o grito mudo

sobre tudo aquilo que carrego em mim

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

Sobre True Detective

O homem é o pior dos animais


True Detective é um produto do conceituado canal HBO, que está exibindo a primeira temporada do programa no começo desse ano - o último capítulo vai ao ar dia 9 de março. A produção teve uma recepção positiva desde a sua estreia, com os críticos derramando adjetivos como “impecável”, “brilhante” e “antológica”.

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Apesar da introdução, aviso ao leitor que o presente texto não irá enumerar os muitos elogios dados ao show. O artigo também não se aprofundará na descrição da intrincada trama e não falará sobre a atuação dos protagonistas (Woody Harrelson e o vencedor do Oscar Mathew McConaughey). O objetivo dessas linhas é delinear uma das razões que faz o público da série cativo da mesma, assistindo aos seus episódios repetidas vezes em busca de não se sabe muito bem o que ...

true-detective2.jpg Woody Harrelson e Mathew McConaughey

Primeiramente, não há romance em True Detective, ali as relações deterioram-se e a solidão é inevitável. O pouco humor que encontramos é involuntário. E o riso que o programa nos tira é angustiado, quase uma maneira de extravasarmos o mal-estar que ele nos causa. Esqueça os personagens tradicionais, todos têm falhas. A ação é bastante pontual, o que povoa a tela são longos monólogos e planos de uma miserável Louisiana. Sobre os diálogos, eles são complexos, pomposos. É fácil perder uma fala, ainda mais quando essa é sobre como a raça humana é um desvio evolutivo, já que teríamos adquirido uma consciência exagerada de nós mesmos...

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Não são empregados gore ou clichês do gênero “suspense/terror” contemporâneo. E os rumos da história apontam para uma conclusão trágica. Além disso o autor deixou claro que não utilizará truques ou um desfecho sobrenatural. Por fim, as qualidades técnicas são excelentes, mas nada que fuja do padrão HBO. Então, levando em conta tais características, pergunta-se: qual é a razão do sucesso de um seriado que vai tão na contramão dos adorados happy ends?

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Aqui apresento a minha leitura para tal fenômeno: a obra de Nic Pizzolatto está mexendo com a imaginação do público por ela trabalhar primorosamente com um dos nossos maiores tabus – a gratuidade da maldade humana. Na série, não há transcendências ou respostas metafísicas. Apenas os nossos piores atos. Nesse sentido, tantas teorias e formulações da audiência, no fundo, também são uma tentativa quase filosófica de entender o mal em sua essência. E, como está destacado no pôster de divulgação do show, o homem é o pior dos animais. Assim, os monstros ali apresentados nos assustam tanto por eles serem os nossos semelhantes. Capazes de crueldades inomináveis para com aqueles que deveriam proteger, é marcante a cena alegórica da inocência morta nos braços do policial...

truedetective5.jpg O monstro não é um sonho. Ele é real.

No mais, a questão do divino em conjunto com a problemática do mal (“Eu sempre quis conversar com Deus, mas só recebi o silêncio”) torna a mistura de True Detective incendiária. Junção incômoda de interrogações que todos nós carregamos. Assim, ao apreciarmos True Detective, temos uma experiência quase catártica, que nos proporciona um exorcismo de tudo o que de pior existe e que somos impotentes para erradicar. Concluo ressaltando que, se o leitor decidir por conhecer o que a série proporciona, saiba que viverá algo bastante forte. Mas, ao mesmo tempo, libertador.


Mariana Carolo

a dona de mil galáxias.
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