o labirinto de prometeu

pensar o aqui e agora

Daniel Gamito Marques

no meio da correria em que vivemos todos os dias também faz bem parar e pensar de vez em quando

"Restless" (Gus Van Sant, 2011): maior do que a própria morte

O que é a vida? E o que nos pode ensinar a morte? Porque é que estamos aqui e o que é que fazemos com o tempo que nos foi dado? Dois jovens adolescentes andam à procura das respostas em “Restless” (2011), o último filme de Gus Van Sant.


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Vivemos rodeados pela morte. Todos os dias morrem pessoas. Todos os dias morrem milhares de células no nosso corpo. E ainda assim continuamos com a nossa vida. As sociedades ocidentais transformaram a morte num autêntico tabu. As pessoas querem continuar com o mesmo aspeto que tinham aos vinte anos, e são capazes de recorrer às operações mais arriscadas em nome de uma cara sem rugas, ou umas coxas sem gordura. Envelhecer torna-se um sinal de que a morte está mais perto, de que não se está no auge da sua potência, de que não se corresponde à produtividade de uma sociedade capitalista. Ser velho é estar acabado, fora da moda, e condenado a um sofá em frente a uma televisão, numa casa com mais trinta velhos com problemas neurológicos. Não há lugar para a morte no mundo em que vivemos.

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Então, o que acontece quando a morte nos bate à porta? O que fazer quando ela surge sem aviso e no auge da nossa vida? Arranjamos sempre alguma forma de lidar com a morte, como sempre acontece com todas as perguntas a que não conseguimos dar resposta. No caso de “Restless” ("Inquietos"), Enoch (Henry Hopper) não consegue deixar de assistir a funerais de pessoas que não conhece. Depois de os seus pais morrerem num acidente, ele deambula pela vida como um fantasma preso entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. O seu melhor amigo é Hiroshi (Ryo Kase), um piloto de aviões kamikaze que morreu na segunda grande guerra. Enoch vive a vida como se também tivesse morrido no acidente que vitimou os seus pais.

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Um dia, porém, num dos funerais a que assiste, Enoch conhece Annabel (Mia Wasikowska). A princípio, Enoch foge e esquiva-se a qualquer contato que ultrapasse a barreira da formalidade, apesar da curiosidade de Annabel; mas um pequeno episódio e, depois disso, um encontro casual aproximam-nos de novo, sem aviso, como todas as coisas belas e simples que acontecem na vida. Annabel também está a aprender a lidar com a morte à sua maneira. Tem de passar algum tempo no hospital para fazer vários exames médicos por causa de um cancro que lhe foi diagnosticado. À medida que se começa a aproximar de Enoch, a morte começa a envolvê-la, até que recebe a notícia de que não terá muitos mais meses de vida.

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A partir daqui, poderíamos assistir a mais um filme lamechas, muito puxado ao sentimento, com grandes dramas, gente a chorar litros de lágrimas, e uma música piegas. Gus Van Sant não faz nada disso. Não é que ele fuja ao conflito que se gera a partir do momento em que Enoch e Annabel percebem que vão ter de conviver com a morte todos os dias da sua amizade. Gus Van Sant distancia-se de todas as pieguices a que estamos habituados, e mostra-nos o que é mais importante que isso: a forma como estes dois adolescentes conseguem desenvolver uma relação a partir da presença da morte nas suas vidas. Eles são adolescentes, e como todos os adolescentes não estão sempre a pensar na morte. E apesar de ela estar sempre lá, acompanhando-os onde quer que vão, é a vida que brota a todos os instantes da morte que os rodeia. Gus Van Sant tem esta capacidade de dar a volta ao óbvio, e sobretudo em relação à adolescência. Ele é um dos realizadores que melhor sabe mostrar-nos o que é realmente a adolescência, uma fase da vida cheia de grandes transformações que é demasiadamente simplificada e mal compreendida por muitos. Com Gus Van Sant não há respostas fáceis ou frases feitas.

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É exatamente por se debruçar sobre a adolescência que este se torna não num filme sobre a morte, mas num filme sobre a vida. Esta vida é, antes de mais, a vida que há na morte, o movimento de transformação, que se encontra inscrito na raiz da palavra adolescência. Adolescência deriva do étimo latino adolescere, que é um verbo e não um nome, e que designa esse movimento de crescer ou brotar.

A transformação está presente em nós e em tudo o que nos rodeia, e ela é inerente à natureza. Annabel encarna o poder transformador da própria natureza, assistindo à sua morte progressiva, não podendo fazer nada para o evitar nem lutando contra o inevitável, apenas passando pela vida com a suavidade de um pássaro que paira no ar uns momentos antes de pousar os pés na terra. Annabel ama a natureza e os pássaros, procura saber tudo sobre eles, e admira o grande naturalista inglês Charles Darwin, e não podia ser de outra maneira. Darwin foi o autor da teoria da evolução por seleção natural, uma teoria que deu uma explicação científica para o modo como a vida evolui, como as espécies se modificam, e onde a morte tem um papel fundamental. É a morte dos indivíduos menos bem adaptados a um dado ambiente que torna possível aos indivíduos mais bem adaptados reproduzirem-se mais e transmitirem as suas caraterísticas mais vantajosas, como um bico mais duro ou uma visão mais apurada, aos seus descendentes. Darwin mostrou aquilo que Enoch e Annabel corporizam: que a morte é algo fundamental à existência de toda a vida.

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É certo que, em determinados momentos, são a frustração e a raiva que nos dominam. Não acreditamos que seja possível que alguém importante para nós possa vir a desaparecer, e não queremos que isso aconteça. Mas isso acontece. Não sabemos o que está, como disse Fernando Pessoa, através das palavras de Alberto Caeiro, para além da curva da estrada. O que é mais importante, contudo, é que aqui, aonde estamos, há só a estrada antes da curva, e antes da curva / Há a estrada sem curva nenhuma. Apesar disso, e se não vale a pena pensar demasiado na morte, também é certo que é um erro ignorá-la. Ela está presente em todos os momentos, em todos os instantes, e lado a lado com a vida. A única coisa que podemos fazer é aprender a viver com ela, e a estarmos preparados quando ela chegar.

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Enoch e Annabel apaixonam-se. Mas o amor deles não é trágico. O amor deles é puro e belo, como a vida e a morte o são. E porque nasce da morte e ultrapassa a morte que os rodeia, o amor deles torna-se maior do que a própria morte. Em cada instante, ele torna-se eterno. “Restless” é um dos filmes mais belos que vi nos últimos tempos. É de uma beleza que não consegue ser descrita por palavras, e que só as imagens podem captar. Lembra-nos que, quando há amor, nada mais importa, e que em cada instante cabe a eternidade, se estivermos suficientemente atentos para reparar nela. É verdade que o amor não vence tudo. Nem sequer a vida pode superar a morte. Mas, ao pé do amor, a morte deixa de fazer sentido. Porque o amor é o pedaço de eternidade que os deuses nos concederam nesta vida. E porque a vida é tão grande e tão rica que consegue mesmo incluir a morte, ela é aquilo que temos de mais precioso e a que devemos o maior respeito. A vida é como um ser vivo: nunca permanece parada, nem mesmo frente à morte. A vida é um perpétuo movimento de transformação, e viver é deixar-se ir nesse movimento. Quando Enoch e Annabel se confrontam a si próprios e, finalmente, se entregam à vida percebemos porque é que o filme se chama “Restless”. Acima de tudo, é o desassossego que move a vida e que nos dá força para irmos mais longe.

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Daniel Gamito Marques

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