Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância.
Sobe-me à boca uma ânsia, análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme ― este operário das ruínas ―,
Que o sangue podre das carnificinas
Come e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
A idéia
De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera e, depois, quer e executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...
Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica!
Versos íntimos
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão ― esta pantera ―
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro;
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Pau d’Arco, 1901
Comentários
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natielly
Lúgubre, original, biológico e tão nojento, esse são alguns dos adjetivos que sempre virão em minha cabeça quando se trata de Augusto dos Anjos, até hoje, releio seu magnífico livro. Não me canso.
Faltou Monólogo de uma sombra, inesquecível ♥
Sim, Natielly, faltou o "Monólogo...". Deveras bom! Uma próxima... Grato pela vinda! Abraço,
Vasco
Obrigado Rodrigo por me dar a conhecer Augusto dos Anjo, o "problema" da língua portuguesa ser tão abrangente, é que não é possível chegar a todos os nossos maravilhosos autores. Abraços transatlânticos.
Que isso, meu caro Vasco; o seo Augusto é que é reverenciado toda vez que alguém o aprecia. Que bom que seus versos lhe tenham cativado. Abraços,
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