![alte_buecher[1].jpg](http://lounge.obviousmag.org/o_limiar_da_lucidez/alte_buecher%5B1%5D.jpg)
Algumas pessoas têm o costume de, ao adquirir um livro, assinar nele seu nome. Outras, ainda, de o datarem. Eu não faço nada disso. Não faço também oposição alguma. Tenho um amigo que possui tal hábito. Já me presenteou vários livros e neles sempre há seu nome e a data que os adquiriu.
Não sou daqueles que acha um crime rabiscar um livro. Pelo contrário: acho que um bom livro tem de estar rabiscado, tem de ser velho, cheirar a 1888, ter as páginas amarelecidas, a lombada um pouco gasta... Não é que eu não goste dos livros novos. Gosto. Tanto quanto. Mas os antigos me dão a sensação de terem sido escritos em épocas que eu gostaria de ter ao menos presenciado...
Mas eu dizia que não acho um crime rabiscar um livro, tracejar algumas frases, circular algumas palavras e fazer anotações. Acho que isso diz muito da pessoa que o manuseia. Por exemplo.
Possuo o livro “Cânticos”, da Cecília Meireles, 3ª edição da Editora Moderna feita em 1983. Nele há anotações (e são muitas) de alguém que provavelmente era jovem e principiava os estudos sobre poesia, pois os versos estão divididos silabicamente e com seus significados ao lado, próprio de quem o tomou apenas para passar nas provas escolares.
Da mesma autora tenho as “Poesias completas”, da Civilização Brasileira, de 1974, que reúnem “Poemas de viagens”, “Poemas italianos” e “O estudante empírico”. Ali o dono limitou-se a escrever se gostara muito, pouco ou nada do poema. Percebe-se, pela escrita abreviada, que devia ser uma pessoa irrequieta, talvez com uma rotina agitada, que lia aquilo para um trabalho de faculdade ou por consideração a alguém que lhe era caro e devia ter lhe dado o livro.
Mas o que mais me fascina são as dedicatórias na contracapa. Acho gostoso ir a um sebo e encontrá-las nas minhas aquisições, como cartas que o mar conduz. Elas contam histórias, sugerem sentimentos, esboçam imagens de lugares e tempos afastados.
No livro “Sonata do desencanto”, de Cleómenes Campos, Editora Saraiva, 1950, uma tal Nair de Campos oferece a um amigo, “com o máximo respeito e o mais sincero aprêço”, os versos que ali vão. Ela escreve de Mogi das Cruzes, em 28-11-952.
Já em “A flor, o pássaro e o vento”, de Maria Thereza Galvão, um livro de sonetos editado pela Livraria Martins Editôra em 1966, a coisa é um pouco mais íntima. Nele é a própria autora quem faz a dedicatória, demonstrando uma proximidade para com os agraciados que remonta a épocas mais tranqüilas e frutuosas.
O que muito me cativa nessa dedicatória é o fato de ela ter sido feita em 13-08-1981, nove dias antes do meu nascimento. Quem poderia imaginar, a autora poderia imaginar que seu livro um dia estaria nas mãos de um que nasceu 15 anos após sua publicação? Poderia ela imaginar que a sua proximidade para com aqueles seria agora a minha proximidade para com ela?
Isso, esse encontrar vestígios de vida de outras pessoas nos livros, que não o próprio autor e sua obra, participar um pouco de certo momento de suas vidas, imaginar como viviam, se ainda vivem e como estão, o que sentiam na hora que escreviam, supor o antes e o depois, essa relação com o passado, com a história de outros, é para mim fascinante.
Em “Os melhores poemas de Fernando Pessoa”, Global Editora, 1994, há uma das dedicatórias mais familiares que já tive o prazer de encontrar nos livros da vida. Transcrevo-a na íntegra abaixo, e deixo que você, meu leitor, sinta-a por si próprio.
“Isabella
Eis aqui um dos maiores poetas da língua portuguesa. Conhecê-lo é fundamental, amá-lo é inevitável! Sua poesia é para toda a vida, quem o conhece jamais tira seus livros da cabeceira. Você que quer fazer Comunicação conviverá com ele para sempre. Leia-o e sinta-o e concentre-se, com certeza você vai amá-lo e à língua portuguesa.
e
95 na faculdade!
Boa sorte.
Carol, Mimi e Gidinho”
É certo que os donos não tiveram consideração por aqueles que os presentearam, especialmente nossa Isabella, que parece não ter amado como queriam os seus agraciadores ao seo Pessoa, já que tais livros se encontram nas minhas mãos. Mas se não fosse isso eu não teria me relacionado com essas almas literárias, sentido um pouco de sua existência.
Acho que as dedicatórias são um livro à parte.
Comentários
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Melissa
Com certeza daria um livro a parte, uma trilogia, um coleção inteira desses fragmentos tão bacanas que se esparramam por aí e viram memória.
Seus posts são sempre bacanas :)
Cibelle Macedo
Pensei que só eu gostava de achar vestígios de outras pessoas nos livros. Quando encontro dedicatórias, desenhos de crianças ou apenas a data e o nome do antigo dono é para mim uma especie de tesouro ainda mais quando é bem antigo. Sei lá, acho magico =)
JouJoux
Uma observação: não vamos esquecer de tantos livros que emprestamos e não tomamos de volta (pauta para outro texto). No íntimo, duvido que Isabella tenha vendido, ou mesmo doado, seu Pessoa para algum sebo. Imagino mesmo que tenha sido um belo de um esquecido, mal agradecido, que há tê-lo feito.
fabiana alves
Texto belíssimo! Mas me pergunto pq não há este apego pelos livros com dedicatórias pois ficam muito mais vivos, especialmente únicos!
BJS,
Muito agradecido, mon amour, por esse "belíssimo". Não sei porque muita gente se desapega de livros assim; talvez por não apreciá-los mais ou por nunca tê-los apreciado e crer que não há mal em se desfazer deles. Mas enfim. Para mim é algo interessantíssimo. Algo, como eu disse, "à parte".
Beijos e beijos,
Olá, JouJoux. Pode ser, sim, que a Isabella tenha emprestado seu livro a outro e este nunca lhe devolvido. Mas como então eu o teria adquirido num sebo? Aquele a quem ela o emprestou nunca mais lhe devolveu e passou-o a um sebo? De qualquer forma, ela não se importou tanto assim em reavê-lo, não?... Que seja! Afinal, eu que acabei por ser "presenteado".
Abraço,
Sim, Cibelle, também eu gosto dessas "singelezas" encontradas nos livros. Antigas principalmente. Como você disse: algo "mágico".
Abraço,
E não dariam?... Muito obrigado, Melissa, pela apreciação deste e de meus outros posts. Fico mesmo grato por isso!
Abraço,
Eduardo Ferreira Moura
Também é importante lembrar que as pessoas morrem! De repente Isabella não está mais entre nós...
Mirella
Otimo post.
Linda homenagem à história de cada exemplar.
Adoro o universo dos sebos, me encanto com a idéia de tocar em livros que já percorrem tantas mãos, tantos lares...povoando o imaginário de tantas pessoas.
Parabéns pelo blog.
Beijinhos.
Mirella (www.milla-delapraca.blogspot.com)
Meu caro Eduardo, não leve tão a ferro e fogo o fato de eu achar que faltou consideração de Isabella no caso referido: é apenas uma crônica, uma singeleza da escrita, por assim dizer. No entanto, acho difícil a possibilidade (verdadeira possibilidade) de Isabella estar morta, já que, como registram a crônica e a dedicatória, ela recebera o livro em 1995. Poderia estar? Sim, mas acho difícil.
Abraço,
Muito obrigado, Mirella! Gosto deveras dos sebos, desse universo. A imaginação que esse espaço suscita é algo extraordinário, exatamente pelo descrito e comentado. Grato pela apreciação!
Abraço,
Agulha3al
Excelente texto! Tenho um amigo de muitos anos que é meio duro nas demostrações de sentimento. Já me presentou com livros, mas a primeira dedicatória que ganhei dele foi acompanhando de um texto seu! um abraço!
Muito obrigado, Agulha3al! Fico feliz por sua apreciação! E, a propósito, acho que também sou meio simplório nas minhas dedicatorias... rsrs.
Abraço,
Fernanda
Para os amantes de dedicatórias... conhecem esse tumblr?
http://eutededico.tumblr.com/
Pois é, Fernanda, conheço esse blog, sim: muito bom! Recomendo!
Grato pela visita!
Abraço,
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