o grito mudo

sobre tudo aquilo que carrego em mim

Mariana Carolo

a dona de mil galáxias

As profundezas de Mr. Robot

Hello, my friend (contém spoilers sobre a trama)!


Mr. Robot é uma série de televisão estadunidense criada por Sam Esmail. Exibida desde junho de 2015 pelo canal USA Network, ela também está disponível em serviços on line de vídeos sob demanda (Amazon Prime). Conta com duas temporadas, que totalizam 22 episódios, e uma terceira leva encontra-se em transmissão. Desde a sua estreia, Mr. Robot foi aclamada, tendo recebido indicações e diversas premiações como o Emmy e o Globo de Ouro.

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A história começa com Rami Malek dando vida ao protagonista Elliot Alderson, um jovem programador que trabalha com segurança virtual e que é um hacker no seu tempo livre. A vida do introvertido rapaz muda quando ele é recrutado por Mr. Robot (Christian Slater), líder de um grupo que pretende acabar com a E Corp., conglomerado que Elliot é pago para ajudar a proteger. Por questões pessoais, o rapaz engaja-se na arriscada empreitada. A partir desse momento, na narrativa, a empresa passa a ser chamada de Evil Corp.. Essa nomeação é um modo dos personagens demarcarem a companhia como a causadora do mal que teria destruído a vida de cada um deles e que, coletivamente, adoeceria a todos nós, uma espécie de câncer que precisaria ser extirpado.

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Uma visão maniqueísta do show pode transmitir a ideia de que estamos assistindo a heróis lutando contra vilões, esses que personificariam os males do capitalismo. Se levarmos em conta que a emissora que produz a série faz parte da Comcast, grupo com receita de bilhões de dólares, percebemos que essa é uma leitura irônica. É inegável que no programa encontramos profundas críticas ao sistema em que vivemos. Um bom exemplo ocorre no primeiro episódio (eps1.0_hellofriend.mov), quando Elliot, ao ser questionado por sua terapeuta sobre o que lhe incomodava na sociedade, joga na cara do público fatos como a Apple ter prosperado fazendo uso de trabalho infantil. No entanto, Mr. Robot é um produto de mídia e, na vida real, ele enriquece ainda mais os homens que são combatidos em sua narrativa.

O capitalismo tem como uma de suas principais características a adaptabilidade. Ele absorve elementos de oposição à sua existência e os transforma em produtos que o beneficiam. O programa ter se inspirado em movimentos de contestação como o “Occupy Wall Street” é uma prova disso. Aliás, é curioso destacar que o próprio roteiro da série ressalta esse aspecto. Em um exercício de metalinguagem, o episódio que abre a terceira temporada (eps3.0_power-saver-mode.h) traz o protagonista caminhando pelas ruas e, ao fundo, vitrines de lojas exibindo souvenires dos revoltosos, camisetas com o slogan “fsociety”, bem como cartazes promocionais de um seriado sobre o hack que é o norte da história.

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Tal sinceridade é um dos fatores que coloca Mr. Robot como uma obra com múltiplos aspectos a serem pensados. Como essa é uma resenha, serão elencados aqui os tópicos que destacaram-se na minha perspectiva do programa:

* O fator mineral de conflito – Na série, a China deseja anexar o Congo. Essa seria uma busca do gigante vermelho, peça central nas relações diplomáticas pós hack. White Rose, enigmática figura que está no alto escalão do Partido Comunista Chinês, realiza manipulações nos “bastidores do poder” para a concretização da tomada do país africano. Pesquisando um pouco, descobre-se que o Congo é uma das maiores minas de Coltan do mundo. Combinação do columbite e tantalite, atualmente ele é mais valioso que o ouro e considerado um mineral de conflito. Essa importância decorre do Coltan ser essencial para a fabricação das novas tecnologias, já que é resistente ao calor e capaz de armazenar energia. Uma questão ainda trabalhada de maneira indireta no programa, mas que deverá ser desenvolvida nos próximos episódios.

* As cripto moedas e as corporações – Na série elas tornaram-se uma realidade imposta pelo caos que o hack de Mr. Robot desencadeou. Por não haver mais dinheiro em papel, se adotou a moeda digital. Nesse sentido, o que era problema virou uma oportunidade para a Evil Corp. A empresa cresceu em poder, já que acabou se tornando a geradora do único meio de troca disponível. As cripto moedas representam uma nova etapa do capitalismo. Existe uma grande variedade de moedas digitais, que são produtos de empresas e geridas pela lógica selvagem das mesmas. Sem regulamentações oficiais, críticos afirmam que o bem digital é uma forma de lavagem de dinheiro que impulsionaria o crime organizando. Ainda engatinhando no lado de cá da tela, projeções indicam que as criptomedas não vão desaparecer. Pelo contrário, ganharão cada vez mais vulto nos sistemas financeiros mundiais.

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* A revolta – O que leva alguém a se revoltar contra algo? O que leva um grupo a se rebelar? Os fins realmente justificam os meios? O que acontece depois da revolta? Essas são perguntas que a série coloca, quando mostra o que aconteceu depois dos planos iniciais da FSociety. Elliot, no decorrer dos episódios, então sofre com um dilema que Albert Camus trata em o Homem Revoltado (1951): a revolta nasce do desejo de estabelecer justiça e unidade. Quando os resultados nos frustram, mudamos as nossas trajetórias para conseguirmos o que almejamos. Esse seria o instante em que ocorreria a deturpação da revolta, da força positiva que a impulsionaria. Logo, o movimento ainda é válido? E o que fazer com a roda da história, que gira descontroladamente, atropelando a tudo e a todos?

Representações das doenças mentais (o espectador é como uma voz na cabeça do protagonista), o papel das mulheres na computação, as relações humanas e as novas tecnologias são outras das possibilidades de reflexão que Mr. Robot proporciona aos seus espectadores. Urgências desse nosso indefinido tempo, o que faz de Mr. Robot mais do que um entretenimento superficial.


Mariana Carolo

a dona de mil galáxias.
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