, já que uma fêmea que manda em seu corpo e em seus prazeres não seria dominada por mais ninguém. Felizmente, apesar de tudo, Susanna não se dobra completamente. Ela ainda está aí, para nos alertar do perigo de queremos julgar o que é normal e o que não é.


Mariana Carolo

a dona de mil galáxias.
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