o labirinto de prometeu

pensar o aqui e agora

Daniel Gamito Marques

no meio da correria em que vivemos todos os dias também faz bem parar e pensar de vez em quando

"SHAME" (Steve McQueen, 2011): QUANDO ESTAR COM ALGUÉM NÃO CHEGA

Haverá alguma coisa que possa saciar a nossa vontade? Quando o sexo não chega, há espaço para mais alguma coisa? Do conflito entre o individual e o social nasce “Shame” (2011), o último filme de Steve McQueen.


Shame-poster2.jpg

As cidades são, para muitos de nós, a nossa casa. Habituámo-nos a ter eletricidade ao alcance de um botão, água canalizada ao abrir uma torneira, um hospital não muito longe onde podemos tratar as nossas doenças; e ainda escolas, supermercados, empresas, cinemas, e um sem-número de coisas mais ou menos inúteis, mais ou menos dispensáveis, onde nos podemos entregar aos nossos impulsos mais profundos. Atualmente, vivem mais pessoas em cidades do que no "campo”, aquele lugar onde vamos fazer curas espirituais, e que não conseguimos nomear sem sentir uma nostalgia de coisa perdida.

As cidades estão cheias de pessoas que correm de um lado para o outro, que se atropelam, que não pedem licença, e que só sabem olhar para baixo ou para a frente. As cidades de hoje vomitam pessoas, doenças, problemas, desencontros, numa enxurrada caótica e dispersa, alienante, nauseabunda, e muito pouco saudável. E, apesar de estarmos rodeados de pessoas por todos os lados, seja em prédios com trinta andares onde se engavetam pessoas de qualquer maneira, seja em metros, autocarros/ônibus, elétricos/bondes, barcos, nunca estivemos tão sozinhos. Até podemos ter um bom emprego, como Brandon (Michael Fassbender), podemos até ter uma ótima carreira, ganhar dinheiro para sermos independentes, termos a nossa própria casa, pagarmos as nossas próprias contas, sair e divertirmo-nos com os colegas de trabalho, mas nunca deixamos de estar sozinhos.

shame-party.jpg

shame-alone2.jpg

Brandon é uma destas pessoas. Quem não o entende, quem não passa de um exame superficial à materialidade dos factos, pode dizer que ele é um ninfomaníaco. Vemos Brandon a saltar de mulher em mulher, em relações sexuais mais ou menos casuais, a viver os seus impulsos sem nunca parecer satisfeito. Seja ao vivo ou pela internet, seja com altas executivas ou prostitutas, seja com colegas de trabalho ou com desconhecidas, seja a dois ou a três, Brandon não consegue parar. Ele encarna Eros, o instinto humano que, segundo Freud, nos impele para a vida, e que tem uma natureza eminentemente sexual, a libido. Ele não compreende porque sente esse desejo, ele tenta até contê-lo, delimitá-lo, ou afastá-lo da sua vida, mas nunca consegue. Ele luta contra aquela que é a sua maior vergonha exterior, mas sai sempre vencido.

shame-laptop.jpg

shame-sex2.jpg

Será que podemos censurar Brandon por não conseguir conter a sua libido? Afinal, quantos de nós conseguimos controlar verdadeiramente as nossas? Se analisarmos bem a vida nas cidades, descobrimos rapidamente que estamos cercados por estímulos cujo único objetivo é despertar a nossa libido. Na televisão, na publicidade, nos jornais, na internet – e quantas vezes na cara das outras pessoas! – , somos bombardeados com sexo, desejo, ou formas fáceis de obter prazer. Basta digitar o número, comprar aquela peça de roupa, ou sacar o cartão de crédito. Mas também não nos devemos esquecer de que, se o sexo vende, devemos dar graças à nossa herança cultural judaico-cristã, que nos instiga a ideia de que resguardar as partes baixas é ser virtuoso.

shame-sex.jpg

shame-opening.jpg

Brandon não é, contudo, mais uma presa fácil da democratização e capitalização do sexo. Ele é um produto daquilo em que a cidade se transformou. Brandon não procura apenas o prazer. Brandon é incapaz de estabelecer uma relação de intimidade com alguém. Abrir-se aos outros, confiar, deixar que surja uma ligação íntima entre o eu e o outro, é impossível para Brandon. O mundo moderno obrigou Brandon a ir para uma cidade procurar emprego, e ele foi para a mais terrível das cidades: Nova Iorque. Estamos muito longe da Nova Iorque de Truman Capote, com a sua envolvência cosmopolita e personagens surpreendentes. Nova Iorque é a cidade da solidão, das massas de gente que andam dum lado para o outro, das luzes que nunca se apagam, da competição frenética por um lugar no pódio, dos bares em festa para engate, dos prédios gigantescos onde ninguém se conhece, dos arranha-céus que não deixam ver a luz do sol e nos esmagam contra o chão. Brandon esqueceu o que é dar-se a alguém, fechou-se em si mesmo, e a única coisa que resta é a carapaça de uma intimidade que só não deixa de ser humana porque ainda se pode agarrar ao sexo.

shame-alone4.jpg

Ninguém conhece Brandon, e quase ninguém procura conhecê-lo. As pessoas da cidade não têm tempo para isso, nem sequer quando percebem que os outros não estão bem. A única pessoa que mostra um genuíno interesse por ele é a sua irmã Sissy (Carey Mulligan). Ela conhece-o, e quer ajudá-lo, embora não saiba como. Mas Sissy também tem os seus próprios problemas. Ela encarna, por oposição a Brandon, o instinto humano que, segundo Freud, nos conduz à morte ou auto-destruição, Thanatos. Apesar de criticar o irmão, também ela não sabe criar uma relação de intimidade com alguém; neste caso, porém, a sua maneira de lidar com as coisas é dar-se a toda a gente. Sissy é, tal como Brandon, um produto da cidade. A cidade desumaniza, e é preciso uma grande força de vontade para nos mantermos fiéis ao que realmente somos por entre todas as engrenagens da gigantesca máquina social para onde somos todos os dias atirados. Viver na cidade não é fácil, e não são muitos os que resistem.

shame-newyork.jpg

Para problemas como estes não há receitas milagrosas, ou curas especiais. A carne é fraca, e o meio nunca ajuda. Não temos outra opção senão viver cada dia o melhor que conseguirmos e, contra tudo e todos, persistir. Steve McQueen fez um filme magnífico, uma obra de arte sublime, um verdadeiro hino à humanidade. A verdade é que temos de estar sempre atentos àquilo que nos torna humanos, ou corremos o risco de nos perdermos no meio dos nossos impulsos. Cultivar a humanidade não é dar-se a todos ou não se dar a ninguém. É saber dar-se. A intimidade é um bem demasiado precioso para ser desperdiçado em coisas que não valem a pena.

shame-withsister.jpg

shame-sex3.jpg


Daniel Gamito Marques

no meio da correria em que vivemos todos os dias também faz bem parar e pensar de vez em quando.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/Cinema// @destaque, @obvious //Daniel Gamito Marques