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"Carnage" (Polanski, 2011): o único e verdadeiro deus

em Cinema por em 03 de fev de 2012 às 02:19 | 2 comentários

O que pode acontecer quando se deixa que adultos complicados tentem resolver os problemas simples das crianças? O desastre total. É o que Roman Polanski nos mostra no seu novo filme “O Deus da Carnificina” (2011).

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Quando eu andava à escola e alguém se metia comigo, eu sabia que estavam a gozar comigo. Hoje já não é assim. Se fosse hoje eu não estava a ser gozado, estava a ser vítima de bullying. O bullying é uma daquelas doenças novas, assim do século XXI, que os psicólogos inventaram para poderem justificar o seu trabalho precário, a recibos verdes, em qualquer instituição pública que ainda os queira empregar. Tem um estatuto próprio. Como a attention deficit hyperactivity disorder, que em português se traduz mais usualmente por hiperatividade. É outra doença do século XXI. No meu tempo, diziam-me simplesmente: “Bem, parece que tens bichos-carpinteiros no rabo”. Mas isso é porque eu andei à escola nos anos 90. Se fosse agora, era muito mais in. Agora as doenças vêm em língua estrangeira e tudo, que é quase sempre o inglês, a língua que dominou comercialmente o mundo. Eu próprio estou tão infetado dessa língua que dou por mim a começar uma frase em português e a acabá-la em inglês. Mas que culpa tenho eu de os livros por onde tenho de estudar estarem todos em inglês? É a vida. Mas quem fica a ganhar somos nós, os dos países colonizados pela potência imperialista norte-americana: nós sabemos várias línguas, os americanos sabem na melhor das hipóteses a deles, e já vão com sorte.

Na verdade, a infância nem sempre foi levada tão a sério. Ainda durante o século XIX, as crianças podiam trabalhar em condições que nos fariam corar de vergonha. Mas isso não significa que os pais gostassem menos delas, ou que se quisessem aproveitar dos filhos. Os filhos tinham simplesmente de trabalhar para que houvesse dinheiro em casa para dar de comer a todos. A vida era assim. Era uma vida muito mais dura que a nossa. A revolução industrial contribuiu para afastar as crianças do mundo do trabalho por uns anos e transferi-las para a escola, o sítio onde poderiam aprender os conhecimentos de base que seriam úteis para mais tarde saberem manejar e projetar máquinas. Ao mesmo tempo, uma outra sensibilidade para com as crianças começa a emergir ao longo do século XIX, e prova disso é o interesse de vários escritores em escolher crianças para os protagonistas das suas histórias, como Oliver Twist (1838) ou Alice no País das Maravilhas (1865). A influência da carga hereditária, por um lado, e das condições de existência, do meio onde se vive, da educação que se recebe, começam a ser vistas como fatores importantes no desenvolvimento das crianças. Posteriormente, estudos como os de Freud e Piaget vêm demonstrar que as crianças não são simplesmente adultos em ponto pequeno, mas seres que pensam, sentem e agem de um modo particular, um modo intrinsecamente distinto daquele que é característico dos adultos. E começa-se então a dar mais importância às crianças e a seguir com maior atenção o seu desenvolvimento.

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Hoje em dia, sabemos que a infância e a adolescência são períodos muito importantes das nossas vidas. As experiências por que passamos nessas fases servem-nos de referência para o futuro, e podem ter uma grande influência sobre vários aspetos da nossa personalidade. Hoje em dia as pessoas sabem isso. Sabem-no até bem demais, ou pensam sabê-lo. Ter um filho implica não só uma grande coragem e responsabilidade, mas também um compromisso permanente, muitas dores de cabeça e muitas horas de sono mal dormidas. Preparar um filho para o mundo que vemos lá fora não é nada fácil, é prepará-lo para um mundo muitas vezes chato e cruel, injusto, onde é preciso competir, lutar pela vida, e ganhar dinheiro para pagar as contas de casa. E quando as taxas de natalidade andam tão baixas em tantos países ocidentais (Portugal, por exemplo, tem uma das mais baixas taxas de natalidade da União Europeia) e os filhos são cada vez mais raros, não admira que se tornem um bem precioso. Há demasiadas expetativas em cima deles. E, por extensão, põem-se demasiadas expetativas em cima daqueles que estão mais diretamente envolvidos no seu desenvolvimento. Lá por os pais não terem uma vida fácil, isso não significa que larguem os filhos na escola como quem espera que os professores façam milagres, ou os tratem como se eles fossem os seus próprios filhos!

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Felizmente, todas estas paranóias não pertencem ao mundo dos filhos, que continuam a brincar e a viver a sua vida como se nada acontecesse. Estas paranóias pertencem ao mundo dos pais, aos adultos que pensam que sabem educá-los; e é por isso que, se os filhos estão mal, a culpa é normalmente dos pais. São sempre os pais que estragam os filhos. O que Polanski nos mostra no seu filme é isso mesmo. Aquilo que podia ter sido uma rixa casual entre dois rapazes torna-se num caso de agressão dirigida e intencional. É a própria mãe do miúdo “agredido”, sempre ciosa daquilo que lhe pertence, que faz questão de frisar doentiamente o assunto. Os pais do “agressor”, apesar de alguma boa vontade inicial, não estão realmente interessados no caso. É certo que o “agredido” perdeu alguns dentes e teve de ir ao hospital – afinal, levou com um pau em cheio na cara! –, mas cenas de porrada entre miúdos não passam disso mesmo, e daí a uns dias eles já estão bem um com o outro como se nada se tivesse acontecido. Quem é que nunca passou por isso? Tudo bem, o “agredido” pode depois pregar assim uma rasteira ao “agressor”. Mas não há nenhum mal nisso, é só para ficarem quites.

Levamo-nos demasiado a sério. E os pais levam o que acontece aos seus filhos demasiado a peito. Este pequeno episódio entre dois rapazes é igual a tantos outros. Mas a mãe do rapaz “agredido” não quis deixar que as coisas ficassem assim. Então, convida os pais do “agressor” para uma pequena reunião familiar, uma reunião de casais. Como em todas as reuniões, esta também começa pela diplomacia. Trocam-se as conveniências sociais do costume, os com-licença-se-faz-favor-obrigado-veja-lá-desculpe, e começa-se de mansinho, que é para preparar o terreno para exigências de orgulho ferido. Só que nada corre bem. E o que acontece quando nada corre bem? Manda-se a diplomacia ao ar e as pessoas fazem aquilo que sabem fazer melhor: invocam o deus da carnificina.

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Quem é este deus? Um ser do outro mundo? Nada disso. É um deus muito humano, o mais humano de todos os deuses. É o deus que todos invocam quando não há mais nada a fazer, quando todas as opções se esgotaram. E vale a pena rezar-lhe com toda a força, que ele nunca deixa nenhuma prece desatendida. O deus da carnificina é aquele deus primordial que nos impele a fazer a primeira coisa que nos vem à cabeça, é a fonte de todo o instinto animal que serve de fundação à nossa mente e que é anterior ao nosso pensamento racional e intelectualizado. E é também aquele que guarda a parte mais genuína daquilo que somos, a parte que só é aquilo que realmente é, e que permanece indiferente às convenções sociais ou às racionalizações em que nos refugiamos sempre que podemos. Depois de invocado o deus da carnificina, os dois casais não se tornam propriamente mais crianças que os próprios filhos; o que acontece é que eles se tornam mais iguais àquilo que realmente são. Nesse momento, caem todas as máscaras e podemos ver, finalmente, que as verdadeiras questões por detrás daquela reunião aparentemente pacífica não passam de frustrações e conflitos pessoais, dificuldades em lidar com o parceiro ou com a própria vida miserável que cada um deles leva.

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Devo confessar que assistir a este filme no cinema é uma autêntica sessão de terapia social. Tomar consciência de como as pessoas usam as razões mais absurdas para justificar os seus comportamentos desesperados, ou as tentativas mais idiotas para salvar aparências em que ninguém acredita, é extremamente instrutivo. E sentir que todos nós, os que estamos na sala, nos rimos do ridículo que há nas reações dos pais daqueles miúdos, tão despropositadas – e que na verdade também são as nossas, por vezes – é verdadeiramente libertador. É um exercício de catarse coletiva, um exemplo do poder que o humor mais refinado tem. A comédia, nas palavras de Aristóteles, era o género em que se apresentavam os homens piores do que eles eram, ou seja, em que se deformavam os seus defeitos para eles se tornarem maiores e mais evidentes. A minha experiência diz-me que, afinal, a verdadeira comédia é apenas aquela que apresenta os homens piores do que eles parecem.

Apesar de este argumento não soar tão bem em cinema como soaria em teatro, o formato para o qual foi originalmente escrito (e aqui temos de dar os parabéns à autora Yasmina Reza!), nem por isso deixa de valer a pena ser visto, e todo o divertimento e satisfação que podemos tirar dele ainda é maior ao vermos, reunidos num só filme, tantos bons atores. Uma coisa é certa: agora já não hei-de cair nos erros de nenhum daqueles casais se no futuro uma coisa semelhante acontecer comigo. A roupa suja lava-se em casa, e com as próprias mãos. Ok, mas se se chegar a passar alguma coisa deste género vou ficar atento. Ao menos, hei-de pensar duas vezes antes de invocar a ira do deus da carnificina – afinal, para que é que ele serve? Pelo sim pelo não, vou tornar-me seu amigo. De certeza que é capaz de me dar bons conselhos.

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danielmarques
Artigo da autoria de Daniel Gamito Marques.
no meio da correria em que vivemos todos os dias também faz bem parar e pensar de vez em quando.
Saiba como fazer parte da obvious.

Comentários

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Edson Moreira

Grande analise. Já louco para ver essas crianças não crescidas.

Obrigado! Só agora reparei que o filme só estreia no Brasil em junho!

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